Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº55, Abril, 2010

Philip Ridley

Entrevista exclusiva com o realizador inglês, vencedor da 30ª edição do Fantasporto.

“Heartless” é a história de Jamie Morgan, um rapaz de Londres que tem uma marca de nascença na face em forma de coração. Jamie (interpretado por Jim Sturgess) assiste ao crescendo de violência gerado por gangues encapuzados que acredita serem demónios verdadeiros. À medida que o círculo se aperta e o protagonista vai perdendo as pessoas que ama, este fica mais próximo de descobrir o que está por detrás de toda essa violência. A RDB esteve à conversa com Philip Ridley, o cineasta que recebeu pela segunda vez o Grande Prémio Fantasporto em 2010.

É a terceira vez que vem apresentar um filme ao Fantasporto, e ganhou mais uma vez.

Não o diga assim. E ganhou mais uma vez…

Qual é a sensação?

A sensação é absolutamente fantástica, a melhor do mundo. Precisava de algo que desse um empurrão à minha auto-confiança. Enquanto realizador, depois de “The Passion of Darkly Noon”, perdi alguma dessa auto-confiança. Levou-me muito tempo a pensar que era capaz de fazer algo em filme que as pessoas quisessem ver e dele receber algo.

É essa a razão por ter estado catorze anos sem realizar?

É uma das razões, junto com o facto de o género de filmes que eu quero fazer serem cada vez mais difíceis de sair do papel. Os filmes que faço não são muito direccionados ao mainstream, são um pouco diferentes. Não são facilmente catalogados e está a tornar-se cada vez mais difícil financiar filmes assim. Por exemplo, o filme que fiz anteriormente, “The Passion of Darkly Noon”, para ser financiado foi preciso que duas pessoas dissessem sim. Foi feito por dois financiadores principais. Actualmente há dez, quinze, vinte pessoas, todas a pôr um pouco de dinheiro. Ninguém quer dar uma grande quantia e então torna-se muito difícil fazer um filme como o “Heartless”, que demorou muito tempo a arrancar.

Apesar de ter realizado apenas três longas, passou-se já muito tempo desde a primeira. Entretanto assistiu a muitas transformações no modo de funcionamento desta indústria…

Completamente. De cada vez que fiz um filme foi progressivamente mais difícil de o concretizar. É assombroso para mim lembrar-me como o meu primeiro filme, “The Reflecting Skin”, foi financiado de forma relativamente fácil. Levei-o à BBC em Inglaterra, onde estavam os principais financiadores. Eles leram o guião, uma pessoa disse “sim, aqui está meio milhão de libras” e as outras duas pessoas decidiram-se rapidamente a investir. Não exigiram que mudasse uma palavra no argumento, tive direito a director’s cut, pude fazer o casting como quis, não havia pressões para ter um nome, uma estrela. Quem quer que eu quisesse no filme, tudo bem. Não é possível fazer-se um filme assim hoje em dia. É virtualmente impossível.

É real a imagem que as pessoas têm da indústria cinematográfica, de pessoas de fato e de lápis na mão a riscar um guião dizendo “Isto sim. Isto não.”?

Predominantemente, sim. Quer dizer, há boas pessoas, não são todas assim. E há pessoas que realmente adoram filmes mas como o Woody Allen disse uma vez, é uma indústria de cinema. Indústria. Não se chama cinema cinematográfico, chama-se indústria cinematográfica.

É de dinheiro que se trata.

É dinheiro e eles querem ver dinheiro de volta. E se investir em ti não lhes garante dinheiro, eles vão investir em ouro, açúcar, diamantes… vão investir noutra coisa qualquer. Querem ver retorno e o que eles sabem que faz dinheiro é um filme que é parecido com outro filme que já fez dinheiro. Eles lêem os meus guiões e perguntam-me, “Bem, o filme vai ser parecido com o quê? A que filme se assemelha? ”. Eu respondo, “Não se assemelha. Não vos posso dizer com o que é parecido. Vai ser diferente”. E aí não consegues ter o dinheiro deles porque eles precisam de dizer que é igual a alguma coisa.

Este filme retrata a cena dos gangues londrinos. É um cidadão londrino. Tem medo de andar nas ruas?

