Há dois tipos de pessoas e analistas: os que nunca vivendo um desequilíbrio o conseguem receber, digerir e projectar e os que, por estranhas vicissitudes da vida, se reverão nele, tal o tipo de questões que levantam e os efeitos (também e sobretudo nocivos) colaterais que advêm dessas premências.
Nas memórias alusivas a um passado meio remoto situo-me nesse segundo grupo e, talvez por isso, vários foram os momentos em que revi com alguma perturbação inevitável o conflito alucinante vivido pela personagem Nina.
“Black Swan” mostra como um distúrbio de comportamento (no caso da protagonista – Nina – uma Bulimia Nervosa) pode condicionar e ostracizar, nessa busca impossível pela perfeição física e nirvana, a conduta social, emocional, pessoal, sexual e em última análise o ansiado poder da perfeição absoluta que lhe é imposto ou sugestionado.
Natalie Portman reserva em Nina todas essas alucinações conflituosas e que têm dois objectos principais dicotómicos do poder que deseja ao longo da vida alcançar. Por um lado, o desejo imaculado de pureza e perfeição absoluta que lhe é passado pela mãe (ex-bailarina), por outro a negação desse desejo/objectivo por algo mais obscuro, descontraído, imperfeito e subversivo como fonte para o alcançar dessa perfeição, que lhe é passado pelo professor de bailado e que culmina na sua morte (que poderia ser a da mãe).
Em “Black Swan” há o branco e o negro, o yin e o yang, a luz e as trevas, a mãe e o professor, a pureza e a libertação do corpo pelo condicionamento das regras. Há, alimento de todo o argumento, o conflito desses dois lados, qual deles o verdadeiramente perfeito, no intuito da chegada a essa episteme inexistente que é a perfeição.
No ritual comportamental de Nina (na exímia interpretação de Natalie Portman) só algo ficou por esclarecer, especialmente aos mais indagados com a relevância do conflito patenteado no filme, a Perfeição não existe, porque para a transcendência desse estado é/foi necessário ser(se) imperfeita. Duas realidades indissociáveis, tal como o preto e o branco.
www.foxsearchlight.com/blackswan
Magnífico olhar o de Soraia Simões! Thanks!
Transtorno de Personalidade Borderline, como refere a autora do texto, é antes um dos efeitos colaterais de um disturbio de comportamento alimentar (seja anorexia ou bulimia).
De qualquer modo não me parece a definição de conceitos o mais importante de "Do Cisne Negro", o mais importante são as questões que
o argumento levanta e que são aqui, na minha opinião, muito bem entendidas e descritas.
Muito bom, espero poder ler mais vezes criticas inteligentes como esta.
Tens de estar registado para fazeres um comentário ou