Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº68, Maio, 2011

“48″ de Susana de Sousa Dias

Imagens com 48 anos de História.

Por vezes, entramos na sala de cinema com uma certa expectativa, muito provavelmente associada à esperança de sermos surpreendidos. Pela imensidão do negro da sala, recolhemo-nos à espera de uma leitura elucidativa do que é transcrito na tela. Somos nós em algum recanto visionado? “48” revela o cru período do Estado Novo pela visão de Susana de Sousa Dias.

Mulheres

Sobreposto às fotografias a preto e branco, que foram tiradas pela PIDE aos que foram detidos e torturados, ouvimos os testemunhos das pessoas entrevistadas pela realizadora. Há fotografias que surgem intocáveis, transbordam informação. Muito provavelmente, até sem a vocalização sonora, inerente ao formato do documentário, transportam o peso da tortura. A imagem de uma mulher imóvel relata “3 dias e 3 noites. De estátua. De pé, que custa tanto. Os braços, abertos. Todos inchados. Eles caíam para baixo. Uma PIDE de cada lado! Batiam-me nos braços para cima…” A abstracção iconográfica acontece, pois apesar de não existir concretização dos actos físicos, esta pode ser vivenciada por cada espectador.

Família

Através das primeiras fotografias conhecemos a história unilateral de várias mulheres, fortes. No entanto, é através de um testemunho de um homem, o pai, que integramos a multiplicidade dos espaços e actuação da PIDE. Surge uma complexa rede de emoções vigente à possível tortura de um núcleo familiar constituído por um pai, mãe, filho e avós.

E tudo desvaneceu

Num período negro, já sem as fotografias que alimentam a linguagem estabelecida, surgem imagens de árvores à noite, “perdidas”, vultos, em paralelismo aos presos que são libertos. Culminamos, pelo testemunho de um dos entrevistados, que um dia, tudo termina, e já se podia viver, e ter filhos. E a simplicidade reina. Mas a memória não morre.

O documentário “48”, que estreia em Portugal a 21 de Abril de 2011, já foi exibido em Londres, Paris, Belgrado, Pamplona, Bratislava, Nice e Cairo.



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