Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº51, Dezembro, 2009

Kid Congo Powers em discurso directo

Este homem já faz parte da mobília do rock’n’roll.

Brian Tristan nasceu em Los Angeles, a segunda maior cidade dos Estados Unidos, em 1960. Provavelmente, esta descrição não diz nada ao leitor. Mas se lhe falar em Kid Congo Powers, o nome pelo qual Brian Tristan responde no mundo da música, então o caso deve mudar de figura. Caso continue na mesma, então lamento, mas o caro leitor devia-se sentir envergonhado por isso. É que Kid Congo Powers é uma verdadeira instituição do rock’n’roll, tendo tocado em três das mais importantes bandas dos últimos anos: os Gun Club (que fundou juntamente com Jeffrey Lee Pierce), os Cramps e os Bad Seeds, do Nick Cave. Por isso, este homem já faz parte da mobília.

Por isso, quando falámos com Kid Congo (alcunha recebida em segundo baptismo por Lux Interior) não conseguimos evitar por começar a conversa por aí: será que tem noção disso? Quando vai para a cama e fecha os olhos pensará ele nisso? A resposta é simples e directa: “Nunca”. “É giro pensar nisso às vezes, mas normalmente não o faço”, acrescenta em jeito de explicação, referindo que prefere recordar “o que aprendeu e as coisas que viu”. No entanto, revela que ultimamente tem recuperado mais essas memórias, devido ao livro que está a escrever, um “memorial”. E isso tem-lhe permitido “apreciar melhor” as pessoas que conheceu no seu passado.

”Pessoas especiais”, recorda. Pessoas que “nunca tentaram inserir-se” em nenhum grupo ou moda, inadaptados que criaram as suas próprias tendências. Pessoas como Jeffrey Lee Pierce, Lux Interior ou Nick Cave. Aliás, Kid Congo explica que foi assim que foi convidado a integrar os Cramps. Na altura, o guitarrista Julien Grindsnatch tinha sido dispensado (depois de substituir “à pressa” o desaparecido Brian Gregory) e a banda procurava alguém para o lugar. E o jovem guitarrista de uma nova banda, os Gun Club, foi o convidado. Kid Congo explica que o convite se deu não pela fama dos Gun Club – que na altura ainda ninguém os conhecia e cujos concertos tinham “para aí umas vinte pessoas” –, nem pelo seu virtuosismo na guitarra – até porque “apenas sabia tocar um ou dois acordes e a Bo Diddley’s beat”. Deu-se antes devido ao seu casaco. “Os Cramps estavam sempre à procura de algo novo e foram ver os Gun Club. E eu tinha um casaco novo, comprado numa loja de roupa usada do Elvis, um casaco verdadeiramente mágico”. Imaginamos o casaco…

Estávamos em 1980 e Kid Congo Powers gravaria dois dos mais importantes álbuns dos Cramps: “Psychadelic Jungle” e “Smell of Female”. Nesse período de tempo, os Gun Club lançam o seu álbum debutante, “Fire of Love”, e tornam-se numa banda de culto, com uma mistura explosiva de country, blues e punk, altamente influenciados pela new-wave nova-iorquina (e pelas drogas, claro). Kid Congo não participa na gravação do disco, já não estava lá – “o Jeffrey Lee Pierce ficou excitadíssimo com o convite dos Cramps e disse-me para aceitar; e para depois arranjar concertos também” –, mas lembra o seu dedo em “cerca de 90 por cento das músicas”. “«For the Love of Ivy» foi a primeira música que escrevi na vida”, aponta.

Hoje em dia, os Gun Club são uma verdadeira instituição do rock’n’roll e “Fire of Love” é mencionado amiúde como grande influência de muito boa gente. Jack White, dos White Stripes, Racounteurs e dos The Dead Weather, questionava-se certa vez “porque raio é que estas músicas não são ensinadas na escola?”. Kid Congo pode gabar-se de ter sido um dos fundadores da banda. E, além disso, regressou ao colectivo em 1983, no período áureo dos Gun Club.

