Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº81, Junho, 2012

“A Balada do Mocho”

Cinema também é responsabilidade social

Começou no dia 9 de Maio, decorrendo até ao próximo dia 16, no Cinema São Jorge, mais uma edição do FESTin – Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa. Um festival onde se fala Cinema em Português. Não só através dos personagens, mas também através da câmara, do guião, das emoções.

Tem como objectivo difundir a cultura dos países de língua portuguesa, explorando as raízes e a história, desenvolvendo assim um estímulo e um culto pela 7ª arte.

Durante o festival vão estar também presentes seminários, oficinas e outras actividades de teor lúdico, para o mesmo propósito.

Não vai ser uma excepção, em relação às edições anteriores do festival, ter uma Mostra de Inclusão Social pelo Cinema. Um projecto pedagógico e de responsabilidade social, que conta com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e da EDP e é uma parceria entre o FESTin e o projecto Olhares em Foco.

No total são 12 curtas-mertragens de âmbito social e um dos destaques vai para a apresentação de “A Balada do Mocho”, dia 12 de Maio às 19h00. Uma história de ficção, na mais pura das realidades, escrita e realizada por jovens entre 9 e 15 anos, moradores do bairro da Quinta do Mocho (Sacavém), que conta com a coordenação de Francisco Baptista. Um filme focado na vivência do bairro e nas relações afectivas.

Entretanto, estivemos à conversa com o Francisco, que nos leva pela mão até à Quinta do Mocho e nos fala da experiência.

Como surgiu a possibilidade de seres convidado para esta participação especial no FESTin?

Há uns meses conheci a Léa Teixeira, uma das directoras do FESTin, num outro festival de Cinema. O CineEco em Seia. Mantivemo-nos em contacto ao longos dos meses e fui-lhe mostrando os projectos em que estive envolvido. Ela gostou e lembrou-se de mim para esta iniciativa. E parabéns e obrigado a ela, à Adriana Niemeyer e ao Victor Serra não só pela iniciativa como por me terem convidado.

É a primeira vez que participas num projecto de responsabilidade social?

É mesmo. Já andava com vontade de fazer uma coisa parecida há uns tempos e até perguntei a pessoas que trabalham na área do serviço social como é que se poderia começar uma coisa assim. Mas depois começam a aparecer outros projectos pelo meio e essa ideia foi uma das que ficou em banho maria. Por isso este convite da Léa foi mesmo ouro sobre azul!

O que achaste do projecto?

Achei logo muito interessante. Primeiro porque o objectivo era fazer uma curta-metragem de ficção e não documentário como é (praticamente) sempre nestes casos. Em segundo lugar porque tinha de “puxar” pelos miúdos para contribuírem ao máximo no processo criativo e de filmagem. Nunca poderia ir para lá e tentar ser eu a controlar a história. Não sei o que é viver naquele bairro. Não poderia simular as experiências deles e tentar reproduzi-las em filme. Iria soar a falso. Teria mesmo de partir dos miúdos.

Creio que, em qualquer projecto desta natureza, há um lado humano que, por vezes, é difícil de ignorar. Sentiste alguma dificuldade em separar as emoções do profissionalismo?

Houve. O facto de querermos fazer ficção traz dificuldades acrescidas. Como o documentário “what you see is what you get”. A bem ou a mal, se estiveres o sítio certo e no momento certo, vais apanhar coisas valiosas para incluir. Na ficção não. Na ficção tem de haver preparação e repetição. E aqui estávamos a trabalhar com um grupo de crianças que quer sempre acção e coisas novas. A repetição torna-se aborrecida e eles dão-se muito mal com isso. Nos últimos dias de filmagens, em que já estávamos apertados de tempo, tivemos de filmar demasiadas horas seguidas e, claro, houve choque.

O que aprendeste com esta experiência?

Estou-te a responder e o filme ainda não está acabado. Ainda não posso falar em tom de balanço. No entanto, houve logo a questão das expectativas antes da primeira ida à Quinta do Mocho. A Quinta do Mocho tem a fama que toda a gente sabe. E isso gera expectativas. Mas foram totalmente deitadas por terra. Posso-te dizer que já conheci dezenas de habitantes e são pessoas espectaculares e altamente dedicadas em fazer este filme andar para a frente.

