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Daniil Harms | “Esqueci-me como se chama”

Histórias e Poemas de Daniil Harms (Ilustração de Gonçalo Viana). O disparate é coisa de miúdos e graúdos

Por vezes, quando tentamos encontrar o fio condutor entre a vida e a obra de um artista, somos confrontados com um mar de surpresa onde não conseguimos descansar o olhar. Veja-se, por exemplo, o caso de Daniil Harms (que no BI assinava como Daniil Ivánovitch Iuvatchov), escritor russo nascido no ano de 1905.

Perseguido pelo regime, foi proibido de publicar, tendo conseguido lançar à luz da edição qualquer coisa como um par de poemas. Sobreviveu escrevendo para revistas infantis, textos que, de tão desafiantes ao modelo didáctico em voga, o atiraram por duas vezes para o cadafalso. Da segunda já não sairia com vida, morrendo de fome a 2 de Fevereiro de 1942.

Com a cidade de Leningrado sitiada pelo exército nazi, a sua mulher e um amigo regressam à casa onde viviam, quase destruída pelo rebentar das bombas, resgatando uma mala onde Daniil havia guardado todos os seus manuscritos, numa obra que duas décadas mais tarde começou a ser publicada na URSS.

Seria de esperar, com esta atmosfera lúgubre e uma boa dose de assombração, que os textos de Daniil Harms fossem na onda de uma distopia como “Nós” ou “1984”, onde tudo converge para um buraco negro onde não há lugar para o riso. A verdade, porém, parece não ser bem assim. Pelo menos se nos basearmos em “Esqueci-me como se chama”, livro editado entre nós pela bruaá e que conta com ilustrações de arregalar o olho de Gonçalo Viana: profusamente coloridas, de uma geometria incontida e com uma inspiração retro que nos traz à memória a vida e os objectos made in Russia – como as belas das matrioskas.

O livro é uma viagem incrível pelo universo do nonsense – ou disparate, como diria Camões -, ao lado mais absurdo e encantador da vida. Um desafio a desorganizarmos a nossa forma de olhar as coisas e de as experimentarmos fora de todos os condicionalismos, regras e imposições a que nos habituámos a obedecer. Não admira que tal visão não tenha sido muito bem recebida pela Rússia de então.

Em “Esqueci-me como se chama” temos os dez mandamentos do disparate: uma história que nunca o chega a ser; uma conversa sobre o jardim zoológico em se confunde um leão com um tentilhão; uma louca corrida à volta de um lago entre um leão, uma girafa, uma avestruz, um veado, um alce, um cavalo selvagem e um cão; uma estranha motivação para enfiar colheres de óleo de peixe garganta abaixo; um ouriço armado em corajoso; um problema de linguagem à volta do nome de uma das muitas gueixas do galo de capoeira; uma espécie de ensaio sobre a forma mais sensata de levar um burro casmurro a entrar nas portas da cidade; o estranho desaparecimento de Karl Ivánovitch; um circo de nome Printinpram, que oferece um programa espectacular; uma viagem a custo zero, por entre muita discussão, ao Brasil (ou será Brasíluvo?).

Fica um aviso à navegação: os livros da bruaá ameaçam tornar-se num caso sério de dependência. Para miúdos e, por que não dizê-lo, graúdos, que continuam a ver a vida com os olhos toldados pela imaginação. Ficamos agora à espera que do baú de Daniil Harms a bruaá tire mais pérolas como esta.



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