Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº89, Fevereiro, 2013

Felicidade > 65

Acha difícil ser-se feliz aos vinte? E aos trinta? Pois… Imagine aos sessenta, ou aos setenta? É este o desafio do projecto Felicidário

Ao todo, serão 365 definições práticas ilustradas de felicidade, durante o ano de 2013. Cada dia um novo desafio, um novo sorriso, uma nova ideia para se ser feliz. Porque quem é que diz que aos sessenta e cinco anos, a felicidade “é arrumar as botas e fazer crochet, é gozar o dolce fare niente ou fazer aquilo que nunca se fez”?

Os motes lançados para rasgar sorrisos são ilustrados por Afonso Cruz, André Letria e Ricardo Henriques, André da Loba, Aka Corleone, Bernardo Carvalho, Carolina Celas, Irmão Lucia, Julio Dolbeth, Madalena Matoso, Maria Imaginário, Tiago Albuquerque e Yara Kono.

A Rua de Baixo falou com Afonso Cruz, um artista multifacetado, que iniciou em grande este projecto e ilustrou a primeira “ideia de felicidade para maiores de 65 anos”.

Como foi o teu percurso enquanto artista multifacetado até agora? Como surgiu a ilustração?

O desenho esteve sempre na minha vida, desde que me lembro. Mas nunca fui incentivado para desenvolver outras facetas, como, por exemplo, a música. Diziam que era duro de ouvido. Um dia escrevi que Beethoven só começou a ficar surdo lá para os vinte e tal anos, ao passo que eu, à nascença, já era completamente duro de ouvido. Mas isso não me desencorajou e aos dezoito comprei uma guitarra e decidi aprender a tocar. Punha os meus discos favoritos, vezes sem conta, e tentava imitar aqueles guitarristas. Estraguei muitos discos assim (não tinha paciência para usar a alavanca, em vez disso, levantava a agulha manualmente, o que me levou a riscar uma discografia bastante extensa). Comprei outros instrumentos: banjo, harmónica, ukulele, e também os fui domesticando. E, ao mesmo tempo, passava o tempo a viajar e a ler, duas coisas que adoro fazer. Estive em mais de sessenta países e quando me perguntavam o que é que eu fazia, omitia que realizava filmes de animação e respondia que viajava. A certa altura, depois de ler bastante, aconteceu-me o mesmo que acontece aos copos que, distraidamente, se enchem de água: transbordei. Ou seja, comecei a escrever. Um dia, sem saber muito bem como, percebi que tinha escrito um livro. Mandei-o para uma editora e as coisas foram acontecendo, tal como os copos transbordam.

Quais são as tuas inspirações?

Várias. Ponho no topo os livros e as viagens. Mas também não convém esquecer que todo o quotidiano, por mais banal que seja, é uma experiência, e pode, e deve, ser utilizado na literatura e na arte. Aliás, muitas vezes, as coisas mais belas de que somos capazes são fruto dessa possibilidade de tornar especial algo que pode, à primeira vista, parecer banal. O meu livro “Jesus Cristo Bebia Cerveja” trata disso mesmo: um homem que se torna Deus, uma aldeia alentejana que se torna Jerusalém, a cevada que se torna cerveja.

 

Como intersectas todas as artes em que intervéns?

Naturalmente. Não é algo que exija um esforço especial. Simplesmente acontece. Por vezes estou a escrever e paro para tocar qualquer coisa no ukulele. É uma maneira de descontrair. Não faço qualquer distinção entre trabalho e lazer. São duas coisas que se confundem. Ler serve a minha profissão e faz parte do meu trabalho, além de ser um prazer. Tal como tocar, desenhar ou escrever.

Por vezes tenho um texto que sinto que precisa de imagens para ser mais eficaz. Nesses casos, as coisas misturam-se. Ou tenho uma música que precisa de uma letra. Ou tenho um desenho que precisa de uma frase. Tudo isto são maneiras de comunicar e eu tento encontrar os meios mais eficazes para servir a mensagem que pretendo passar.

O que é o projecto Felicidário e como surgiu?

Sempre que posso, participo em projectos destes. Há uns anos fiz um cartaz de que gosto muito, precisamente para a mesma associação. O Felicidário tem a particularidade de juntar vários ilustradores de grande qualidade (nem sei porque me convidaram) com o objectivo de trazer felicidade a pessoas com mais de sessenta e cinco anos. Mas eu acredito que trará felicidade a muito mais gente. Nunca é cedo demais para começar.

A primeira ilustração do Felicidário foi realizada por ti. Conta-nos a história por detrás do protagonista desta ilustração, que marcou o início de 2013

A frase “abrir uma conta no facebook” não foi minha. As frases que legendam as ilustrações não são, na maior parte dos casos, dos ilustradores. Por isso, parti da ideia que me foi sugerida e tentei corresponder ao objectivo da campanha. Costumo acrescentar frases às minhas ilustrações, e estas, para o felicidário, não têm sido excepção. O que me deram foi: A felicidade é abrir uma conta no Facebook. Eu acrescentei: Sem a ajuda do neto.

O que é para ti “envelhecer”? Como são os novos 65 anos?

Os novos 65 anos são cada vez mais novos. A longevidade tem aumentado e, por isso, todas as fases da vida têm sido estendidas.

Há uma coisa que me assusta um pouco no modo como encaramos a velhice. Basta reparar nos eufemismos que fomos arranjando: de velhos, passou-se a velhotes, depois velhinhos, depois idosos, depois de terceira idade, depois seniores, e não sei o que virá depois. Parece haver uma ofensa implícita na palavra velho. Não deveria haver. Deveria ser uma palavra que nos fizesse dobrar as costas de admiração, que nos fizesse perceber que os anos que acumulamos não são uma desgraça, são, sobretudo, aquilo que mais prezamos na humanidade: sabedoria e experiência. O que perdemos – a pele macia, a capacidade de sintonizar a televisão, e um abdómen musculado – não se compara com isso.



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