“Amália – O Romance da Sua Vida” | Sónia Louro

“Amália – O Romance da Sua Vida” | Sónia Louro

Cantar a angústia com um sorriso triste nos lábios

Quem estiver à procura de uma biografia exaustiva sobre a diva maior do Fado, cheia de factos, datas e outros registos temporais ou enciclopédicos, não o vai encontrar em “Amália – O Romance da Sua Vida”. O livro, da autoria de Sónia Louro, é escrito com a paixão de uma admiradora, contando a vida de Amália Rodrigues como um romance ao som de uma banda sonora tingida de negro.

A viagem começa em 1939, quando Amália entra no Retiro da Severa, na altura a mais afamada casa de Fado e onde actuavam nomes como Alfredo Marceneiro e Hermínia Silva. Será na cave que a sua vida irá mudar, numa performance que faz com que todo o Retiro desça as escadas para ver a cara de uma voz que havia galgado os degraus e provocado um curto-circuito nas almas de quem por lá andava. Pouco tempo depois deixava de trabalhar numa fábrica de rebuçados para abraçar uma carreira de fadista, apesar da resistência inicial dos seus pais que viam no Fado uma vida pouco recomendável.

Apresentado de forma cronológica, o livro conta diversos episódios da vida da fadista que fez do mundo a sua casa: o fim do “Rebordão” como nome artístico, dando lugar ao “Rodrigues”; as tentativas de suicídio inspiradas na sétima arte – e outras -, em que bebia vinagre enquanto parava nas correntes de ar; José Reis, o empresário altruísta, que em três tempos fez de Amália a estrela lusitana mais bem paga; a atracção pelo lado errado do amor; o “casamento talhado no céu” com José Valério, que compunha fados como se lesse a alma de Amália; a paixão por Salazar, que a tornou numa espécie de bibelô do regime; Alberto Janes, o farmacêutico que chega do Alentejo para lhe oferecer o Fado «Foi Deus»; os corações que deixou partidos, desde Charles Aznavour a Pablo Neruda; o convívio com estrelas de então, como Edith Piaff ou Ernest Hemingway; a tentativa frustrada de abandonar a carreira para se dedicar à vida de boa dona de casa; uma nova reinvenção do Fado com a descoberta de Alan Oulman, seguida da revolta nacional por se ter atrevido a cantar Camões; os piqueniques que antecediam as sessões de gravação, compostos por sardinhas – assadas ou de escabeche – com pimentos assados e arroz de tomate ou arroz de bacalhau; a actuação tardia nos Coliseus nacionais, apenas em 1985, depois de já ter tocado nas principais salas de todo o planeta.

Ao longo da sua vida, Amália sempre se sentiu privada da felicidade, sentindo-se por vezes uma obediente marioneta do destino, «uma passageira de um comboio, que se limita a ocupar o seu lugar na carruagem e se senta até ao seu destino, impotente em relação às paragens que são feitas». Porém, aquela que cantava a angústia com um sorriso triste, encontrou nas palmas do público o seu maior (e eterno) amor. Sónia Louro fez-lhe, com este livro, uma bela e merecida homenagem.

Uma edição Saída de Emergência



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