Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº52, Janeiro, 2010

David Lloyd

O desenhador responsável por “V For Vendetta” esteve em Portugal e a RDB falou com ele.

David Lloyd foi sem dúvida alguma um dos nomes a ter maior destaque no último fim-de-semana do 20º Festival de Banda Desenhada da Amadora, não fosse ele o desenhador de “V For Vendetta”, um marco na BD que dispensa qualquer tipo de apresentações.

Conhecido maioritariamente pelos seus desenhos, Lloyd tem-se dedicado também nos últimos anos à escrita. Prova disso é a sua novela gráfica “Kickback” sobre a qual veio falar.

Pode falar-nos um pouco sobre como começou na BD?

Comecei a minha carreira em 1977, consegui ter alguns bons trabalhos a fazer tiras de cartune depois de uma série de empregos em part-time, mas não foi uma tarefa fácil. Após ter deixado a escola treinei-me como um artista de publicidade e quando deixei o meu 1º emprego estive 4 anos em empregos de part-time diferentes até desejar uma posição na qual eu fosse bom o suficiente para a fazer. É uma história muito longa e complicada e não posso contá-la numa forma simples, mas quero apenas dizer que sempre amei arte sequencial e acho que foi natural para mim acabar por fazê-la. Tinha um gosto por ela, nunca tive realmente de a estudar, tive de trabalhar arduamente para ser um bom artista mas isso é diferente, nunca estudei nenhum livro ou fiz exercícios para me tornar artista sequencial. Penso que isso foi porque aprendi a partir de pessoas que eram muito boas, os meus modelos, ícones, eram alguns dos melhores no meio. Acho que foi isso que me tornou naquilo que sou hoje.

Quais são as suas maiores influências, como mencionou, os seus modelos?

Eu tenho um número variado de tais pessoas, um é o artista Britânico Ronald Embleton que fez um trabalho extraordinário em comics chamado “Wrath of the Gods”. Depois tive outras influências como Steve Ditko, que é responsável pelo melhor “Amazing Spider-Man”. Havia também outros dois artistas ingleses, Tony Weare que fez uma tira western de jornal fantástica chamada “Matt Marriott” e também outro artista inglês chamado John Burns. E mais tarde artistas norte-americanos como Jack Kirby.

Quando começou a trabalhar com Alan Moore em “V for Vendetta” para a “Warrior Magazine” os comics eram a preto-e-branco, mas quando foram posteriormente editados pela “DC Comics” saíram a cores. Porque foi tomada esta decisão?

A decisão foi tomada porque eu quis que fosse a cores. Muitas pessoas pensam que foi uma decisão da DC mas não. O Dick Girdano, que era o editor executivo na altura, disse que o faríamos e continuaríamos a preto-e-branco, mas eu sugeri que devia ser a cores, pois sabia que assim alcançaria mais pessoas, porque sempre o fez na indústria de comics norte-americanos, mas também porque achei que o podíamos fazer com a integridade certa e eu apenas o tinha sugerido a preto-e-branco porque na altura, nos meados dos anos 80, houve uma grande explosão popular de comics indie a preto-e-branco, como as “Teenage Mutant Ninja Turtles” entre muitas outras que estavam a ganhar bastante dinheiro. A DC achava que podíamos fazer coisas a preto-e-branco e ganhar dinheiro, mas eu sabia que era uma popularidade momentânea, que a longo-prazo o futuro seria a cores e eu queria atingir esse número de pessoas, não só para vender mais cópias mas porque a mensagem é importante. A mensagem em “V” é muito importante.

Eu colori alguns dos comics mas a maioria foi feito pelo Steve Whitaker e pelo Siobhan Dodds, eu apenas os dirigi com o tipo de cores que queria e eles fizeram um grande trabalho. Infelizmente, a impressão dessas cores nunca foi perfeita e acho que as coisas estão a mudar agora, mas por muitos anos nunca pude confiar na cor ser a mesma de uma cópia para a outra o que é um grande problema, mas felizmente para os leitores não fez assim tanta diferença. Mesmo assim eu desejava que a cor tivesse sido perfeita desde o início. Na impressão não estavam a fazer o trabalho que deviam ter feito, mas como disse as coisas estão a mudar agora.

