Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº91, Abril, 2013

Modalisboa Trust

Três dias de desfiles, glamour e tendências. Tudo o que precisam de ver e saber sobre a última edição da Semana de Moda de Lisboa

Galerias fotográficas: Dia 1 // Dia 2 // Dia 3

Valentim Quaresma

A 40ª edição da ModaLisboa começou com o desfile de Valentim Quaresma. A colecção, intitulada “Daydream”, fez-se com peças de couro, cobre, faux fur e baterias de relógio, uma incorporação irónica do criador que pretende demonstrar a necessidade que temos de uma dose extra de energia, de forma a sobrevivermos no mundo caótico de hoje. “Daydream” procura juntar dois pólos – a industrialização e a criatividade. As peças apresentadas trazem consigo uma carga guerreira, armas e armaduras tão medievais como futuristas – talvez uma forma de sobrevivência na actualidade, talvez apenas parte de uma “fantasia visionária”.

Monika Ptaszek

A criadora convidada desta edição foi Monika Ptaszek, apresentando uma colecção dirigida ao público masculino. Intitulada de “Warship”, baseia-se nas aventuras e desventuras passadas no Mar do Norte. Por um lado vemos os marinheiros prontos a partir, apresentando blazers e sobretudos de corte estruturado, em tons de preto, azul e cinzento. Por outro, os marinheiros que voltam da sua negra odisseia; os cortes assimétricos e as peças “cuidadosamente destruídas” representam este último grupo. Toda a colecção nos faz sentir prontos para partir num qualquer navio sem rumo, faltando apenas escolher a que grupo queremos pertencer: Se aos urban sailors, se aos grunge & rock star sailors.

Ricardo Dourado

O Verão perdeu a custódia total do branco; tem agora de a partilhar com o Inverno. O desfile de Ricardo Dourado abriu com seis conjuntos brancos, fazendo-nos sonhar com um Inverno mais leve, mesmo com o frio a que já nos acostumámos. Mas toda a colecção teve um ar veraneante, o que se pode explicar pelo facto de o criador se ter inspirado pelo ambiente do Soweto, parte da cidade de Joanesburgo. Padrões coloridos marcavam peças desportivas que jogavam com os cortes habituais, enquanto a segunda parte da colecção apresentava um ar mais invernal e menos informal, entre cores mais escuras e a utilização de peles. As formas arredondadas, representadas principalmente pelas cocoon sleeves de várias peças, marcam aquela que é uma das principais tendências da estação.

Luís Buchinho

A colecção de Luís Buchinho revela um passeio ao passado com a mente no presente. Baseando-se na Revolução de Abril – e consequentemente nos anos 70 – o vermelho dos cravos, o negro das armas e o grafismo da propaganda política foram a inspiração do criador. Jumpsuits, saias longas e calças largas jogam com casacos estruturados e peças mais justas. As assimetrias e liberdades com o corte dos tecidos, tão próprios do criador, aproveitam também a pequena paleta de cores utilizada, dando azo a peças bi ou tricolores com uma grande força estética – de salientar as golas altas modernizadas. Os poucos padrões apresentados quase que contam a história de dia 25, entrelaçando a beleza dos cravos com a memória da ditadura.

Ricardo Andrez | LAB

Ricardo Andrez apresenta a sua colecção para o próximo Outono-Inverno, pautada pelo preto, branco e cinzento; quase um uniforme nesta edição da ModaLisboa. Em linhas simples e desportivas podemos ver sweats e blusões a seguirem as linhas da estação (largas e arredondadas), assim como pequenas surpresas no meio da colecção – uma saia (vestido?) em padrão escocês vem à memória. O calçado, que brilhantemente apoiou a colecção, foi da responsabilidade do “Senhor Prudêncio”.

Saymyname | LAB

Cada vez mais assistimos à fusão das estações. A colecção de Saymyname, pela mão de Catarina Sequeira, é desse fenómeno exemplo perfeito. Num tom desportivo vemos vestidos curtos em padrões tropicais, calças skinny com pregas na cintura, saias pregadas à frente e mais estruturadas atrás e tops drapeados. Mas os grandes heróis da colecção são os casacos, bombers de grande dimensão e ombros arredondados que tanto nos podem aquecer numa fria manhã de Dezembro como nos podem aconchegar, postos por cima dos ombros, numa noite de Primavera. Tudo em tons cinza, azul marinho, ameixa e bubblegum pink.

