Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº22, Agosto, 2005

Cânhamo

A revista de cultura Canábica. Temos exemplares para oferecer.

Já não é novidade para ninguém. A discussão sobre a legalização do consumo de drogas leves parece que já atingiu o seu pico e a opinião pública está mais focalizada para outros assuntos que dominam a sociedade. O debate desapareceu mas o problema mantém-se. As opiniões dividem-se e existe uma necessidade de informar os interessados, através de uma escrita directa e sem rodeios.

A Revista Cânhamo nasceu sensivelmente há um ano, com o objectivo de colmatar a falta de informação sobre um assunto “tabu” na nossa sociedade.

Tendo algumas caras conhecidas como “porta-estandarte” da publicação e da luta (por exemplo Miguel Guedes dos Blind Zero que é o director-adjunto), a Cânhamo tem tentado abrir algumas consciências através de um jornalismo factual e informativo.

Para além das notícias/artigos sobre os desenvolvimentos medicinais e terapêuticos relacionados com a utilização de algumas substâncias (entre as quais a canábis), podemos encontrar informações diversas sobre muitas outras substâncias. Assim, desfolhando a Cânhamo podem encontrar reportagens sobre as diferentes espécies canábicas, sobre a história e produção da cocaína e do ópio, bem como entrevistas a activistas e pessoas ligadas ao movimento de legalização das drogas.

Toda esta informação encontra-se disponível através de uma impressão bem cuidada e de qualidade, onde a fotografia tem um papel muito importante. Quem se interessa por este tema vai ficar maravilhado com algumas das fotografias que a revista apresenta, algumas delas em forma de poster central.

A revista foi pensada como bimensal, mas devido ao mercado “em crise” de todo o género de publicações, passou a trimestral. Podem encontrá-la em muitas papelarias/livrarias espalhadas por todo o país, bem como no web site – www.canhamo.net.

Para percebermos um pouco mais o que motivou a existência deste tipo de publicação em Portugal, colocamos algumas perguntas ao director da Cânhamo, Ricardo da Silva, que nos falou desse e de outros assuntos bem mais delicados, que uma revista deste género pode levantar.

Fiquem com a entrevista:

RDB: Como e quando surgiu esta ideia?

Ricardo da Silva: A ideia surgiu naturalmente com a necessidade de abordar a temática de uma maneira independente. Existindo revistas deste tipo por toda Europa e América do Norte há tantos anos, a revista surge numa parceria ibérica com a revista espanhola fundadora, que aliás também se publica de modo idêntico no Chile.

RDB: Houve muitos entraves?

RS: Não tivemos quaisquer entraves, tendo em conta que esta não é uma publicação marginal pois está devidamente registada nos diversos organismos tutelares. No entanto temos tido ao longo do processo alguma resistência ao nível do registo de propriedades…

RDB: Quem faz parte do “núcleo duro” da revista?

RS: O “núcleo duro é constituído por Ricardo da Silva, director, Miguel Guedes, director-adjunto, Nelson Patriarca, coordenador executivo, e Margarita C. Menezes, jornalista.

RDB: Qual é o principal objectivo da publicação?

RS: Informar sobre uma realidade aparentemente invisível para a sociedade. Os mais diferentes consumos de substâncias psicoactivas está generalizado, mas não há integração social. No que toca à Canábis propriamente dita é admirável a falta de informação que existe sobre uma planta que é ao mesmo tempo um medicamento e uma droga recreativa, sendo utilizada ainda em várias indústrias amigas do ambiente. A interdição legal a que estas substâncias estão sujeitas é supostamente para defesa da saúde pública e afins… É óbvio aos olhos de qualquer pessoa informada que o gasto de dinheiro público na perseguição de costumes é retrógrada e gera margens de lucro para o crime organizado. A corrupção alastra e enquanto os milhões são lavados nos insuspeitos mercados fiananceiros, ficam direitos e liberdades atropeladas e a insegurança favorecida.

Há muito potencial informativo que os media tradicionais, por preconceito e desinformação, não aproveitam. O mercado ilegal tem de ser regulado e fazer os impostos sobre as vendas. Acreditamos que há nesta temática muito que debater.

