Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº50, Novembro, 2009

C.B. Cebulski

"Acho que Portugal é o país que tem o maior talento ainda por descobrir na Europa se não no planeta". Quem profere esta declaração é um dos grandes editores da Marvel Comics!

C.B. Cebulski é bem conhecido pelo seu trabalho no “Marvel Mangaverse” e por ter criado a série “Marvel Fairy Tales” nas quais adapta contos de fadas utilizando personagens do universo Marvel. Neste último já trabalhou com três artistas portugueses, Ricardo Tércio, Nuno Plati e João Lemos. Além de escritor é também editor da Marvel e visto por muitos como um “caça-talentos”.

Esteve recentemente no primeiro fim-de-semana do 20º Festival de Banda Desenhada da Amadora e a Rua de Baixo não podia deixar passar a oportunidade de lhe dar uma palavrinha.

Conta-nos um pouco sobre o teu início na Banda Desenhada?

Eu cresci a ler comics americanos, os “Uncanny X-Men” de John Byrne e Chris Claremont, “Brave and The Bold” e muitos outros. Mas como a minha mãe é da Suécia passava lá todos os verões bem como na Bélgica e na Grécia, então desde muito novo estive exposto à vossa BD começando por ler “Tintin”, “Gaston” e os “Estrunfes”. Desde muito cedo também me interessei por mangá. Quando estive na faculdade estudei mangá e japonês e passei 4 anos no Japão a trabalhar. Por causa do meu conhecimento nesta área estava empolgado em voltar aos EUA para criar uma companhia de mangá, a CPM Manga em Nova Iorque, mas sem nunca esquecer o meu amor pelos comics americanos.

Ao trabalhar em mangá notei que havia fãs de Super-Heróis e fãs de mangá não havendo muitos como eu que liam ambos. Então queria tentar ser uma ponte entre os géneros e comecei a usar artistas americanos como Ed Mcguinness, Jeff Matsuda e Dan Berg para fazerem capas e foi assim que conheci o Joe Quesada. Mantivemos contacto e quando ele se tornou editor chefe da Marvel e esta quis produzir mais mangá ele lembrou-se de mim.

Basicamente através do meu amor à BD e da vontade em trabalhar neste meio, continuei a ter este sonho e a trabalhar para o tornar realidade.

A paixão pelo Japão é bem notória no teu trabalho. Começaste em mangá, fizeste o “Marvel Mangaverse” e até na série “Fairy Tales” usaste lendas do Japão.

“Momotarō Peach Boy” foi uma delas.

Tens planos para trabalhar em mangá novamente?

Eu gostaria e ainda mantenho contacto com muitos desses artistas Vou ao Japão todos os anos, pelo menos um mês, e encontramo-nos sempre quando eles vêm às convenções nos EUA como a comic con de Nova Iorque ou de São Diego.

Há também um projecto que estamos a desenvolver na Marvel que irá envolver muitos artistas de mangá que poderá acontecer em 2010 ou 2011. O problema de trabalhar com estes artistas é que eles são muito ocupados e apesar de serem muito rápidos têm de se concentrar nos seus próprios projectos e trabalharem connosco é feito como um projecto lateral, um favor, e por isso leva um pouco mais de tempo que o comic habitual.

Mas haverá mais mangá na Marvel através de mim e talvez de outros também.

Como falavas existem artistas de mangá e artistas de comics. Algo curioso no teu trabalho é que pegaste nos dois estilos e misturaste-os, exemplo disso é o “Marvel Mangaverse”.

O engraçado é que muitos dos fãs de mangá questionam-se porque é que o Kia Asamiya, o Tsutomu Nihei, ou o Junko Mizuno desperdiçam o seu tempo a trabalhar na Marvel, não se apercebendo de que estes artistas são grandes fãs da editora e que tal como eles cresceram a ler mangá na América muitos destes artistas cresceram a adorar os personagens da Marvel no Japão.

