Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº90, Março, 2013

Cristina Branco

"As personagens deste disco falam em nome individual, mas gritam em surdina a necessidade/consciência do colectivo, do acordar de vez"; estivemos à conversa com a Cristina Branco

Vivemos tempos difíceis. O desconforto marca presença nas ruas, nos cafés, nas conversas e nos olhares de quem vê o País numa rota que parece ser de colisão frontal. Há dois anos, quando terminava “Não Há Só Tangos em Paris”, Cristina Branco começou a sentir esse desconforto de forma intensa, física. Tão intensa que decidiu inventar personagens e convidar letristas para gravar “Alegria”, um disco sarcástico e conceptual sobre vidas anónimas que habitam Portugal, com muito de trevas e melancolia mas, também, com alguma glória e esperança.

Em “Alegria”, Cristina Branco dá voz a personagens maioritariamente femininas, lutadoras, românticas, vítimas, marginais e sonhadoras, que olham a vida olhos nos olhos, mesmo que na maior parte das vezes o combate seja demasiado desigual.

Quando nas ruas se vai cantando «Grândola, Vila Morena», Cristina Branco tratou de recuperar a música de intervenção e editar um disco que transpira crítica social, com espaço para o fado bizarro, a pop erudita e até a declamação de um texto de Gonçalo M. Tavares. Falámos com Cristina Branco numa conversa que, de tão política, poderia ter sido apresentada no Parlamento como moção de censura. Silêncio que se vai cantar o fado de intervenção.

A capa do disco recorda o falso sorriso inventado pelo Joker, como se a palavra “Alegria” tivesse sido escrevinhada por cima de “Melancolia”, ao estilo de uma boa piada literária. Porquê esta ironia?

Porque me apeteceu jogar com o paradoxo alegria/tristeza, por causa também do sentimento que se convencionou associar ao Fado, não sendo este disco próximo dessa linguagem, mas é onde as pessoas me catalogam; porque resolvi ter imaginação como nos pede o Sr. Primeiro-ministro; porque quis chocalhar os ombros dos mais distraídos no binómio capa/título!

Pode dizer-se que “Alegria” é um disco conceptual à volta da ideia de sublevação popular, um retrato da vida de gente anónima?

Pode seguramente, porque foi pensado para o ser. Um disco que fala daquilo que queremos varrer para baixo do tapete, daquilo de que sorrimos num esgar atrapalhado e voltamos costas e já esquecemos (porque é curta a memória), daquilo que já assistimos ou que conhecemos por dentro.

É de certa forma um disco feminista, no sentido de a maior parte das personagens e das lutas travadas serem feitas no feminino?

Não pensei isso, confesso, quando construí as personagens, mas naturalmente fui lá parar; se calhar porque olhei para elas pondo-me no seu plano, olhando pelos seus olhos… mas é sobretudo um disco sem um sexo definido, é gente anónima inocente, desgraçada, sofrida, assassina ou déspota, corajosa, mal amada…

Não escreveste os temas mas pode dizer-se que inventaste muitas das personagens que habitam o disco. Como foi o processo que começou com a tua ideia de personagem, passou pela transmissão aos músicos/letristas e terminou com músicas de corpo inteiro?

Criei uma biografia para cada um deles, ou então mais sucintamente, no caso do Jorge Palma ou do Pedro Silva Martins, a quem pedi respectivamente o feminino do Jeremias o fora da lei e a Deolinda (tipo toda a verdade), todos os outros são inventados por mim, ou melhor, condicionados por mim. Ao autor restava dar-lhes forma, textura, como só eles sabem fazer!

“Alegria” ouve-se como um clamor de contestação. Revês-te no movimento de revolta que sai à rua para contestar as políticas nacionais e internacionais que nos conduziram a este buraco?

Absolutamente. Aliás, os personagens deste disco falam em nome individual, mas gritam em surdina a necessidade/consciência do colectivo, do acordar de vez.

As personagens de “Alegria” representam o Portugal de hoje?

São exemplos por ventura, mas há mais seguramente e alguns até ficaram de fora – ficam para o concerto -, como o taberneiro de autoria do Vitorino, espécie de padre, aquele que ouve diariamente as queixas, o desabafo dos que sofrem e procura ajudar ou silencia o segredo, a vergonha, e às vezes dá umas “trincas” na mulher do próximo, ou a Ofélia fadista, anjo negro que se atira ao Tejo depois de não conseguir sustentar a vida de falsa opulência, ou o pássaro cantor do Gonçalo M. Tavares… Representam fragmentos de uma sociedade esfrangalhada e desorientada, mas não são de hoje, são filhos de erros sucessivos e desnortes constantes, como sei que também podiam pertencer isoladamente a outras sociedades, mas aqui é declaradamente de nós que quis falar!

Há dias li um artigo que criticava o uso de “Grândola Vila Morena” como canção de protesto, no sentido dos artistas contemporâneos nacionais – com poucas excepções – estarem de costas voltadas para a realidade que os cerca. “Alegria” parece ir no sentido oposto, fazendo uma forte crítica social. Acreditas que a canção é uma arma?

A canção pode sem dúvida ser o despertar da consciência, tem esse poder e deve ser usado com pertinência para ser inabalável na sua consistência. Nós, os que trabalhamos com a arte, com a cultura, temos essa atenção e devemos usá-la se for o que intimamente acreditamos. Se assim não for, vale mais continuar a cantar o fait divers que também é preciso na justa medida. Numa democracia transparente e saudável, há espaço para tudo!

No disco experimentas várias vertentes interpretativas, que vão da pop erudita ao fado bizarro – havendo ainda tempo para a declamação de um texto de Gonçalo M. Tavares. Em que praia musical te sentes mais confortável?

Todas, desde que me façam sentido como experiência, como evolução… música é música e eu sou cantora, distingo de artista/carreira. Se fosse pensar em carreira, talvez fosse mais focada num género para não baralhar o mercado e o marketing, eventualmente. Gosto de cantar e acredito que o meu caminho se pauta pelo que aprendo enquanto cantora, seja na interacção com os outros, seja na tomada de consciência do meu ser e do meu papel social enquanto profissional, enquanto mãe.

A tua carreira tem sido surpreendente pelos desvios temáticos e musicais. O que podemos esperar a seguir? Uma ópera?

Nem eu sei, o que tiver que ser surgirá no caminho deste “Alegria” que ainda não está traçado, ou nada. Tábua rasa, papel em branco.

Alegria é…

… deitar a cabeça na minha almofada, na minha casa, a olhar o tecto pejado de anjinhos papudos e heras, fechar os olhos sentir que estamos todos ali. Em paz.

O novo disco de Cristina Branco está agora nas lojas e é apresentado dia 5 de Abril em Lisboa, dia 6 em Seia e dia 7 no Porto.



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