RDB: Como tem sido a receptividade dos leitores? Quais as razões para terem passado de bimensal para trimestral?

RS: A recepção foi muito agradável e recebemos críticas e sugestões de todos os tipos, na sua maioria de modo construtivo. A comunidade de leitores de uma revista como esta é muito plural e diversificada.

Parece banalidade, mas há uma crise… O mercado das publicações está em tendência de descida. Para uma publicação independente como a CÂNHAMO, é fundamental uma adaptação às actuais condições, para que o projecto não fique ameaçado.

RDB: Dizem ser uma revista de cultura Canábica, mas tratam de muitos outras drogas (mais pesadas). Não têm receio de poderem ser encarados como impulsionadores da utilização dessas drogas?

RS: O problema é que não há informação sobre essas substâncias. Nem sequer se compreende muito bem, esse conceito de dura e leves… Drogas que fazem parte da cultura popular do mundo, algumas há milénios, não devem ser mantidas em ambiente de desinformação. Publicamos artigos rigorosos onde sempre se encontram também os riscos associados. Para além disso, por auto-regulação, esta é um revista para adultos (conforme inscrito na capa).

RDB: Nunca tiveram ninguém a bater a vossa porta a dizer que vocês são o demónio?

RS: O demónio anda pelos autocarros e comboios deste mundo a explodir a vida de inocentes em todo o mundo. Conflitos sustentados também pelo tráfico ilegal de drogas, nada de novo tendo em conta a História.

RDB: Acham que a melhor forma de evitar algumas drogas é estar bem informado?

RS: A informação é fundamental para ajuizar uma decisão. Há substâncias muito perigosas e sedutoras, nas condições actuais drogas pouco problemáticas misturam-se com autênticos venenos geradores de dependência.

RDB: Não vos preocupa o crescente consumo, principalmente de haxixe, pelas camadas mais jovens, miúdos de 13, 14 anos?

RS: Os fenómenos de consumos cada vez mais precoces são mais uma consequência da lógica do mercado ilegal das substâncias ilícitas. Os mais jovens, sendo mais insuspeitos, são usados nos circuitos de distribuição final. A marginalização e o abandono escolar estão em alta, mas a sociedade prefere não encarar a realidade, mantém antes uma postura conservadora, sem soluções. No fundo é um ciclo vicioso que parece não ter fim. Não deveria ser uma fatalidade uma generalização dos consumos precoces, mas parece que está a transformar-se nisso mesmo.

RDB: Como olham para a sociedade portuguesa de hoje, no que diz respeito ao consumo de drogas? Acham que existe uma alteração de consumos?

RS: Não temos dados objectivos para além daqueles que são publicados pelas entidades oficiais, para uma análise desse tipo. Embora nos pareça evidente o aumento generalizado dos consumos, e a multi-especificação dos mesmos.

RDB: Pensam que a legalização das drogas é inevitável e um dia vai acontecer, ou acham que Portugal continua a ser um país bastante conservador nesse aspecto?

RS: A inevitabilidade começa a ser cada vez mais evidente. Mas existem múltiplos factores de resistência que terão de ser enfrentados. Na política global, entre as diplomacias, os G8, a própria ONU, estão perante dilemas cada vez mais bicudos que não são compatíveis com políticas hipócritas que geram os mercados ilegais fabulosamente conhecidos. Portugal, inevitavelmente, está confrontado com essas questões.

RDB: Apoiam a total legalização de todas as drogas ou apenas as substâncias provenientes do Canábis?

RS: As substâncias devem ser todas reguladas por princípio base. Tudo o que não é regulado e tem procura, gera automaticamente um potencial de lucro marginal. Com certeza haverá substâncias de uso unicamente medicinal e outras de acesso mais público. Há que atender à realidade e não lutar contra ela nessa matéria, a bem de todos.

RDB: Projectos e ideias para o futuro?

RS: Promover a nossa nova loja especializada em literatura e acessórios (ainda poucos) ligados à canábis em www.canhamo.com, lançar o nº7 e ir de férias…



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