Os últimos dias continuaram a dose de bom cinema a que nos habituou o festival. Cada vez mais escolas aderiram à MONSTRINHA, e cheguei a ter pessoas a perguntar-me o que se passava no Cinema City Alvalade para lá estarem tantas crianças de manhã. Efectivamente, em termos de público este ano parece ter, no mínimo, ter superado o anterior. As masterclasses com sala cheia, tal como as retrospectivas e sessões de competição, são sinais disso mesmo. A de Bill Plympton, por exemplo, praticamente encheu a sala 2 do São Jorge, mesmo apesar do horário (sete da noite). Até aqui, na retrospectiva de um autor que pouco tem de infantil, foram visíveis imensas crianças no público. O mesmo se pode dizer da que foi feita à Suécia que, apesar de tudo, em termos de qualidade foi a que deixou mais a desejar; curtas que, apesar de algum interesse, não conquistaram. Já as dos restantes países, no seu geral mostraram o enorme talento existente em cada canto do mundo.
Os maiores acontecimentos destes últimos cinco dias foram, no entanto, a masterclass de Priit Pärn e de Normand Roger. Priit é, simplesmente, dos mais criativos e complexos autores no cinema de animação actual. O realizador da Estónia usa uma animação de visual básico mas que mergulha a história em símbolos e metáforas; “Hotel E”, filme que passou na retrospectiva dedicada ao realizador, é talvez o maior exemplo disto. O seu mais recente trabalho, “Divers In The Rain”, viria a ganhar o grande prémio do festival. A sua masterclass debruçou-se sobre “Estratégias Criativas na Animação”; algo em que o autor é perito. O seu estilo de animação pode não ser dos mais impressionantes, mas aquilo que é retratado no ecrã é do mais criativo possível.
Normand Roger esteve também presente no festival e talvez tenha sido, juntamente com Bill Plympton, o nome de maior relevância e prestígio internacional que o festival nos trouxe este ano. Com décadas de carreira a criar bandas-sonoras para curtas de animação, o autor teve uma bela retrospectiva (apresentada pelo próprio, tal como foi com os restantes autores), e deu uma masterclass intitulada “A Música e o Som no Cinema de Animação”, onde falou com a eloquência mas acessividade de quem realmente faz disto uma vida.
“É sempre difícil fazer uma masterclass ou um workshop sobre estes temas: afinal de contas, é tudo tão subjectivo”, começou por dizer ao seu público. E é verdade; é necessário saber distinguir o necessário e o objectivo do subjectivo.E Roger fez isso mesmo, falando dos vários papéis que o som (não só a música) pode ter no cinema de animação. Mostrando algumas das suas curtas como exemplos (algumas delas verdadeiramente geniais, como a grandiosa “História Trágica com Final Feliz” – na imagem deste artigo – de Regina Pessoa), o músico ensinou algumas noções de como usar a música e o som para criar ambientes, tons e, claro, para contar histórias. “Por vezes o que interessa mais é mais a estrutura da música que esta em si; a forma como pode ou não dar uma noção de continuidade”. Lições dadas por um mestre, portanto. No final, Roger disponibilizou-se para responder a perguntas. A reacção foi entusiástica: quase uma hora de perguntas e respostas.
As secções de competição continuaram e com elas mais talentos revelados. Muita originalidade se viu, e até algumas ante-estreias de séries infantis que irão estrear em breve. Foi exactamente na última sessão de competição que vi aquela que foi talvez a curta que mais me ficou na memória: “Lost and Found”, já vencedora de um BAFTA. História simples e inocente de um jovem que encontra um pinguin e o quer devolver ao local de onde veio, a narração perfeita, o visual imaculado e colorido, e a trama toda ela de uma simplicidade e inocência tocante comoveram e colocaram um sorriso na face do público. Não ganhou nenhum prémio no festival, mas teria sido bem merecido. Magnífica obra de animação.
E, no último dia, chegou a sessão de encerramento. Com cinco ante-estreias e os prémios entregues pelos membros do júri, foi uma cerimónia que decorreu sem precalços, e com Priit Pärn a subir duas vezes ao palco para receber o prémio de melhor curta e de melhor banda-sonora para “Divers in the Rain” que, como Michaela Pavlátová bem disse, foi a curta mais complexa que o júri viu (e tal é, efectivamente, muito provável). “Cândido”, de Zepe, foi eleito a melhor curta portuguesa, e o produtor subiu ao palco para receber o prémio, com um misto de surpresa e satisfação, perante uma chuva de aplsusos (muitos deles obviamente de conhecidos do realizador). O público também teve direito a dar um prémio, e foi possível no final de cada sessão de competição votar numa curta; nesta edição, o vencedor foi “Passeio de Domingo”, de José Miguel Ribeiro. E, como o júri também tem direito, entregaram um prémio especial a “Der Da Vinci Code”, de Gil Alkabetz. Muitas vezes se houviram nomes franceses e portugueses, entre outros, e era óbvia a enorme presença de obras e autores de quatro cantos do mundo no festival.
Viram-se também algumas belas surpresas em primeira mão, como a nova obra de Bill Plympton em estreia europeia absoluta (esta tinha tido na semana passada a ante-estreia americana), a adorável “The Cow Who Wanted To Be A Hamburguer” (que Plympton mostrou também na sua masterclass), a ante-estreia de mais uma nova série infantil que estreará em breve, e excertos de obras que poderemos ver em breve.
No final, Fernando Galrito anunciou já a nova edição da MONSTRA, que decorrerá em Março do próximo ano. Já com um belo poster feito, foi feita a promessa de mais uma grande edição. No final da cerimónia, enquanto se aprecia o cocktail existente perto do bar e se ouve a música lançada pelo DJ, convive-se com quem se conheceu ao longo da edição, ou simplesmente com quem sempre se quis conhecer mas nunca antes tinha havido oportunidade. A festa continuou fora da sala, já com o festival encerrado (ainda que, no dia a seguir, as obras vencedoras passaram no Cinema City Alvalade), e espera-se, efectivamente, que esta continue também no próximo ano.
Mais uma vez, a MONSTRA foi um sucesso; desta vez, talvez até mais que nas restantes edições. Pelo meio de masterclasses, workshops e de todos os filmes vistos, muito se aprendeu e descobriu (tal como bem disse Flipe Duarte ao entregar um dos prémios: “Obrigado pela hipótese de conhecer este mundo do qual pouco sei mas que agora quero descobrir”). Novos autores, grandes obras, e a MONSTRA foi mais uma vez um verdadeiro evento, uma verdadeira experiência que mergulhou Lisboa no poder de um género que nem sempre tem o respeito merecido. Felizmente, graças a festivais e públicos como este, essa situação começa lentamente a mudar, e a MONSTRA é, ao fim de contas, não só um festival: é uma carta de amor ao cinema e a uma das suas mais belas vertentes.
www.monstrafestival.com
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