Portanto isto não surge como algo forçado, eles querem fazer isto, como o Yasuhiro Nightow, que fez o “Trigun”, ele adora o Venom e quer fazer uma história dele quando tiver tempo.

Também tiveste uma ideia muito interessante quando decidiste contar contos de fadas usando personagens da Marvel nas séries “Fairy Tales”. Como surgiu esta ideia?

Muitas histórias de Super-Heróis e de ficção científica são baseadas em Joseph Campbell, como “Face of The Hero” entre outras. Muitas das ligações e das histórias são recontares dos arquétipos e das relações clássicas dos contos de fadas do passado. Apercebi-me que há muitas ligações nos comics de Super-Heróis directamente baseadas nesses contos, especialmente no Universo dos X-Men onde penso que o Claremont as criou conscientemente como sendo uma homenagem aos contos de fadas antigos. E por isso é que comecei com os X-men, porque consegui estabelecer as ligações muito facilmente, especialmente com “Momotarō Peach Boy”. Muitas dessas relações eram como nos X-Men e quanto mais pensava nelas mais ligações via entre elas e mais histórias me surgiam. Foi portanto algo que me surgiu, não sei exactamente como, apenas que sim.

Na série “Fairy Tales” já utilizaste os X-men, o Spider-Man e os Avengers. Tens planos para continuar com outros personagens?

Adoraria fazê-lo. O próximo que estamos a planear e que espero começar a escrever em breve é com o Fantastic Four. Tenho muitas ideias, sei exactamente o que quero e assim que tiver a aprovação talvez em Dezembro ou Janeiro começarei a escrever e a procurar artistas. Esperemos que surja no próximo Verão ou Outono, nada está garantido mas é esse o plano.

Em “Fairy Tales” trabalhaste com três artistas portugueses, o João Lemos, o Nuno Plati e o Ricardo Tércio. Como descobriste os seus trabalhos? E como foi a experiência de trabalhar com eles?

Fantástica! Acho que Portugal é o país que tem o maior talento ainda por descobrir na Europa se não no planeta. Eu vou a muitos países como França, Espanha ou Itália e neles há muitos estilos similares porque têm vindo a cultivar um mercado nacional de livros de BD, o mercado francês por exemplo é enorme, mas os portugueses tiram influências de muitos sítios diferentes e combinam-nas, só pelo facto de na TV todos falarem inglês e de todos os filmes serem legendados. O talento artístico aqui é o mais original que tenho visto em qualquer lado.
O primeiro que conheci pessoalmente foi o João Lemos. Todo o grupo de artistas foi a Angoulême um ano em que o Joe Quesada era convidado. O Joe trouxe vários portefólios e pediu-me para lhes dar uma vista de olhos. Havia muitos artistas diferentes mas o portefólio do João era um dos mais únicos que tinha visto na vida e pensei logo que o tinha de contactar. Então a primeiro coisa que fiz foi enviar-lhe um email a dizer “Hey daqui é o C.B. Cebulski da Marvel recebi o teu portefólio pelo Joe Quesada. Estás interessado em trabalhar nalgumas ideias?” O email foi enviado no dia 1 de Abril, o dia das mentiras, e o que aconteceu é que ele pensou que era o Ricardo ou o Nuno a pregarem-lhe uma partida, mas era mesmo eu. Ele respondeu que adorava trabalhar em algo, mas na altura não havia nada disponível na Marvel então começámos a desenvolver um projecto para a Image e posteriormente através dele conheci os outros dois e a relação começou a crescer a partir daí.
Trabalhei primeiro com o Ricardo Tércio no “Spider-Man Fairy Tales”, mas quando os “Avengers Fairy Tales” aconteceram sabia que o João era perfeito para o “Peter Pan”, o Nuno para o “Pinóquio” e o Ricardo, com quem tive uma óptima relação a trabalhar antes, para o “Feiticeiro de Oz”.

Qual o teu personagem da Marvel predilecto?

