Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº60, Setembro, 2010

A Violenta Emoção de Samuel Fuller

Samuel Fuller é um dos realizadores mais negligenciados de todos os tempos. Os seus filmes são excessivos melodramas sociais com uma forte dose de sensacionalismo e moral. Nenhum outro realizador manteve (com orgulho), uma carreira inteira do outro lado de Hollywood.

Há poucos realizadores que atravessaram épocas chave do cinema clássico e moderno mantendo-se sempre à margem, lutando com orçamentos minúsculos na sombra dos grandes estúdios de Hollywood. Mesmo quando Fuller conseguia orçamentos decentes as suas obras nunca atingiam sucesso comercial. Os seus melodramas caracterizados uma dose de moral verdadeiramente anti-racista e anti-guerra, mais que explorarem os conflitos sociais e raciais, são obras de um dramatismo exacerbado; estórias muito simples que são pontuadas por uma fotografia sempre peculiar e por uma paixão pelos momentos de absoluta e estranha beleza.

Fuller começa por ser jornalista. O salto para o argumento dá-se depois de escrever alguns policiais de bolso. O seu argumento para “Shockproof”, realizado por Douglas Sirk, foi o despoletar da sua carreira como realizador. Fuller não ficou impressionado com a adaptação. Quando o produtor Robert Lippert encomenda a Fuller mais 3 argumentos, o jovem escritor oferece-se para os realizar a custo zero. O primeiro filme deste acordo é “I Shot Jesse James”, de 1949. Ao terceiro filme, “The Steel Helmet”, Fuller consegue entrar  no gosto de Hollywood. Assina um contrato com a 20th Century Fox para 7 filmes.

Fuller é provavelmente daqueles realizadores de segunda linha que nunca chegou verdadeiramente ao topo. Quase todos os seus filmes foram insucessos, embora alguns tenham sido acarinhados pela crítica. “White Dog”, um dos seus últimos filmes, nem sequer foi exibido comercialmente nos Estados Unidos, forçando Fuller a roubar as bobines e fugir para o México, com medo que o filme fosse permanentemente destruído. “White Dog” é também o seu ópus, e a sua estória é urgente. Uma actriz atropela sem querer um pastor alemão de pelo branco e leva-o para casa para o ajudar a recuperar. Descobre que este cão foi treinado para atacar todas as pessoas de cor. Leva-o a um treinador, negro, que se compromete a quebrar o feitiço do racismo. Esta metáfora é perigosamente certeira. O que Fuller nos questiona é: se o racismo é aprendido, será que pode voltar a ser esquecido?

Não é só esse aspecto social e marginal que é o apelo de Sam Fuller. O melodrama, as personagens pecaminosas que são personagens principais, os temas que explora. A utilização demoníaca do close up como arma dramática, as performances exageradas e o diálogo pouco eloquente. A música que acompanha o filme. E os filmes, esses que só agora são meticulosamente recuperados pela Criterion Collection, obras de um legado histórico e social incomparável.

Fuller tem em “Pickup on South Street” o seu Noir clássico, fora de época. O filme, de 1953, conta uma peculiar estória de espionagem e crime. Uma das características peculiares deste filme é a personagem criminosa que é o protagonista. A femme fatale é uma prostituta que trabalha para os dissidentes comunistas. A polícia local utiliza métodos pouco ortodoxos para identificar o carteirista. Esta Nova Iorque que Fuller filma é a génese do Noir, uma espécie de distopia miserável e violenta, envolta num negro profundo. É também a característica de quase todos os filmes do realizador, como se Sam Fuller vivesse para sempre num mundo negro de melancolia.

Este clássico é um clássico à margem, com um orçamento ridículo, e isso nota-se em alguns pormenores que os actores não conseguem disfarçar, mesmo entregando-se às suas personagens com vontade. Há uma ligeira estranheza que é outra característica de Fuller, algo está errado mas não sabemos o quê.

Hollywood também pensou o mesmo, com as referências ao comunismo e à vontade apolítica da personagem de Richard Weidmark, o carteirista, que a certa altura profere, “Are you waving the flag on me?”. O guião foi mesmo dado como inaceitável pelo Hays Code da altura, as sequências em que a personagem da actriz Jean Peters é brutalmente espancada à mercê do seu antigo companheiro comunista foram consideradas sádicas e despropositadas. Essa violência misógina é aproveitada por Fuller para chamar à atenção a nossa crueldade para com as mulheres.

“The Naked Kiss” é outro peculiar melodrama que vai ainda mais longe. Disfarçado de filme de redenção de uma prostituta que tenta ser aceite na sociedade, trata de um outro assunto, muito mais aterrador, a pedofilia. E a forma como nos é mostrado, uma revelação horrível que foi antecedida de uma cena de uma beleza ímpar, é tão marcante que mesmo hoje em dia com a suposta liberalização dos costumes custa a engolir.

“Shock Corridor” é uma violenta viagem à loucura. Um jornalista passa-se por louco para entrar num sanatório e tentar resolver um crime que aconteceu dentro dessa prisão psiquiátrica e assim tentar ganhar um prémio Pullitzer. As personagens que ele conhece, as testemunhas, todos eles são restos de estereótipos racistas, patriotas, e marginais. Um negro insano que se proclama o inventor do Ku Klux Klan, numa cena arrepiante, um jovem que está obcecado com o patriotismo da Guerra Civil e que, num momento de sanidade, revela ter fugido para o lado comunista na guerra da Coreia. Estas personagens são também restos de Fuller, pormenores que ameaçam a integridade do Sonho Americano. Um brilhante exercício de estilo que só foi bem recebido na Europa, e que é urgente resgatar com a moderação própria de um filme violentamente emocional.

Fuller é um realizador íntegro e perfeito na sua excessiva ironia que não usa a emoção, as questões raciais, a política ou a segregação social de forma luxuosa como Spielberg, que usa o melodrama rico em metáforas insípidas e envolvidas numa aura de riqueza cinematográfica como se olhássemos o pior do mundo protegidos do mal: o desgraçadinho observado em museu. Fuller esta lá dentro, no meio do lixo, e conhece muito bem as ruas da violência humana como quem conhece a palma das suas mãos. Samuel Fuller é a bela marginalidade, o perfeito imperfeito que não se preocupa em incomodar de forma rebelde ou revolucionária, é apenas o contador das estórias simples desta estranha forma de ser humano.



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