Na altura, nos meados dos anos 80, o governo conservador de Margaret Tatcher também influenciou este trabalho, tiveram algum tipo de problemas políticos na altura por causa de “V”?

Não, realmente não. Penso que a cultura britânica não se preocupa realmente com comics e só demonstra interesse se alguém se queixar de uma forma imponente. Isso aconteceu na Grã-Bretanha quando um comic ofendeu a opinião pública e sofreu por causa disso, mas a revista em que o “V for Vendetta” apareceu não era distribuída em larga escala, então nunca recebeu qualquer tipo de escrutínio por parte de pessoas que pudessem estar perturbadas.

Aliás, “Vendetta” nunca teve problemas em alcançar o público, devo dizer que era sempre surpreendido, especialmente depois do 11 de Setembro, quando quiseram fazer um filme sobre o “V” que é um terrorista que explode edifícios. Achei extraordinário que Hollywood fizesse isso depois da tragédia em Nova Iorque, mas os cineastas foram corajosos o suficiente para o fazer e os produtores e escritores do filme, Larry e Andy Wachowski, eram grandes fãs do livro e acreditavam nele politicamente, por isso fiquei contente que o tivessem feito.

E atingiu mais pessoas, fez com que mais pessoas quisessem descobrir o livro.

Exactamente, e isso é importante. Muitas pessoas tinham dúvidas em relação às alterações feitas no filme e eu próprio quando li o argumento fiquei decepcionado por não estar mais perto do original, pois o Larry e o Andy tinham escrito há alguns anos atrás outro mais próximo, mas no final fizeram um bom filme e eu sabia que o seria. Esta foi sempre a minha atitude. Se alguma vez fossem fazer um filme do “V for Vendetta” que fosse bom e não fosse uma traição aos seus conceitos, eu estaria feliz com ele e apoiei-o. Claro que o melhor do filme é que, como disseste, alcança uma maior audiência, espalha a mensagem e as pessoas podem sempre ir até ao livro. Aliás, muitas pessoas que foram ver o filme fizeram-no, por isso não só introduz as pessoas a uma grande ideia como mostrou também quão boas as novelas gráficas podem ser, foi um bom resultado.

Como escolheram Guy Fawkes como símbolo em “V for Vendetta”?

O que ele tentou fazer foi um modelo valioso para nós, porque tínhamos um personagem que estava a enfrentar uma tirania como ele. Tínhamos criado um personagem que era um terrorista mas que lutava contra um regime fascista. Isto era tudo o que tínhamos mas sabíamos as coisas essenciais que queríamos que ele tivesse como por exemplo alguma excentricidade, queríamos que ele fosse uma espécie de personagem bizarro e não encontrávamos uma forma de fazer isso funcionar, então eu pensei que algo que resultaria perfeitamente e nos daria a excentricidade que precisávamos era se o nosso terrorista urbano em Londres adoptasse a persona e até o disfarce e missão de Guy Fawkes, porque o que Guy Fawkes quis fazer é exactamente o que ele queria também.

A razão porque “V” era excêntrico era porque tinham conduzido experiências médicas nele, por isso pareceu uma grande ideia que ele fosse ligeiramente insano e para esse propósito adoptaria de boa vontade um disfarce para criar a sua missão. E Guy Fawkes era perfeito, além de que eu tinha uma simpatia por ele, tirando o facto de que do ponto de vista estabelecido e tradicional ele era um vilão pois todos os 5’s de Novembro nós queimamos uma efígie de Guy Fawkes como um terrível terrorista que tentou destruir a monarquia.

Aliás, o “V” auto-proclama-se como vilão. No fundo é um anti-herói tem boas ideias mas os métodos são questionáveis. Não deixa de ser um terrorista mesmo sendo um terrorista pela liberdade, mas penso que todos simpatizamos com a sua personagem ao ler o livro.