Toda a gente se ri quando eu digo isto mas o meu personagem favorito da Marvel é a Dani Moonstar, a Mirage dos New Mutants. De outros grupos gosto do Cloak e da Dagger e gosto do Power Pack. Toda a gente espera que digamos Wolverine, Spider-Man e eu adoro estes personagens mas por alguma razão quando crescia era grande fã dos New Mutants e a Mirage, que era a líder, tinha o poder de ver os sonhos das outras pessoas e torná-los em realidade o que eu considerava muito divertido em termos visuais.

Como editor da Marvel és visto por muitos como um “Caça-talentos”. Se algum artista estiver interessado em mostrar-te o seu trabalho pode fazê-lo? E se sim como?

Qualquer artista, de qualquer lado e a qualquer hora pode enviar-me o seu trabalho por email, para o cbcebulski@marvel.com, a única coisa que peço é que não me enviem ficheiros, prefiro que façam um upload do trabalho para a página do deviantart, ou para um blog ou website e que me enviem os links.
Estou muito ocupado quando viajo mas garanto que olho para todos os trabalhos e respondo sempre. Tenho sempre amostras de guiões e sempre que alguém quiser candidatar-se para a Marvel posso enviá-los para trabalharem com o modelo real do guião e ilustrarem algumas páginas.

É verdade que apenas estás interessado em desenhadores e não em escritores? Existe alguma razão para isso?

Por causa da internet é mais fácil agora para os artistas entrarem no meio, mas também ficou mais complicado para os escritores. Existe um fluxo tão grande de ideias e tanta informação disponível que as leis dos direitos de autor e de marca registada tornaram-se mais apertadas e não podemos aceitar ideias para os nossos personagens porque existe sempre o medo de que sejamos processados. Temos que nos proteger e infelizmente para os escritores que têm as ideias é mais difícil. Mas podem submetê-las na mesma, o que têm de fazer é enviá-las por correio, não email, à atenção de um dos editores. Por exemplo se querem escrever uma história do Spider-Man mandem-na ao Stephen Wackerse, dos X-Men ao Nick Lowe, mas têm de enviar amostras do que escreveram previamente porque a Marvel não contrata pessoas que não tenham trabalho publicado, por isso se tiverem um livro ou uma curta de BD ou mesmo um webcomic, um argumento, romance, ou série de TV que tenham em dvd, enviem aos editores eles vão avaliá-lo e se gostarem contactam-vos.

Como tem sido a estadia em Portugal?

Tem sido fantástica. Da primeira vez que viemos diverti-me imenso, estive cá uma semana e sempre quis voltar. Visitei muitos locais pois tinha de ver tudo, mas desta vez pude relaxar mais e apenas desfrutar a cidade, o tempo com os amigos e mais comida. Hoje pela primeira vez fui a Sintra que é linda, quem me dera poder ter passado lá mais tempo. A mistura de culturas e as pessoas são tão amigáveis, adoro estar cá.

E o que pensas do festival até agora?

Estou muito impressionado. Ainda não tive hipótese de ver muito mas ouvi rumores ao longo dos anos do Ed Brubaker e de muitos outros que cá vieram e disseram o quão fantásticas são as exposições. Como o Will Eisner que afirmou que o acontecimento mais fantástico que fizeram com o seu trabalho no “The Spirit” foi a exibição aqui na Amadora nos anos 90 e eu entendo isso.

Ontem estive aqui com alguns convidados, o Karl Kersh, o Cameron Stewart e o Ramon Pérez e quando eles entraram nas suas exibições, não sabendo o que esperar, os seus olhos ficaram espantados. É incrível ver o tempo e o pensamento que a organização despendeu.

Desde que chegaste já deste uma Master Class na Kingpin Books e agora voltas a fazê-lo aqui no festival. Podes adiantar-nos alguma coisa sobre o que vais falar?

