“Mazagran” | J. Rentes de Carvalho

“Mazagran” | J. Rentes de Carvalho

Nesta língua não há lugar para papas

“Recordações & outras fantasias”. É este o subtítulo escolhido para “Mazagran”, livro de J. Rentes de Carvalho, que reúne cartas, artigos de jornal e outros escritos deste português, nascido em Vila Nova de Gaia no ano de 1930.

Rentes de Carvalho é um filósofo em estado pop que, com o recurso à simplicidade, inventa uma linguagem rica em substância, ensinamento e muita ironia. Além de permitir um contacto com o lado mais pessoal da (sua) escrita, o livro convida a traçar um perfil (entre muitos possíveis) deste escritor que, desde 1956, assentou arraiais em Amsterdão: um tipo discreto, anti-militarista, avesso à tecnologia, às citações e ao exercício físico e que, muito raramente, se decide por uma reclamação – mesmo quando é mal servido num restaurante de hotel.

Os assuntos encontrados em “Mazagran” são muitos e diversos: há o cheiro das papelarias, uma despedida silenciosa entre ciganos, a pouca solidariedade na produção do vinho na sua aldeia, livros atirados fora como lixo e muita conversa sobre como é estar disperso entre dois países que muito pouco – ou mesmo nada – têm a ver um com o outro.

A rematar, e numa carta dirigida a Deus, Rentes de Carvalho escreve isto, que pode ser lido como uma reza travessa: «Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que continue a chamar às coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que crescem com a idade». Assinamos por baixo. E, em vez de irmos a Fátima acender uma vela para que o desejo se cumpra, preparamos sabiamente um Mazagran. Com direito a conhaque.

Uma edição Quetzal



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