“Diário de Inverno” | Paul Auster

“Diário de Inverno” | Paul Auster

Festim Austerniano

Diz-se que a velhice é como uma segunda infância. Uma altura em que deixamos de jogar à defesa e esquecemos convenções sociais, deixando o politicamente correcto desarrumado no fundo de uma gaveta e agindo como se não houvesse amanhã – ou como se o fim estivesse tão próximo que não valesse a pena perder tempo com a construção de máscaras ou em diálogos sobre o estado do tempo em elevadores.

Chegado aos 64 anos, Paul Auster edita um livro de memórias que é um abrir da porta a um Inverno rigoroso – e ao mesmo tempo acolhedor – que chegou para não mais partir.

Ao longo da sua profícua carreira, Paul Auster usou experiências pessoais e familiares para dar corpo aos seus romances, parecendo muitas vezes ser ele o herói da história personificado em muitas das personagens. Em “Diário de Inverno”, o escritor norte-americano apresenta uma biografia ao estilo de um romance, uma invenção que é contada na terceira pessoa como se fosse a voz sussurrada da consciência.

As confidências são muitas e Auster obriga-se a um grau de exposição elevadíssimo. Para lá de ficarmos a conhecer as 21 casas onde viveu ao longo da sua existência, desde os tempos de Paris aos actuais tempos Brooklynianos, Auster fala-nos de coisas tão íntimas como a relação com os seus pais (e outros membros da família), das suas amantes, do desfrutar da prostituição, dos problemas de saúde, das vezes que escapou por um triz a uma ida prematura para o purgatório.

“Cada vida é marcada por várias unhas negras, qualquer pessoa que consegue chegar à idade que tu tens agora, já escapou por pouco a várias mortes absurdas e sem sentido”. Paul Auster chegou ao Inverno da sua vida, deixando a porta da sua alma escancarada para quem quiser espreitar o que vai lá dentro. Para os amantes da prosa de Auster, estas páginas são um verdadeiro festim.

Uma edição Asa



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