Vou falar sobre avaliações de portefólios e em como entrar no mundo dos comics americanos. Vou a muitos festivais diferentes e convenções falar, não quero sentar-me lá e dizer que é de tal forma que vão conseguir entrar no mundo dos comics, porque não há maneira fixa de o fazer. Mark Waid disse uma vez que “entrar no mundo dos comics é como entrar num complexo militar de alta-segurança a primeira coisa que fazem assim que descobrem que entrámos é selar o nosso ponto de entrada para que mais ninguém o possa voltar a fazer”. Cada um entra neste mundo de forma diferente, por isso gosto de responder às dúvidas das pessoas, elas querem o meu tempo e eu quero dar-lhes as respostas que pretendem e toda a informação que precisem.

Quais as tuas maiores influências nos comics?

Há diferentes formas de olhar. Em comics de um ponto de vista editorial aprendi muito, no início, sobre como lidar com talento, o que faz uma boa história e ter sempre a certeza de que os personagens são respeitados com o Ralph Macchio. Ainda hoje me sinto espantado com a esperteza e compreensão do Joe quesada sobre comics e a arte de contar uma história, ele não é só talentoso como artista mas também como escritor e editor de histórias.

Como escritor as minhas maiores influências vêm de sítios diferentes enquanto crescia, Chris Claremont foi sempre alguém que eu adorei, quem me dera surgir com algo que fosse tão brilhante como o que ele fazia nos X-Men com o Jack Byrne e o Paul Smith. George Lucas, sou um grande fã de “Star Wars”. Eu tiro influências de muitos sítios até mesmo de música, o que o Jim Morrison dos “The Doors” fez ao pegar em palavras e criar histórias combinando-as com música foram uma grande influência juntamente com os seus poemas.

Alguns anos atrás os Super-Heróis foram o grande “Boom” na BD, depois foi a vez do mangá. O que pensas que o futuro nos reserva? Algo diferente?

Não acho que vá ser um novo “Boom”, acho que daqui a cinco ou seis anos vamos ver a próxima geração de artistas de comics surgir e todos eles tiram as suas influências de sítios diferentes. Tens muitos que foram influenciados por Alex Toth, Will Eisner e alguns dos clássicos e depois tens uma geração, pessoas que estão a desenhar agora, que foram fortemente expostas ao trabalho de John Byrne, Walt Simonson, George Pérez, Bill Sienkiewicz e Paul Smith. E tens uma geração agora que é influenciada por Brian Hitch, David Finch, Jim Lee e Todd McFarlane.

O mundo tornou-se mais pequeno graças à Internet e mesmo nos comics americanos existe uma maior influência internacional, as pessoas lêem não só mais mangá mas também comics europeus, como “Sky Doll” ou “The Killer”. Eu penso que na próxima geração vamos ter artistas que têm o mesmo respeito pelo que se passa em “Bleach”, “Naruto” ou alguns comics populares na América e que também tiram influências de BD europeia de alguns dos novos artistas que estão a surgir onde estarão incluídos, oxalá, os meus rapazes portugueses. Por isso acho que vamos ver uma mistura de algo completamente único sair disto.

Qual é a tua opinião em relação à compra da Marvel pela Disney?

No momento em que soube fiquei muito entusiasmado. Acho que vai ser extraordinário para a Marvel, porque somos os melhores naquilo que fazemos e foi por isso que a Disney nos comprou. O que temos ao combinar forças com a Disney é o seu marketing, a sua imagem e o seu reconhecimento global, e pôr o “Spider-Man” nessa mistura só vai ajudar. Também vamos ter acesso aos seus meios de distribuição e vamos poder usar a sua rede de vendas, o nome Disney carrega muito peso. Eles são uma empresa de 32 biliões de dólares e quiseram-nos a nós.

Eu entendo as preocupações que alguns fãs e criadores podem ter, mas nada vai mudar, tal como quando compraram a Pixar, foi apenas uma mudança de dinheiro no topo da cadeia e é assim que basicamente nós vemos este acordo.



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