“(…) neste momento já andam na casa dos 12, ou seja, já temos em Lisboa praticamente um festival por mês”. Esta frase foi retirada da entrevista a Fernando Galrito, publicada na edição de Março da RDB, de forma a contextualizar a génese da MONSTRA no calendário dos festivais da capital, numa época em que a oferta de cinema alternativo e independente era escassa. Felizmente, os tempos são outros e o público tem possibilidade de afastar-se das grandes superficies comerciais e descobrir novas formas de interpretar a 7ª arte. De todos os festivais, ciclos e mostras realizadas na cidade de Lisboa, o IndieLisboa tem-se evidenciado pela sua enorme exposição internacional e diversidade da programação. A edição deste ano, que se realiza de 23 de Abril a 3 de Maio, vem consolidar a importância do certame na cidade como grande ponto de encontro entre cinéfilos e agentes do cinema.
Tal como nas edições anteriores, o Indie volta a redesenhar o mapa de salas. Para além de regressar ao Cinema São Jorge, o Cinema Londres e o Fórum Lisboa, a 7ª arte vai estar presente em dois novos espaços: Museu do Oriente (programação de origem ou temática asiática) e o Cinema City Classic Alvalade. Em relação às secções, as principais novidades relacionam-se com a substituição do “Laboratório” pela secção “Cinema Emergente”, à criação de um programa dedicado a documentários – “Pulsar do Mundo” e a uma maior ligação do cinema à música, não só através da secção IndieMusic, já existente em edições anteriores, como também com um conjunto de festas e concertos que vão acompanhar os dias do festival.
De um total de 3120 filmes recebidos, o Indie seleccionou 250 longas e curtas-metragens (159 curtas e 91 longas) para as várias secções do festival provenientes de quatro continentes. São 40 animações, 66 documentários, 29 filmes experimentais e 115 ficções para descobrir durante 10 dias de festa. Seria bastante complicado e cansativo para o próprio leitor estarmos a descrever tudo aquilo que se vai passar no Indie. Resolvemos destacar algumas secções que nos parecem dignas de um destaque especial e que vão ao encontro do espírito da RDB.
CINEMA EMERGENTE
“(…) é uma secção que dá espaço a novas linguagens do cinema contemporâneo, a experiências narrativas originais e a talentos emergentes, em curta e longa-metragem”.
É desta forma que esta secção é descrita pela organização do Indie. Existe aqui a tentativa de mostrar que o cinema pode ser utilizado como complemento a outras formas de expressão artística e que todas são capazes de se misturar e criar novos conceitos.
“Kinogamma “, realizado pelo músico francês Siegfried, é um dos filmes que será exibido nesta secção. Dividido em duas partes (PARTE I: EAST / PARTE II: FAR EAST), o filme é uma tentativa de criação artística através da utilização de imagens editadas da vida real, utilizando a música como batuta. Siegfried, que para além de cineasta toca violoncelo, compõe e faz misturas de jazz moderno com músicas de todo o mundo, irá apresentar a sua música no Cabaret Maxime no dia 29 de Abril.
Dentro desta secção será apresentado um ciclo de curtas-metragens da autoria do projecto “Desperate Optimists”, um casal irlândes que trabalha uma grande diversidade de formas, contextos e meios como o cinema, o vídeo, a internet, a rádio e as galerias de arte. Christine Molloy e Joe Lawlor vêm a Portugal apresentar o ciclo “Civic Life”, 8 curtas que se regem por regras fixas: cada filme é rodado em 35 milímetros e é protagonizado pela comunidade observada, numa abordagem simultaneamente teatral e cinematográfica.
“Visionary Iraq” é o filme do cineasta/pintor/narrador Gabriel Abrantes e de Benjamin Crotty. Nascido nos Estados Unidos da América e filho de pais africanos, Gabriel encontrou em Portugal as condições certas para trabalhar o seu estilo mais radical/alternativo. A obra que é apresentada no Indie teve como génese uma instalação que esteve patente na Galeria 111 no Porto. Nesta edição da RDB publicamos uma entrevista com Gabriel Abrantes, onde podem ficar a conhecer um pouco melhor este jovem artista.
Os três exemplos descritos mostram o propósito desta secção: o cruzamento de géneros artísticos e a criação de uma nova linguagem cinematográfica. Cinema diferente para mentes despertas e conscientes.
OS PORTUGUESES NA COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
Pensamos ser importante destacar o facto de, na edição deste ano do Indie, Portugal ter 4 filmes presentes na Competição Internacional (3 curtas e uma longa-metragem).
“Algo Importante” de João Fazenda (animação), “Arca D´Água” de André Gil Mata (Ficção) e “Arena” de João Salaviza (ficção) são as curtas-metragens de produção nacional seleccionadas pelo Indie.
Em “Arena”, João Salaviza procura descrever a vida de alguém que se encontra em prisão domiciliária. Na suas notas de intenção diz: “interessa-me a tensão dos momentos em que nada se altera (…) segui o princípio de que os planos não se antecipam às deambulações do protagonista nem lhe sugerem caminhos que ele simplesmente não pode ver. É justo para alguém que vive com grades nas janelas de casa, e que está secretamente à espera que as coisas mudem por si”.
