A presença dos ninjas no cinema ocidental data de 1967 e deve-se a James Bond. Em “You Only Live Twice”, o famoso agente secreto é enviado para o Japão para evitar uma iminente terceira grande guerra. No decorrer da missão, Bond necessita de ajuda. Diz ele:
- Precisamos de homens de primeira. Há por cá soldados?
- Tenho melhor, muito melhor. Ninjas. É secreto, Bond.
- Ninjas?
- A arte do disfarce e da surpresa.
Tal como Bond, também os ocidentais desconheciam a figura do ninja. Era a primeira vez que o cinema mainstream abordava os misteriosos guerreiros japoneses, especialistas em técnicas de guerra pouco ortodoxas, entre elas a espionagem, a sabotagem e o terrorismo.
Nos anos 70 o cinema norte-americano vivia o fenómeno kung fu. Da China vinham filmes em quantidades industriais, muitos deles dobrados e re-editados. Os “série B” eram depois projectados nos cinemas urbanos e preenchiam a programação das televisões aos domingos à tarde. Mas os ninjas estavam prestes a invadir o ocidente e a impor o ninjutsu como a arte marcial dominante no entretenimento de baixo orçamento. Começavam a ameaçar: em 1975 os ninjas são os vilões em “The Killer Elite”, filme de Sam Peckinpah. Em 1980 é Chuck Norris que os enfrenta em “Octagon”.
O sinal que faltava para que a atenção das produtoras se virasse para os ninjas é dado por Eric Van Lustbader. O escritor americano edita em 1980 “The Ninja”, romance que atinge o estatuto de best-seller, tanto na América como no resto do mundo. A 20th Century Fox percebe que há um novo filão a explorar e compra os direitos de adaptação do livro para cinema. O projecto ainda está na gaveta, talvez devido à Cannon Films. É que a produtora de filmes de baixo orçamento antecipa-se e em 1981 estreia nas salas norte-americanas “Enter The Ninja”, o primeiro de muitos filmes cujo protagonista é um americano que se veste de ninja porque na infância aprendeu ninjutsu e é tão bom naquela arte marcial que nem os próprios ninjas o conseguem vencer. Era o início da ninjamania.
“Enter the Ninja” tem no título uma óbvia referência a “Enter the Dragon”, apoiando-se no sucesso de um dos mais conhecidos filmes norte-americanos de artes marciais. Mas, ao contrário do filme protagonizado por Bruce Lee, “Enter the Ninja” é tão mau e tão engraçado que lhe podemos colar a etiqueta trash. Se bem que “Enter the Ninja” nunca pretendeu ser sério: o protagonista é o actor italiano Franco Nero, estrela de filmes western spaghetti que usa um farfalhudo bigode, é louro e tem olhos azuis. Se estas características já não são comuns num ninja, acrescente-se ainda que em grande parte do filme ele veste um traje ninja branco que nunca suja, independentemente dos inúmeros combates que trava e dos incontáveis inimigos que elimina. A determinada altura, os vilões falam sobre ele:
- 20 homens? Ele livrou-se de 20 homens? Impossível!
- Impossível ou não, ele matou-os todos.
- Isso tudo deve-se apenas a um homem?
- Não a um homem normal… mas a um ninja!
- Um quê?
- Um ninja… alguém que estudou ninjutsu. Eu tirei algumas notas – diz, recorrendo a um bloco com apontamentos.
O sucesso do filme dá origem a duas sequelas não assumidas e à propagação dos filmes ninja, fomentada pelo advento do VHS e pela onda consumista que se vivia naquela altura. Também os chineses começaram a exportar filmes de ninjas aos montes e de qualidade muito duvidosa. No fenómeno há ainda lugar para as Tartarugas Ninja, que da banda-desenhada saltam para a televisão e em 1990 para o cinema.
À Cannon Films também se deve o clássico “American Ninja”, de 1985. A história é a mesma – um norte-americano que se veste de ninja porque na infância aprendeu ninjutsu e é tão bom naquela arte marcial que nem os próprios ninjas o conseguem vencer – mas neste caso estamos perante um filme realmente mau e nem o passar dos anos o favorece. Seguiram-se quatro sagas, a última delas estreada em 1993.
O fenómeno teve a sua máxima expressão durante os anos 80 e nos anos seguintes os guerreiros nipónicos deixaram de fascinar o grande público. Mas o panorama pode mudar. Em Novembro estreia “Ninja Assassin”, filme que conta a história de vingança de um ninja. É produzido pelos irmãos Wachowski, responsáveis pela triologia “Matrix”, e dirigido por James McTeigue, o realizador de “V de Vingança”. Mais: Sho Kosugi, actor japonês que se destacou em “Enter the Ninja”, é um dos protagonistas, representando o chefe de um clã ninja. Vem aí a ninjamania do século XXI?
Gabriel, estou contigo: adorei o "V de Vingança" e estou muito curioso para ver "Ninja Assassin". Com os Wachowski por perto, normalmente o resultado é bom.
Pereira, o Sho Kosugi está aí de novo, mais uma oportunidade para relembrar os tempos da ninjamania!!
Eu gostei do V for Vendetta se tiver a mesma qualidade "Ninja Assassin" será um sucesso.
Não é certo ainda mas parece que depois deste James McTeigue voltará a virar-se para os super heróis com o filme de Magneto.
O que é muitas vezes ignorado nas interpretações ocidentais da classe (e, para ser justo, em algumas orientais, também) é como o ninja funciona como o reverso da medalha do samurai - enquanto o samurai é a face "oficial" do poder, servindo o shogun (supostamente) com um sistema de honra complexo, o ninja encontra-se numa posição de servo, obrigado a sacrificar a vida pelo mestre, mas cuja obrigação é ser sorrateiro, amoral e completamente desprovido de escrupulos na realização da sua missão. Faz portanto sentido ter sido o James Bond a introduzir o mito ao ocidente - as histórias dos ninjas prevêm o cenário maquiavélico do mundo da espionagem.
Para uma boa exploração destes temas, recomendo a série de filmes "Shinobi No Mono", bem como a manga "Path Of The Assassin".
Tens de estar registado para fazeres um comentário ou