Bem, às vezes sim. A área onde o “Heartless” foi filmado é muito específica, fica no East End de Londres e chama-se Bethnal Green. Foi onde viveram uns gangsters muito famosos, os irmãos Kray, sobre quem escrevi um argumento há alguns anos [“The Krays”, realizado por Peter Medak]. Todas essas ruas que se vêem no filme são próximas das minhas. Na cena do telhado, quando Papa B e Jamie se encontram, é o telhado do meu apartamento que se vê. Portanto, é-me tudo muito próximo. E o que tenho visto nessa área é uma rápida e perigosa ascensão de violência de gangues nos últimos dez anos. Gangues enormes que controlam a zona. Tudo isto tem confundido os locais nos últimos anos. Ouve-se toda a gente dizer que a violência não tem sentido. É violência pela violência, não há um propósito para isto. De certo modo foi aí que o “Heartless” começou, enquanto olhava pela minha janela e via esta devastação urbana, gangues, violência sem propósito. Comecei a pensar, “E se houvesse um mito urbano contemporâneo, um conto urbano, uma lenda urbana que explicasse particularmente a violência urbana?”.

O título “Heartless” é bastante ambíguo.

É uma palavra que pode ter variadas interpretações. A um nível muito pragmático é o que Jamie tem de fazer como parte do acordo. Tem que arrancar o coração de alguém. Mas na minha opinião tem uma profundidade muito maior e expressa um certo olhar sobre um zeitgeist, um sentimento de que as coisas não têm coração, de que perderam a sua alma, a sua humanidade. E é isto que o personagem do Jim [Sturgess] tem dificuldade em compreender. Ele já não sabe como as coisas funcionam. Vive num mundo desprovido de coração. E isto é, claro, sintomático de o seu pai ter morrido. Ele perdeu a pessoa que atribuía sentido ao mundo.

O filme tem uma grande dose de existencialismo. Foi esse o propósito?

Não foi o propósito mas começou a surgir. Quando começámos a trabalhar juntos no guião, o Jim disse-me “Este personagem tem tudo a ver com Sartre”, e eu concordei. Ele passa por toda a ansiedade existencial pela qual alguém pode passar. E é do género o derradeiro filme existencialista porque no fim ele acaba em chamas. O interessante é que muitos jovens que vêem o filme reparam nisso, compreendem-no. Jovens que não sabem quem é Jean-Paul Sartre nem o que significa existencialismo, não têm conhecimentos sobre filosofia mas identificam-se porque há muito esse pensamento existencialista por aí.

É algo que sentem?

Sim, acho que o sentem sem saberem o que é. Por que outra razão continuarias do lado de alguém que viste matar outro jovem? Ele mata alguém da maneira mais terrível possível e continuas com ele, continuas a ser seu amigo ao longo do filme. Isso é um conceito muito existencialista.

O Jim Sturgess está muito bem no filme. Foi uma primeira escolha?

Foi. Ele é um jovem actor incrível. Foi a melhor experiência de trabalho que alguma vez tive com um actor. Ele está em todas as cenas, em cada uma delas. Trabalhámos juntos durante três ou quatro meses, todos os dias, desde as seis da manhã até à meia-noite, dezoito horas por dia. Poucas horas de sono depois estávamos de novo a trabalhar.

É quase um casamento.

É pior que um casamento. Nem sequer se tem sexo, pelo amor de Deus! Foi uma jornada muito íntima. Eu tinha de ter a certeza de que víamos o filme da mesma maneira porque se ele não estivesse a ver o mesmo que eu, tudo ficaria desfeito em pedaços. Tínhamos de estar absolutamente esclarecidos sobre o que fazer em cada take do filme. E não é um filme de grande orçamento. Filmámo-lo rapidamente, em seis semanas. Estávamos a trabalhar aceleradamente e o Jim foi capaz de aparecer e simplesmente fazê-lo. Cenas muito difíceis que se detêm por muito tempo apenas na sua cara. A maneira como fiz o filme foi manter a câmara na cara dele durante um só take a toda a hora. Fiz um plano principal da cara do Jim em cada cena que fizemos. Estava sempre a voltar ao Jim e às suas reacções. Mesmo antes do fim do filme, a câmara fica na cara dele por uns dois minutos, detém-se enquanto se pode vê-lo a pensar tudo, a descortinar a fantasia, e perceber que ele é o seu próprio demónio, que ele fez todas aquelas coisas. E fizemos isso num take. Foi fenomenal.

Adorei o som dos demónios. Como é que o conseguiram?

A quantidade de camadas nesse som é uma enormidade. As principais camadas que se ouve são os gritos de uma raposa em sofrimento, o guincho dos pneus de um carro, o som de um comboio a travar, o grito de alguém a ser torturado, o som de uma bomba, o som desacelerado de uma bala, em crescendo. Há cerca de vinte sons diferentes. Levou bastante tempo a consegui-lo.

E funciona como um alerta para o espectador, um presságio…

Sim, e vai crescendo. No grande grito final, no fim do filme, tem ainda mais camadas. Tem todos os gritos que se ouviu durante o filme todo. Esse grito no fim é como a história de todo o filme num só grito.



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