Revista online sobre Cultura e Lifestyle
Edição Nº57, Junho, 2010

Poliziotteschi

O cinema nos anos de chumbo

À noite, três jovens delinquentes partem a janela de uma joalharia. O vidro estilhaça ao som de uma guitarrada Prog Rock. A câmera corta para outra parte da cidade (Nápoles? Milão? Génova?), onde um drogado está a comprar a sua heroína de um homem de fato e gravata. Mas esperem! O dinheiro é falso. Cheio de fúria, o traficante chama um duo de capangas para limpar o sebo ao junkie – voa o sangue com textura de ketchup que conhecemos do cinema marca anos 70. Passamos para outra cena, e um político engravatado está a sair do seu escritório quando é abordado por um grupo de rufias que o empurram para dentro de uma carrinha. À medida que essa se afasta, aparece o título do filme no ecrã.

A montagem inaugural da decadência urbana é apenas uma das muitas convenções do estilo chamado poliziotteschi – uma série de filmes italianos que, nos anos 70, se focaram em mostrar A Vida Como Ela Realmente É. Outros aspectos típicos do género: o polícia maníaco que quebra as regras; as perseguições de carros a ritmo alucinante; as mulheres, quase sempre desnudas e vítimas de algum tipo de brutalidade; as vedetas internacionais, a pagarem a renda; a inimitável indumentária dos anos 70; as bandas sonoras de Ennio Morricone, Luiz Bacalov, Goblin ou DeAngelis; a propaganda comunista; a propaganda anti-comunista. Após o declínio do spaghetti western, o público italiano exigia pistoleiros modernos – e foi satisfeito por uma quantidade prodigiosa de filmes inspirados em “Dirty Harry”, “The French Connection” e “Bullit”.

Os Anos de Chumbo

Para entender a história do poliziotteschi, é preciso primeiro entender a atmosfera da Itália nos anos 70. Se já por cá essa década é associada ao tumulto, em Itália os assim chamados “anos de chumbo” foram uma sucessão imparável de atentados, assassinatos e distúrbios. O movimento social esquerdista, desiludido com os partidos oficiais, dividia-se em grupos cada vez mais extremistas, culminando na notória violência das brigadas rossi e da prima linea.Do outro lado das trincheiras, os neo-fascistas fervilhavam em actividades que iam das simples lutas de rua até às grandes conspirações políticas. As próprias autoridades eram acusadas de orquestrar actos de terrorismo para aumentar a resistência pública ao comunismo; mais tarde vir-se-ia a saber que também a NATO se encontrava envolvida nesses joguinhos com a Operação Gladio, que procurava travar o comunismo através de quaisquer meios necessários. A tudo isto adicione-se índexes de pobreza crescentes e o crime organizado pelo qual a Itália é tão bem conhecida, e o retrato final é de um pânico geral; é essa a situação que inspira a paranóia, o cinismo e o niilismo tão patentes nos poliziotteschi.

Ainda não há grande consenso sobre qual será o primeiro poliziottesco. Filmes de polícias e ladrões já os havia a muito tempo, claro. Enzo G. Castellari, cujo “La Polizia Incrimina, La Legge Assolve”(“High Crime” na versão anglófona) de 1973 é considerado um dos grandes marcos do estilo, aponta para “La Polizia Ringrazia” (1972, “Execution Squad” no título americano), do realizador Steno, como o originador do estilo. O que parece certo é que não se tratou de uma mudança súbita, mas sim uma evolução progressiva que se ia desenrolando à medida que filmes como “Dirty Harry” ou “Shaft” chegavam aos cinemas italianos e o público começava a tomar o gosto pelo estilo.

Do spaghetti western, os poliziotteschi herdaram uma legião de actores americanos. Na altura, esses tinham sido contratados para fornecer autenticidade às histórias italianas do Faroeste; agora, os americanos eram convidados a desempenhar papéis de polícias e ladrões italianos. Entre os sobreviventes spaghetti que passaram para o poliziotteschi podemos destacar Charles Bronson, Jospeh Cotton, Yul Brynner, Tomas Milian, Telly Savalas, Woody Strode, Lee Van Cleef, Henry Silva, John Saxon e Richard Harrison. Fred “The Hammer” Williamson, um dos grandes do blaxploitation, realizou o seu próprio exemplo do estilo com “Mr.Mean” (1977) e mesmo Chris Mitchum, o filho do lendário Robert, juntou-se à pândega no pouco aclamado “Ricco” (1973). A este contingente americano somavam-se actores vindos do Reino Unido (Oliver Reed, David Hemmings), da França (Alain Delon, Luc Merenda) e da Alemanha (Helmut Berger, o omnipresente Klaus Kinski.)

