Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº90, Março, 2013

“Casas Vazias”, de Filipe Condado

Exposição fotográfica da autoria de Filipe Condado, patente na sala do Veado do Museu Nacional de História Natural e da Ciência

As caminhadas pelas ruas das cidades proporcionaram ao fotógrafo o interesse pelo registo de espaços abandonados na contemporaneidade, mas plenos de memórias de tempos idos. A curiosidade pelo desconhecido levou-o a entrar numa dessas habitações abandonadas que proliferam por Lisboa. A lividez dos objectos conduzem o autor ao questionamento: “Quem viveria naquela casa? Há quanto tempo estaria vazia? Porque terá sido deixada assim?”

O encantamento proporcionado pelos espaços inabitados fascina o autor, que num tom desafiante de actuação sobre o visível, assim como sobre aquele que teima em passar adormecido sobre a realidade que o envolve, fixa instantes de intimidade e recolhimento. Filipe Condado encontrou o mote para as imagens expostas no decorrer de um projecto anterior – “Casas Perdidas”.

A amplitude do espaço expositivo dá continuidade às imagens expostas que cobrem as paredes da sala. O visionamento do conjunto serial permite-nos espreitar os diversos locais que inspiraram o fotógrafo. Procurando evidenciar as diversas reminiscências encontradas, através de magníficos efeitos luminosos, as imagens ganham atributos de tridimensionalidade. O olhar do observador prende-se nos traços de cor e textura, por oposição ao sombrio que envolve os espaços. Se nalgumas obras o artista revela pormenores dos objectos encontrados (sofás, panos, paredes…), noutras ilustra a plenitude dos lugares, explorando os elementos arquitectónicos, retirando partido dos corpos estruturais dos edifícios fotografados. Desafiando os olhares entorpecidos pelo corrupio da vivência citadina, Filipe Condado, parafraseando Roland Barthes, considera que a “fotografia ganha existência quando provoca algum tipo de aventura”. E, seguindo a sugestão inicializada pelo artista na reabilitação dos espaços urbanos e tempo memorial, poderemos aventurar-nos a visitar a exposição de Filipe Condado até ao próximo dia 3 de Março, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência. Mas antes estivemos à conversa com o fotógrafo.

Sobre o teu processo criativo… falas em casas abandonadas, mas nas imagens os objectos parecem habitados. Interferiste sobre os espaços ou apenas fotografaste o que encontraste?

De facto, os objectos parecem habitados e foi precisamente isso que me despertou o interesse. A própria decisão de mostrar umas coisas e ocultar outras acaba por ser uma forma de “interferir” sobre os espaços.

A fotografia tem este poder como forma de expressão; como forma de mostrar uma realidade que é sempre parcial e que é fruto de uma decisão do autor.

As casas também tinham muito lixo, mas não era isso que eu queria mostrar.

Através do teu site visionei a série “Casas Perdidas”. Na nova exposição retomas o tema?

O projecto “Casas Perdidas” foi o “pai” do projecto “Casas Vazias”. O primeiro não era um projecto de fotografia mas sim de instalação. Para levá-lo por diante necessitava de uma autorização do proprietário do prédio que esteve na origem da ideia.

Não tendo conseguido, continuei à procura de outro prédio que reunisse as condições que o conceito exigia. Durante a procura determinada, comecei a encontrar as minhas “Casas Vazias”…

No meu périplo pelas imagens, noutra série, vejo que te prendes na captação de objectos que nos passam despercebidos. Encontro uma recorrência, ou seja, procuras nos teus instantes tornar visível aquilo que à maioria passa despercebido. Fazes constantemente uma viagem pelo vazio, pelos espaços da cidade inabitados, procurando encontrar traços de humanidade ou vivências em locais que já não prendem o olhar de quem passa…

Sim, fascina-me esse desafio. O de ser capaz de mostrar um lado das coisas e das realidades que, numa primeira instância, nos passam ao lado. Roland Barthes dizia que “a fotografia ganha existência quando provoca algum tipo de aventura”. Penso que esta frase (em meu ver brilhante) representa muito bem este desafio.

Uma das imagens (não me lembro exactamente do número, mas situa-se ao fundo da parede à direita na última posição) parece uma colagem, sugere sobreposição de materiais. Noutros elementos da série as fotografias sugerem uma terceira dimensão através da exploração dos efeitos lumínicos e texturas.

Essa fotografia, curiosamente, tem sido a mais comentada. O aspecto tridimensional foi conseguindo com uma luz rasante muito intensa.

O papel de parede rasgado pôs a descoberto os jornais que serviam de enchimento para esconder uma porta que já não estava a uso. Comentei isto com um amigo arquitecto que me disse que era uma “técnica” comum noutros tempos. Achei isto curioso. O jornal Diário de Notícias retratado numa das fotografia foi tirado por mim de dentro dessa parede.

Como surgiu o convite para expor no museu?

Não se tratou de um convite, mas de uma proposta feita por mim.

Tinha o projecto praticamente pronto quando comecei à procura de um espaço para o apresentar. Conhecia a Sala do Veado e achei que funcionaria muito bem com este meu trabalho. Apresentei uma proposta e foi bem acolhida.



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