Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº65, Fevereiro, 2011

Poesia

Espelho de água.

É difícil falar de “Poesia”, de Lee Changdong, sem ser desmancha-prazeres, sem revelar mais do enredo do que se deveria. A maneira como o filme está construído obriga a isso, a narrativa é de tal forma inexorável que descrever o princípio é adivinhar o final, inevitável. Reside aqui a sua grande fraqueza ou a sua grande força, ainda não estou certo. (Cannes viu força, deu a Lee o prémio de Melhor Argumento na edição do ano passado.) Tentarei, ainda assim, revelar o menos possível, sendo às vezes críptico de mais. O leitor, avisado, que vá por sua conta e risco.

Aos primeiros planos de “Poesia”, descobre-se um pouco da história – um corpo de uma adolescente desagua perto de umas crianças que brincam – e muito das qualidades de Lee Changdong: numas quantas penadas, sem palavreado, com suaves movimentos de câmara e um corte ou outro, está lançada uma das correntes da narrativa.

De seguida, é apresentada a protagonista, Mija (interpretada por Yun Jeong-hie, que leva o filme às costas, expressão batida, mas poucas vezes tão acertada), a meio de uma consulta em que se percebe que tem uns primeiros indícios de Alzheimer. Mija é uma sexagenária bonita, sempre muito aprumada. Trabalha como mulher-a-dias para um homem entrevado e toma conta do neto adolescente. Segunda corrente narrativa.

Por esta altura, quando se vai mais fundo nas águas da história da adolescente boiante, começa-se a pensar em “Mother – Uma Força Única”, do também coreano Bong Joon-ho. Há pontos de contacto: protagonistas da mesma idade, o amor de mãe como o amor de avó, o amor incondicional. Mas se “Mother” joga mais no terreno do thriller (e fá-lo muito bem), “Poesia” é mais duro, apresenta menos desculpas, questiona as certezas do espectador, não no sentido do choque ou de surpresa, entenda-se, no de fazê-lo questionar as relações familiares, as lealdades e as traições.

Terceira corrente narrativa: a poesia. Mija resolve na terceira idade dedicar-se à sua paixão pelos versos, inscreve-se num workshop e passa o resto do filme com um caderninho a tirar notas. Diz que gosta muito de flores e coisas bonitas, mas a maior parte das vezes fala é de sangue e morte. E só quando se põe face-a-face com a maldade do mundo, com os sonhos desfeitos consegue soltar o seu poema. É ela quem, de todas as personagens, sente mais o suicídio da adolescente encontrada nas águas, que se matou por não aguentar mais ser o objecto sexual de seis rapazes num laboratório escondido. Um gotinha de feminismo ou uma imensidão de identificação, a água como espelho.

As correntes todas – estas e outras que não tive espaço para referir – juntam-se no final e ganham muita força, uma força imparável, dir-se-ia um tsunami, que se começa a vislumbrar a meio do filme. Se é fraqueza de argumento demasiado prefeito, continuo sem saber. De resto, não há surpresas, só muita amargura.



Comentários (0)

Sem comentários

Tens de estar registado para fazeres um comentário ou

Redes sociais

  • Facebook
  • Twitter
  • MySpace
  • LinkedIn

PUB

Advertisement