Mas a história de Kid Congo Powers não termina aqui. Como se não bastasse os Gun Club e os Cramps, Kid Congo ainda haveria de passar por outra banda incontornável da história do rock’n’roll contemporâneo: os Bad Seeds, de Nick Cave. Kid Congo havia-se mudado para Berlim, uma cidade “incrível e com um grande espírito artístico, isolada e cercada pelo ocidente”, onde “toda a gente estava a experimentar alguma coisa e, por isso, conhecia-se muita gente e muitos artistas”. “Não havia separação, todos se cruzavam e isso era especial”, sublinha. E foi aí que Kid Congo conheceu Nick Cave, Mick Harvey e o resto dos Bad Seeds, que andavam à procura de um guitarrista para “uns concertos”. Kid Congo acabou por ficar na banda durante quatro anos e ainda gravou dois álbuns, o fantástico “Tender Prey” e “The Good Son”. E, nessa altura, já nem tinha o “famoso” casaco que impressionou Lux Interior. Por isso, “deve ter sido pelo bonito penteado”, diz divertido.

Gun Club, Cramps e Bad Seeds – a lista é curta, mas óptima. E difícil de escolher qual a melhor. Mas nós não resisitimos e colocámos o desafio: qual das três lhe deixa mais saudades? A primeira resposta é a politicamente correcta: “Todas elas são bastante boas”. Mas depois, lá se vai alongando e acaba por confessar que “os Gun Club são a favorita, porque foram parte da minha própria visão e porque o Jeffrey foi um amigo muito próximo”. E, se fosse hoje, de que banda gostaria de receber um convite para se tornar guitarrista? Kid Congo pensa um pouco e responde convicto: “O Prince. Ou então o George Clinton, porque acho que ainda conseguia ser muito funkadelic. Não podia ser uma banda nova, porque iria parecer o avôzinho deles”.

Actualmente, Kid Congo Powers tem o seu próprio projecto, acompanhado pelos Pink Monkey Birds. Kid Congo garante que não foi complicado assumir o lugar de frontman na banda, referindo que já está “bastante confortável” no lugar. No entanto, agora apercebe-se do que os seus antigos colegas tiveram que aturar no passado e por isso deixa “um pedido de desculpas” a eles. Depois de dois discos de originais, Kid Congo assinou pela In The Red, pela qual lançou o recente “Dracula Boots”, que abandona os territórios mais góticos e pisa solos mais quentes, um rock’n’soul que regressa às raízes do garage de Chicago e ao psicadelismo do final dos anos 60. É o seu disco mais próximo dos Cramps e Kid Congo concorda. 

A explicação é fácil: meses antes, havia ido assistir a um concerto da banda e, de repente, foi como se tivesse recuado no tempo. “Foi inspirador”, recorda, explicando como se voltou a sentir jovem e cheio de genica. Assim, reuniu os seus Pink Monkey Birds, voaram para uma terreola do interior dos Estados Unidos chamada Harveyville e fecharam-se num ginásio abandonado de uma escola secundária transformado em estúdio por Jason Ward, o teclista da banda, e gravaram de uma assentada “Dracula Boots”. “É um disco divertido, perigoso, sexy e bastante agradável”, descreve Kid Congo, mas mudando a entoação do “agradável”, como que a dizer “é agradável, mas eu não deixaria a minha irmã mais nova ouvi-lo”.

Kid Congo e os Pink Monkey Birds são os cabeça-de-cartaz do primeiro dia do Barreiro Rocks, festival maior do género em solo nacional, mas já estiveram por cá este ano a promover o disco. Kid Congo confessa que “adora Portugal” e recorda com agrado esses concertos em Lisboa e no Porto, da mesma forma que recorda a nossa culinária, o público e o fado. E os Dead Combo, com quem colaborou em «Lusitânia Playboys». “São uns amigos e temos planos para fazer mais umas coisas juntos e dar uns concertos, mas não tem sido possível conciliar as datas”, revela. Gun Club, Cramps, Bad Seed, Dead Combo… Kid Congo Powers faz parte da mobília toda, de qualquer casa de rock’n’roll em qualquer canto do mundo.



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