Na secção de longas-metragens será exibido “Águas Mil”, filme de Ivo M. Ferreira que estreou mundialmente na edição deste ano do Festival Internacional de Roterdão. “Águas Mil” retrata a história de um jovem adulto (interpretado por Gonçalo Waddington) que procura resolver o enigma do estranho desaparecimento do seu pai, logo após o 25 de Abril de 1974. Homicídio? Fuga? Nesta viagem interior que o leva de Portugal ao deserto em Espanha, Pedro redescobre a sua relação com os que lhes estão mais próximos e com a história do seu País. Nas palavras de Ivo M. Ferreira, “Águas mil é a voz dos filhos da revolução, exigindo à geração dos pais que contem o que se passou na História recente de Portugal, quando o País e o Mundo transbordavam de ideias que caíram antes de se erguerem”.
Podem encontrar os trailers de “Arena” e Águas Mil” nos links externos deste artigo.
INDIEMUSIC & INDIE BY NIGHT
Tendo sido criado, numa primeira fase, para o público “mais musical e nocturno”, a secção IndieMusic cresceu e este ano, composta por 7 longas e 2 curtas-metragens, será apresentada em diversos horários no programa do festival.
Quem não teve oportunidade de adquirir a edição especial do mais recente trabalho dos Mogwai, “The Hawk Is Howling”, poderá assistir à curta-metragem realizada por Vincent Moon (responsável também pelo projecto Temporary Areas, ver link externo), “Adelia, I Want to Love”, que relata o dia na vida da banda escocesa durante a passagem da digressão por uma pequena cidade italiana. Este é o segundo trabalho do realizador francês com bandas indie de renome internacional. O primeiro é o altamente recomendado “A Skin a Night” com os The National.
Em relação às longas-metragens, existe alguma expectativa para assistir ao documentário criativo “Kikoe”, dedicado a Otomo Yoshihide (Yokohama ,1959) , um dos nomes mais importantes da música avant-garde japonesa e que esteve em Portugal no ano passado no festival Jazz em Agosto com a sua New Jazz Orchestra. O seu estilo particular e improvisado que se manifesta na sua música e na sua forma de estar na vida, são reflectidos neste documentário, da autoria de Iwai Chikara, que conta com entrevistas e actuações de diversos artistas como DJ Spooky, Jan Svankmajer, Jonas Mekas, Adachi Masao, Jim O’Rourke, Keiji Haino e John Zorn.
A curiosidade de Otomo Yoshihide começou a desenvolver-se antes do liceu, tendo começado por fabricar diversos equipamentos electrónicos. Mais tarde começou a tocar guitarra e tornou-se um apaixonado pelo free jazz. É um dos músicos mais activos do Japão e colabora com diversos artistas de todo o mundo de diversas áreas, desde o jazz à música clássica, passando pelo noise e electrónica. Nos últimos anos tem trabalhado em diversas instalações sonoras em Museus, tem participado em variados workshops sobre música experimental e tem demonstrado um enorme talento na composição de bandas sonoras para cinema e televisão, destacando-se os trabalhos realizados para os seus compatriotas Kiyoshi Kurosawa, Shinji Somai, Shinji Aoyama, Tian Zhuangzhuan e Ann Hui.
Mas a música não se fica pela tela. Este ano estão planeadas festas/concertos para todas as noites do festival. O Indie By Night tem como principal objectivo “fomentar o convívio entre os vários públicos do festival” e irá ter no Cabaret Maxime o seu quartel-general. Pelo espaço da Praça da Alegria vai passar B Fachada, os Irmãos Catita (na noite de 25 de Abril), os Casino Royale a Bega Blues Band (Roménia) e o músico/realizador francês Siegfried para uma noite denominada de “Free Cinematic Sessions”.
HERÓIS INDEPENDENTES & MANOEL DE OLIVEIRA
Desde a primeira edição que o Indie presta homenagem a “quem mais admira”, aos que “trabalham em prol de um cinema totalmente livre de pré-conceptualizações e preconceitos”. A escolha este ano recaiu no realizador alemão Werner Herzog e no escritor, actor e realizador francês Jacques Nolot. São apresentadas duas “expressivas” retrospectivas com um vastíssimo leque de películas, entre curtas e longas-metragens. Para além dos filmes terá lugar durante o festival, no espaço BES – Arte e Finança, a exposição “Sinais de Vida, Werner Herzog e o Cinema” e será efectuado o lançamento do livro com o mesmo nome, juntamente com as Edições 70.
A estes dois nomes do cinema europeu juntamos Manoel de Oliveira. Embora o realizador não faça parte da programação da secção “Heróis Independentes”, todo o seu percurso na 7ª arte tem-se primado pela independência e negação contínua da sua comercialização. Com 100 anos de idade é o realizador mais velho no activo em todo o mundo e o IndieLisboa apresenta em antestreia nacional “Singularidades de uma Rapariga Loura”, numa sessão especial no Cinema S.Jorge. O filme teve a sua estreia mundial na última edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, depois de Manoel de Oliveira ser agraciado com o Prémio Berlinale Kamera, que homenageia personalidades e instuições com quem a Berlinale estabeleceu, ao longo dos anos, um laço especial.
www.indielisboa.com
twww.myspace.com/filmesdotejo
www.desperateoptimists.com
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