Sim, exactamente. Se examinarmos isto, é uma posição muito controversa porque podemos até certo ponto dizer o mesmo de Adolf Hitler, ele surgiu como uma espécie de herói para a nação alemã, mas na realidade era um monstro.

A verdade está nos olhos de quem a vê.

Sim, temos de dar uma forte vista de olhos nas motivações de personagens como este, mas V era claro um Herói porque lutava contra uma ditadura enquanto Hitler não era na realidade um herói, ele apelidou-se disso e beneficiou o povo alemão até certo grau, mas os seus meios eram na sua base maléficos. No fundo é uma forma de interpretação, mas foi por isso que escolhemos Guy Fawkes.

Acha que o mundo precisa de um “V”?

O mundo precisa sempre de alguém que aja honrosamente em seu nome mas há muitas poucas pessoas assim, porque a maioria das pessoas comuns é imperfeita. É por isso que ao final do dia ele pode ser qualquer um, ele é toda a gente e ninguém. Essencialmente ele é uma ideia, uma ideia da melhor maneira de abordar a liberdade.

Ele escolhe ser um símbolo, porque um homem pode ser destruído mas um símbolo é eterno.

Precisamente, as ideias são à prova de bala.

Lembro-me de ler no prefácio do livro que o Alan Moore demonstra ter algumas preocupações em relação a determinadas acções políticas que poderiam ocorrer no futuro. Isto foi escrito no final dos anos 80, agora passados 20 anos acha que o mundo é um local melhor?

Nunca foi melhor, sempre foi o mesmo, infelizmente. Não acho que foi melhor há 20 ou 30 anos atrás e não acho que será melhor 20 anos no futuro. Há coisas que estão melhores, compreendemos melhor a perseguição, a sociedade cresceu. Nós aceitávamos a escravatura há anos atrás e tínhamos atitudes para com as pessoas diferentes, as mulheres não tiveram direitos iguais durante muito tempo e agora têm. As coisas mudam numa pequena escala mas no geral continuamos a ter as mesmas leis, eu fiquei pasmado com o que aconteceu na Bósnia após a II Guerra Mundial. Depois da forma como a perseguição aos judeus ocorreu, nunca imaginei que alguém fosse tentar fazer aquilo novamente, destruir populações através da crença de que livrarmo-nos de pessoas de certas culturas tornaria as coisas melhores. E isto acontece a toda a hora, temos o Camboja antes disso, a tirania parece continuar e continuar sem ninguém fazer nada em relação a isso, porque é a natureza humana.

Pode falar-nos um pouco sobre um dos seus últimos trabalhos, “Kickback”?

“Kickback” é sobre um polícia corrupto numa força policial corrupta. A razão porque ele é corrupto é porque todos o são, é o que nós a sociedade fazemos. Estamos todos felizes em alinhar com coisas que estão erradas se pensamos que todos o fazem, é como a evasão aos impostos, se pudermos evitar pagar impostos, fazemo-lo.

É a velha história, tu não queres ficar para trás, queres chegar onde todos chegam e não importa se tens de cometer um pequeno crime para o fazer. E isso é, basicamente, porque temos a nossa sociedade no melhor estado que poderá ter e é praticamente sobre isso que “Kickback” trata.

Como disse, em “Kickback” trabalhou novamente o tema da corrupção. Nos seus trabalhos dá-me a sensação que é um tema que gosta de explorar, as emoções das pessoas e como podem ser corrompidas. Temos o caso de “Kickback” e “V for Vendetta”, mas também em “Hellblazer” na história “Este é o diário de Danny Drake”.

Parece que é verdade (risos). Em “Hellblazer” foi um acidente porque eu apenas fui contratado para desenhar a história, mas acho que me sinto atraído por esse tipo de personagem, ou um personagem que de alguma forma se encontra numa situação complicada, alguém que não tem muitos meios de acção, que está como que preso numa determinada posição.