Aleksandar Protic

Mais uma vez o combinado black & white demonstra a sua força para esta estação. Aleksandar Protic, que há mais de 10 anos apresenta as suas colecções em Lisboa, mostra-nos aqui uma junção de peças tanto estruturadas como fluídas, por meio dos drapeados que tão bem consegue. A primeira parte do desfile fez-se com peças mais formais, entre calças justas e vestidos de formas mais arredondadas (as famosas cocoon sleeves desta estação), tudo em preto e branco. Já a segunda parte, embalada por uma música mais intimista, apresenta conjuntos brancos e leves, entrecortados com um houndstooth branco e castanho. Como sempre com Protic, o trabalho de corte e estrutura das peças é impecável, criando conjuntos incrivelmente apetecíveis.

Os Burgueses| LAB

Ainda apresentam a sua colecção como parte da plataforma LAB, mas Euletério e Mia já têm uma legião de fãs de gente crescida. E não querem desapontar ninguém. Desde a selecção musical – que deixou o público a rir, a corar e a dançar – passando pela coreografia do desfile, até às peças: Camisas simples ou disfarçadas de vestidos, pretas ou brancas com manchas estilo Rorscharch; óculos redondos de armações brancas; sweaters e t-shirts com ilustrações que podiam muito bem ser as respostas aos Rorscharch que passaram antes; uma mochila preta em houndstooth que pareceu criar uma onda de suspiros pelo público… e, por fim, bombers, blusões curtos e casacos com apontamentos em pele. A colecção a dois tons que certamente garantiu novos fãs à jovem dupla.

Pedro Pedro

Depois de uma performance eléctrica pela mão d’Os Burgueses, Pedro Pedro surge com uma colecção mais intimista e feminina. Saias pregadas de cintura descida, calças acima do tornozelo de corte perfeito e blusões sem costura de corte solto ditam a leveza de uma apresentação inspirada pela América tribal – não custa imaginar um passeio pelo Grand Canyon do século XV estando munidos com estes conjuntos. Os tons predominantes foram o camel, branco, preto e verde floresta. O calçado passeia-se entre sapatos de sola chunky e botas e botins acentuados com pormenores dourados.

Alexandra Moura

Alexandra Moura afirma que a sua grande inspiração foi o número quatro, a forma do quadrado. Mas quando a primeira modelo surgiu na sala de desfiles foi impossível não pensar na beleza perfeccionista das gueixas japonesas. O styling das modelos consistia num apanhado rígido em forma de tubo no cimo da cabeça, conjugado com uma cara clean e um olhar forte. Chokers em dourado adornavam os pescoços da maioria, e o jogo de luz fez com que o público se sentisse no meio de algo muito íntimo. A colecção em tons de creme, camel, azul e preto apresentava tecidos ricos e texturizados, com cinturas demarcadas para as mulheres e um toque de descontracção cool nos conjuntos masculinos. As mangas largas são outro toque que grita Japão; já os sapatos são marcadamente ocidentais, entre brogues e saltos em pele preta e castanha, acentuados com painéis de metal dourado – definitivamente um dos pontos altos do desfile.

Nuno Baltazar

Nuno Baltazar apresentou aquela que é, até ao momento, a colecção mais colorida desta edição da ModaLisboa. O filme “Orlando”, baseado no romance de Virginia Woolf, foi a grande inspiração do criador. Com um conjunto de materiais ricos como crepe, jaquard lurex, lãs e seda, o desfile apresentou vários conjuntos incrivelmente femininos em tons de preto, caramelo, musgo, esmeralda, fuschia e wine. Embora Nuno Baltazar tivesse indicado a presença de algo andrógeno na colecção, esta sente-se maioritariamente feminina. Para além dos vestidos cintados e das capas a uma ou duas cores, há também que referir a beleza dos ombros e mangas destas criações; com vários cortes diferentes, mas todos fenomenais.

Ricardo Preto

Ricardo Preto quis terminar o segundo dia da ModaLisboa em grande. Para além de estar decorada com várias naturezas mortas, a sala de desfiles encheu-se de fumo a partir do momento em que se apagaram as luzes. Pelo meio das nuvens formadas surgiram modelos com capas de corte clean, blazers (e coletes em jeito de blazers) de estilo recto, saias e blusas fluídas e chunky knits que aqueciam o olhar. O criador descreve a sua inspiração como parte do trabalho produzido e apresentado pela escola alemã Bauhaus, em tons mostarda, preto, vermelho, cinzento e branco. Os drapeados também surgiram em forma de mini vestido branco, quiçá um artista que fugiu da Grécia Antiga para se poder sentar ao lado de Breuer ou Kandinsky.