Não que a Itália pecasse por falta de talento próprio. Franco Nero, outrora conhecido como o mítico “Django” dos spaghetti westerns, ganhou nova vida aparecendo em numerosos filmes do género, resplandescente e com um dos melhores bigodes dos anos setenta. Mario Adorf transpunha a personagem do famoso Tuco de “The Good, The Bad & The Ugly” para os tempos modernos, com uma série de papéis em que se mostrava moralmente fraco, hedonista e absolutamente adorável. E havia mais heróis do poliziotteschi: Fabio Testi, o jovem galã da década; Maurizio Merli, o homem a chamar quando Nero não podia; Romano Puppo, perfeito para os papéis de “gorila”; e o implacável Antonio Sabato, entre outros.

A confusão de nacionalidades é uma parte integral deste género, em que os filmes eram quase sempre co-financiados com dinheiro alemão, francês, espanhol. Um resquício de uma altura em que existia verdadeiramente uma cultura Pop europeia, em que meninas holandesas colocavam cartazes de cantores franceses nas suas paredes e discotecas gregas vibravam ao som de êxitos suecos. Em “Revolver” (1973, realizado por Sergio Sollima), o britânico Oliver Reed desempenha o papel de um inspector de polícia italiano que forja uma aliança ténue com um jovem criminoso francês, interpretado pelo italiano Fabio Testi. Não era uma combinação estranha para a altura.

A Política dos Poliziotteschi

Nas páginas do “New Yorker” em 1971, a crítica Pauline Kael acusou “Dirty Harry”, o filme de Don Siegel com Clint Eastwood que tanto influenciou o poliziotteschi, de fascismo. “Il Cittadino Si Ribella” (“Street Law”, realizado em 1974) despertou, segundo o seu realizador Enzo G. Castellari, uma reacção semelhante na imprensa esquerdista italiana – a história, em que um cidadão comum (Franco Nero) toma a lei nas suas próprias mãos, terá incitado vários escribas a condenar o filme como uma fantasia de extrema direita. De facto, o cenário geral do poliziotteschi – uma sociedade amoral e devorada pelo crime organizado, polícias honestos e desesperados, vagas lembranças de tempos melhores – insere-se bem em algumas narrativas de extrema direita, e não são poucos os filmes em que o abate desenfreado de criminosos é servido como entretenimento puro, sem grandes preocupações morais.

Mas é importante notar que existiam tantos ou mais ideólogos de esquerda como os de direita no cinema popular italiano da altura. Muitos poliziotteschi (“Strret Law” inclusive) apontam para a corrupção policial como um dos problemas principais do país na altura. Alguns vão ainda mais longe, passando para a corrupção política e eventuais laços entre o crime organizado e o governo. O poliziotteschi vem da perspectiva do criminoso quase tantas vezes como da polícia: o que transparece no fim não é uma ideologia de esquerda nem direita, mas o famoso cinismo pelo qual a Itália já é conhecida desde os tempos da commedia dell’arte. Todos são corruptos, tudo tem um preço, o homem honesto perde sempre.

O poliziotteschi não era insensível a excursões nos outros géneros mais populares da altura: o brutamontes Bud Spencer, por exemplo, na série “Piedone” (“Flatfoot” em inglês), combinava enredos policiais com o seu humor típico. Realizadores gore como Umberto Lenzi, Lucio Fulci e mesmo Ruggero Deodato (com o notório “Cannibal Holocaust” ainda por realizar) exploravam novos limites no quão detalhadas se podiam mostrar as feridas dos tiroteios. E havia também ecos do passado: muitos poliziotteschi, no enredo e na coreografia, eram apenas spaghetti westerns em que o cowboy foi substituído pelo inspector.

Mas atenção: no meio dessa barafunda toda, fez-se grande cinema. Fernando Di Leo, um filho de advogados fascinado com a maleabilidade da lei e cheio de entusiasmo pelo cinema americano, realizou uma triologia de noirs modernos (“Milano Calibre 9″, “La Mala Ordina” e “Il Boss”) inteligentes e humanistas. Sergio Sollima, já conhecido como um dos melhores no campo do spaghetti western e inspirado pelo fatalismo dos filmes de Jean Pierre Melville, partiu para Nova Orleães para filmar “Citta Violenta” (“Violent City”) com um elenco exclusivamente anglófono, criando assim o único poliziotteschi que podia passar por americano, antes de realizar o alucinado e profundamente político “Revolver”. Enzo G. Castellari, sempre empenhado em não entediar o seu público e sempre só um bocadinho mais inteligente do que aparenta, realizou com “Il Ciitadino Si Ribella” um filme de vigilantes acima da média desse estilo, por mostrar as consequências dos actos do seu protagonista e por contar com uma performance deliciosamente histérica de Franco Nero. E Damiano Damiani criou, ao longo da década, uma série de thrillers  de conspiração em que a origem do mal se encontra sempre nos escalões mais altos da sociedade.

Um bom poliziotteschi tem um valor de entretenimento inegável, com tiroteios, perseguições, vestuário e cabelo facial inacreditáveis e bandas sonoras bem funky compostas pelos melhores da Itália. Mas estes filmes são também cápsulas temporais de um tempo de crise, da morte lenta do sonho hippie e de um país à beira do colapso.



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