Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº65, Fevereiro, 2011

Black Swan

Ontem/Hoje!

Há dois tipos de pessoas e analistas: os que nunca vivendo um desequilíbrio o conseguem receber, digerir e projectar e os que, por estranhas vicissitudes da vida, se reverão nele, tal o tipo de questões que levantam e os efeitos (também e sobretudo nocivos) colaterais que advêm dessas premências.

Nas memórias alusivas a um passado meio remoto situo-me nesse segundo grupo e, talvez por isso, vários foram os momentos em que revi com alguma perturbação inevitável o conflito alucinante vivido pela personagem Nina.

“Black Swan” mostra como um distúrbio de comportamento (no caso da protagonista – Nina – uma Bulimia Nervosa) pode condicionar e ostracizar, nessa busca impossível pela perfeição física e nirvana, a conduta social, emocional, pessoal, sexual e em última análise o ansiado poder da perfeição absoluta que lhe é imposto ou sugestionado.

Natalie Portman reserva em Nina todas essas alucinações conflituosas e que têm dois objectos principais dicotómicos do poder que deseja ao longo da vida alcançar. Por um lado, o desejo imaculado de pureza e perfeição absoluta que lhe é passado pela mãe (ex-bailarina), por outro a negação desse desejo/objectivo por algo mais obscuro, descontraído, imperfeito e subversivo como fonte para o alcançar dessa perfeição, que lhe é passado pelo professor de bailado e que culmina na sua morte (que poderia ser a da mãe).

Em “Black Swan” há o branco e o negro, o yin e o yang, a luz e as trevas, a mãe e o professor, a pureza e a libertação do corpo pelo condicionamento das regras. Há, alimento de todo o argumento, o conflito desses dois lados, qual deles o verdadeiramente perfeito, no intuito da chegada a essa episteme inexistente que é a perfeição.

No ritual comportamental de Nina (na exímia interpretação de Natalie Portman) só algo ficou por esclarecer, especialmente aos mais indagados com a relevância do conflito patenteado no filme, a Perfeição não existe, porque para a transcendência desse estado é/foi necessário ser(se) imperfeita. Duas realidades indissociáveis, tal como o preto e o branco.



Comentários (5)
cristina veora
cristina-veora
Fevereiro 12, 2011 @ 17:41:30
Ainda não vi o filme mas, se já o queria muito ver, depois de ler este texto ainda mais porque a temática da busca de perfeição, tão retratada pelas Artes ao longo dos séculos, continua a ser inesgotável. E como a autora do texto tão bem sublinha, a perfeição é uma quimera que muitos génios continuam a almejar porque na verdade é dual e será sempre dual. Se Nina é um génio não sei, mas a avaliar pelo texto a essência do absoluto está nela e anseio por assistir à sua "dark" performance!
Magnífico olhar o de Soraia Simões! Thanks!
Anabela Carvalho
anabela-carvalho
Fevereiro 11, 2011 @ 16:42:11
@veludoazul

Transtorno de Personalidade Borderline, como refere a autora do texto, é antes um dos efeitos colaterais de um disturbio de comportamento alimentar (seja anorexia ou bulimia).
De qualquer modo não me parece a definição de conceitos o mais importante de "Do Cisne Negro", o mais importante são as questões que
o argumento levanta e que são aqui, na minha opinião, muito bem entendidas e descritas.

Muito bom, espero poder ler mais vezes criticas inteligentes como esta.
Fevereiro 11, 2011 @ 15:52:03
:) Ob..Para o outro comentário , e não excedendo no descortinar empírico,a perturbação é o ainda chamado distúrbio de comportamento (no caso alimentar também) e os efeitos colaterais que despoleta (onde esse e outros síndromes estão).É ver o filme ...Está lá muita coisa e todos nós também.
veludoazul
Fevereiro 9, 2011 @ 21:36:41
não querendo obstar a quaisquer interpretações, a patologia em causa é o (ainda) chamado Transtorno de Personalidade Borderline ou Personalidade Limítrofe, cujos sintomas se agravam, tal como acontece com outras doenças, em situações de stress e ingestão de alcool e drogas. portanto neste caso, a bulimia é mais um dos sintomas.
Davvale
valente
Fevereiro 9, 2011 @ 20:37:19
Parabéns pelo o texto. Gostei especialmente pela ausência de artifícios.

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