Qual foi a tua maior dificuldade?

Primeiro, o facto de não saber como iria começar a lidar com estas crianças. Não tenho formação em Psicologia ou Pedagogia e tive de descobrir como é que se poderia chegar ao objectivo final e conseguir motivar os miúdos para que nos ajudassem a isso. E para isso agradeço muito a ajuda do Victor Serra, Lidia Marôpo, Daniel Meirinho, Helena Pinto e Carolina Ferreira que foram sempre incansáveis na maneira como facilitaram a minha integração no grupo das crianças. Na segunda semana percebi que só haveria uma maneira. Era separá-los em grupos pequenos e trabalhar com eles assim. O grupo todo junto é impossível! (risos) Mas em grupos pequenos são muita calminhos. E isso foi muito importante para começar o filme.

Depois há a gestão das expectativas do grupo também. Cada um queria fazer uma coisa diferente. E eu precisava de pegar naquilo e tentar dar de alguma maneira uma linguagem cinematográficas e que o Rui Ventura, o editor, pudesse trabalhar. Havia coisas que não era de todo possível e como é que se lhes explica isso? É lixado.

Por fim, o facto de nunca poder desligar do objectivo final. Tínhamos menos de dois meses para ter o filme pronto para o FESTin. Tinha de ser pragmático ao máximo. E às vezes isso implicou ser mais brusco e menos complacente. O que por sua vez também tinha de ser gerido com pinças porque se um dos miúdos com quem filmássemos mais se irritasse comigo ou com aquilo tudo podia nunca mais lá pôr os pés. Isso podia acabar com uma parte inteira da história. Felizmente não aconteceu.

Não digo isto com satisfação mas há planos no corte final do filme que foram ao primeiro e único take. Era impossível filmar mais pelas razões que já falei. E isso aconteceu numa cena específica em que eu precisava do grupo todo junto. Eram 20 e tal miúdos. Eu pensei que me ia saltar a tampa. Mas acabou tudo bem! Não me dá satisfação mas deixa-me orgulhoso do nosso trabalho!

E alguém ficou com o “bichinho” do Cinema?

Talvez! Acho que para a maior parte deles é um processo demasiado aborrecido. Mas há lá miúdos que têm apetência natural. Que conseguem imaginar as coisas a nível visual e de como pode ficar na câmara. Isso é giro! Também a nível da representação e da Música. Temos uma letra original composta e cantada por um deles, o Yuri.

Em relação à banda sonora, teve os teus inputs ou eles já sabiam muito bem o que fazer?

Não houve input nenhum da minha parte. O Yuri falou-me de um “sócio” dele que tem um estúdio, o Sson. Acendeu-se logo uma luzinha na minha cabeça de felicidade. O Yuri ficou de pedir autorização para irmos lá filmar e disse que ia escrever uma música para gravar. No dia combinado ele apareceu com o sample escolhido, letra escrita, fomos ao estúdio e ele gravou à minha frente. Foi muito fixe!

Por intermédio do Sson conheci os Império Suburbano, onde ele também é produtor. Eles foram muito porreiros e passaram-me logo o disco deles para as mãos e disseram que se houvesse alguma música que encaixasse bem no filme podíamos usar. Vamos usar quatro.

Achas que é importante haver este tipo de iniciativas? Que valor pode ter o Cinema nestes casos?

Acho! Há uma banda da Quinta do Mocho que tem algumas músicas no filme. Os Império Suburbano. Em conversa com eles uma coisa que me disseram foi que muitas pessoas dali acreditam que o “mundo exterior” os odeia. E eles com a música deles querem mostrar aos miúdos do bairro que isso não é verdade. Eu acho que este projecto, o Cinema e a Música deles pode ter o mesmo efeito. Diminuir o tamanho da ponte entre o bairro e esse “mundo exterior”.



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