Marques’Almeida

A dupla que anda a encantar além-fronteiras apostou no movimento grunge que sobreviveu aos anos 90 para a sua nova colecção; o início da década de 2000 e Skunk Anansie foram as suas grandes inspirações. A colecção é composta maioritariamente por peças de ganga, intercaladas com tecidos metalizados e estolas de pêlo em azul ou branco. Jeans absurdamente longos, bombers em pêlo de pónei tingido e conjuntos, também em pêlo de pónei, em padrão preto e branco foram as grandes peças do desfile.

V!TOR

Na sala de desfiles, mesmo antes de V!TOR começar, podem-se ver dois grandes camarões feitos de balões. A primeira modelo surge de patins em linha e máscara de gato, e passados alguns conjuntos vemos um top de padrão curioso… a cara do grumpy cat?! Se há quem conheça e entenda a cultura pop é V!TOR. Grumpy cat would definitely not approve.

O criador foi inspirado pelo misticismo e existência divina. Há, sem sombra de dúvida, uma ligação às divindades egípcias, traduzidas em ilustrações de um gato Deus (mas os cães também aparecem!). A colecção faz-se de malhas e jerseys, muitas peças de riscas largas horizontais – tudo a preto e branco – calças e saias em azul e salmão com folds interessantes na parte da frente, e várias camisolas e vestidos de padrões divertidos.

Dino Alves

Dino Alves gosta de criar performances inesquecíveis. Baseando-se na história contada pelas atitudes, opiniões e estilo de cada um, um grupo de crianças tomou o seu lugar no centro da sala de desfiles, de caderno em punho, prontas a assistir à lição. A colecção foi marcadamente inspirada nos movimentos das folhas de um livro; pregas e machos, a sobreposição de painéis de tecido e o uso de prints de tipografia tornam essa inspiração palpável. As silhuetas femininas assentavam como uma luva às modelos, acentuando todas as suas curvas. Já os homens contaram com sweaters de ombros arredondados com a sobreposição de vários tecidos. Uma colecção lindíssima, em tons de preto, branco, areia, caramelo, azul, alfazema, beringela forte e cereja.

White Tent

No último dia da ModaLisboa, e com mais de uma hora de atraso na programaçãoo, White Tent conseguiu dar uma dose de energia extra a uma sala cheia. Numa colecção em tons de azul, vermelho tinto e cinzento – a destacar o padrão camuflado em diferentes tons de cinza – vimos calças skinny com largos bolsos baixos, camisas e vestidos em Jersey fluído e outras peças justas de corte também irrepreensível. As saias de pregas arredondadas marcaram pela originalidade, numa colecção descontraída e bem disposta, mas sem nunca descurar os cortes perfeitos.

Miguel Vieira

Miguel Vieira trouxe-nos elegância a preto e branco – e paillettes. A primeira modelo surgiu com um longo vestido em prata líquida – que mais tarde se percebeu ser composto por finas filas de lantejoulas. De seguida desfilaram vestidos leves a preto e branco, alternados com peças adornadas como a primeira e sobretudos quentes de clean cut. Também se viram saias pencil em pele de cobra, e sapatos sempre de sola azul – lembrando o da Tiffany’s. Quanto aos modelos masculinos, entre calças brancas e pretas e um sobretudo de corte mais desportivo, houve blazers de vários feitios e padrões, incluindo pinstripes e polka dots.

Filipe Faísca

Muito se pode dizer sobre Faísca, mas nunca que é previsível. A sua nova colecção, “Burro”, apresentou casacos e vestidos oversized em burel, com cocoon sleeves e algumas formas literalmente redondas. Em contraste pudemos ver vestidos e camisas em seda e peças em pêlo. O calçado, botas thigh-high num tecido justo e fino, e os acessórios, gorros felpudos e óculos de ski. As cores utilizadas pareciam muitas vezes indescritíveis, mas foi curioso ver apresentado o tom “cor de burro quando foge” no press release. Outros tons que marcaram presença foram o preto, verde ácido, mesclas e beringela (contanto com um tartan beringela esplêndido em burel). As modelos seguiram um percurso preparado para maximizar a atenção do público, e no momento do agradecimento “desmaiaram”, esperando pela mão de Faísca para as levantar uma a uma. Não, não podemos dizer que é previsível.

Fotografia de Graziela Costa



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