“Aonde o Vento Me Levar” | Entrevista com Manuel Jorge Marmelo

“Aonde o Vento Me Levar” | Entrevista com Manuel Jorge Marmelo

A Literatura é uma grande ilusão

Partindo da impossibilidade de escrever um livro, Manuel Jorge Marmelo prestou uma bela homenagem à Literatura. “Aonde o Vento Me Levar”, romance editado este ano pela Quetzal, é uma viagem com ar de sonho ao continente africano, uma peregrinação interior onde se reflecte sobre a ideia de perda e se tira, também, uma radiografia ao quotidiano.

Ao mesmo tempo que nos revela um olhar sobre algumas das contradições do mundo, “Aonde o Vento Me Levar” baralha a ficção com a realidade, mostrando a fonte onde a Literatura vai beber, cercada de enganos, malabarismos e ilusões.

É também a relação do escritor com M., o seu duplo, e de como a insatisfação permanente pode conduzir o escritor à invenção de personagens que dele se tornem independentes, iluminando o banal com a luz de um sonho feliz. A RDB vestiu a pele de nómada imóvel e esteve à conversa com Manuel Jorge Marmelo.

Consideras-te um nómada imóvel ou, quando viajas, vais sem máquina fotográfica e guia turístico?

Não dispenso, quando viajo, a máquina fotográfica. Mas quase nunca levo guia. A primeira parte da questão, porém, é mais difícil de responder, na medida em que alude à epígrafe da segunda edição do livro, que é completamente diferente da original, e implica uma certa identificação entre o autor e a dupla personagem do seu romance. Ora essa identificação existe e não existe. Literariamente, sim, interessou-me explorar a possibilidade dessa deslocação imóvel, da viagem imaginada, recorrendo a uma personagem que se desdobra e, por isso, ganha asas e ultrapassa a sua contingência quotidiana. Num certo sentido, essa é a maior das virtudes da literatura, seja para quem a escreve, seja para quem a lê.

“Aonde o Vento Me Levar” é um elogio ao livro enquanto criador de sonhos, que permite “viver uma vida paralela sem chegar a tocar em nada”. O futuro do livro continua a ser risonho nestes tempos cada vez mais tecnológicos?

Não sei responder a essa pergunta. Parece-me que o futuro do livro, mais ou menos risonho, não depende do suporte tecnológico que permita a sua leitura. O destino dos livro depende sobretudo dos seus leitores, das pessoas que é capaz de tocar e com as quais consegue dialogar.

Porém, ao mesmo tempo que nos mostra uma vida paralela, o livro poderá também destruir-nos alguns dos sonhos que construímos a partir de palavras nele lidas – “Talvez as cidades dos livros devessem permanecer sempre tal e qual as lemos, ficando os leitores proibidos de invadi-las e perscrutá-las à procura dos sinais que confirmem a sua existência”. É possível conciliar o que vemos com o que lemos?

Os livros criam mundos paralelos, cidades e vidas, as quais, por vezes, contactam com vidas e cidades reais. Uma cidade inventada, como uma vida inventada, pode ser mais ou menos interessante do que as vidas e as cidades reais com as quais se assemelham, mas os universos da literatura não são da mesma esfera da realidade. São cenários de uma espécie de demanda e, nesse sentido, a sua criação obedece às distorções subjectivas que o autor impõe. A reflexão que proponho no “Aonde o Vento Me Levar” vai, pois, no sentido de tornar claro que a ficção é também um jogo no qual se admitem malabarismos vários, gestos batoteiros e ilusões, sendo conveniente ter sempre presente que, como num circo, a mulher do mágico não é realmente serrada ao meio. Quando o número termina, ela está tão inteira como sempre esteve. E o mesmo acontece com a vida de cada um, ou com as cidades que se possa visitar.

A relação de M. com a tua criação é uma mescla de amor-ódio, que alterna entre a admiração e a desilusão. Pode o escritor criar grandes personagens sem que o seu coração lhes pertença?

A relação do senhor Sicrano com M. é igualmente tumultuosa… Mais do que saber se é necessário amar as personagens, ou se se pode deixar de amá-las apesar dos defeitos que têm, quis reflectir, isso sim, sobre a relação que sempre existe entre o criador e a sua obra ou criatura; na permanente insatisfação do autor enquanto motor de uma busca permanente e, às vezes, insana.

A certa altura lê-se isto: “…as mulheres são o que são: aparecem, insinuam-se, metem-se no coração e, em pouco tempo, tomam conta das nossas vidas. Colonizam-nos. Subvertem a nossa natureza e moldam-na de acordo com os seus caprichos”. Os homens deixaram definitivamente de mandar no mundo?

Deixaram? Não sei. Cada vez sei menos quem é que manda no mundo. Penso frequentemente que são os barões da finança. Mas, se calhar, cada um desses obscuros senhores que diariamente destroem milhões de vidas com uma simples aposta nos mercados têm, em casa, uma mulher que os domina e controla. Mas não posso ter a certeza. O meu mundo não contacta com o mundo deles.

Depois de citar a certa altura Camilo Castelo Branco, o narrador/autor defende o que falta à sua escrita: “copiar, inventar e mentir mais amiúde”. Será o escritor um mentiroso compulsivo que mente com a autorização dos seus leitores – que preferem vê-lo como o inventor de uma realidade alternativa?

Um mentiroso ou um fingidor, como escreveu o Pessoa. Mas, em todo o caso, os escritores são, regra geral, aldrabões benévolos. Não prejudicam ninguém com as mentiras que inventam, ao contrário dos políticos, que também mentem com quantos dentes têm e que, sendo autorizados a fazê-lo pelo voto dos eleitores, acabam por, depois, confrontar-nos com realidades alternativas de muito má índole.

Qual a fronteira entre a vida e a literatura?

Depende dos livros, dos escritores, dos momentos. No meu caso, os livros partem quase sempre da vida, mas servem precisamente para me distanciar dela e, de certo modo, para poder vê-la com a clareza que a distância introduz.

Houve uma Atla na vida de Manuel Jorge Marmelo? E poderemos alguma vez recuperar de um amor tão incendiário?

Creio que isto interessará pouco ao leitor. Na minha vida, como a de toda a gente, não houve nenhuma Atla e, ao mesmo tempo, existiu uma miríade de Atlas. E pode-se sempre recuperar de tudo. Como diz a minha mãe, a única coisa que não tem remédio é a morte.

Seria conveniente que as coisas do amor terminassem como em “Casablanca”?

Provavelmente não. Tudo depende da perspectiva a partir da qual se olha – e este livro apresenta sempre duas perspectivas, a do narrador, mais prática, e a do seu duplo viajante e sonhador. Se parece conveniente que o tempo não passe quando se é feliz, que a dinâmica da vida não estrague os bons momentos, também é verdade que uma tarde perfeita de praia que durasse para sempre acabaria, se calhar, por se tornar um pouco aborrecida. Porém, como não temos forma de saber o que é o bem-estar eterno, parece-nos bem sonhar com ele.



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