E acho que é importante que escrevas e desenhes o teu próprio material se és um artista, porque deves dizer algo, não há propósito em contar apenas histórias de aventura. Se podes comunicar, se és um artista ou um escritor então porque não dizer algo útil?

Em “Kickback” utilizou o computador para trabalhar alguns desenhos. O que pensa da evolução dos desenhos através da utilização de novas tecnologias ao longo dos anos?

Bem, penso que o resultado da coloração de comics por computador é muito importante porque permitiu ao artista que fizesse as suas próprias cores e que colocasse o trabalho completo num CD e o enviasse ao editor. Enquanto há algum tempo atrás se o artista não trabalhasse com preto-e-branco e colorisse teria de passar por várias questões técnicas, métodos de reprodução antiquados tal como a utilização de linhas azuis o que ainda é comum na publicação europeia, acetatos sobre o actual artwork, e depois uma cópia da arte pintada em aguarela… Ou seja, ficava tudo um pouco confuso, mas a colorização por computador providencia-nos a oportunidade de trabalhar por ficheiros, transferi-los para CD ou mesmo enviá-los por email ao editor e ajudou a impressão também. Acho que temos de a usar com muita cautela pois os efeitos de computador podem ser usados em demasia e a coloração assim pode matar a energia da linha de base actual do trabalho.

Em “Kickback” usei efeitos de computador muito moderadamente por duas razões, ou porque ajudava o contar da história ou porque acrescentava alguma chama à narrativa. É como uma refeição, quando estás a contar uma história e a dá-la aos leitores tu queres que eles a saboreiem como se fosses um chefe e se puderes adicionar alguma especiaria que a tornará mais agradável irás fazê-lo. O importante nos efeitos de computador é fazê-lo muito moderada e disciplinadamente para que faça apenas aquilo que pretendes, senão não tem qualquer efeito.

Prefere escrever ou desenhar?

Eu prefiro fazer ambos, porque esse é o sistema perfeito, não queres ter alguém em cima do teu ombro a dizer penso que um pouco mais de amarelo ali fica muito melhor ou um pouco mais de vermelho ali, mas depende se queres dizer alguma coisa e se és capaz e queres escrever. Se nunca quiseres escrever ou contar histórias sobre pessoas então estás em apuros. Acho que se fizeres isso e gostares de o fazer e tiveres algo importante para dizer não há nada como começar a escrever, ou como ilustrar se não quiseres fazer os dois, mas eu sempre quis, e a única razão porque não o fiz mais cedo é porque se pagas as contas a ilustrar guiões para fora do papel, se essa é a tua carreira, se começas a escrever tens de dar um passo atrás, pois para criar o teu próprio projecto tens de escrevê-lo e depois tens de vendê-lo.

E tem projectos para o futuro, algo que nos possa falar?

Tenho algumas ideias para outro personagem e quero criar o meu material novamente, mas durante o último ano estive comprometido com uma série francesa. Ia fazer um capítulo mas o escritor teve dificuldades em encontrar um editor e levou muito tempo para isto aparecer. Por causa disso não podia começar nada meu enquanto esperava por este projecto europeu. Actualmente não estou certo de que vá fazer algo, idealmente quero fazer algo meu mas não sei, tenho algumas ideias mas tenho de ver o que poderá sair delas.

Quais são as suas impressões do festival?

Acho que é a primeira vez que estou cá e pude ver realmente o festival. Porque da última vez em 2001 fui convidado para representar uma exibição do Alan Moore, com o Kevin O’Neil e apenas vi isso, não vi o cenário completo e é realmente fantástico. É tão grande e contém uma grande variedade de trabalhos! Fiquei mesmo muito impressionado, o que não é nenhuma surpresa pois dura há 20 anos, algo está obviamente a resultar.

Para terminar, o que pensa do recente aumento do apoio ao British National Party no Reino Unido?

Uma coisa muito má!!!



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