“Mister Norris Muda de Comboio” | Christopher Isherwood

“Mister Norris Muda de Comboio” | Christopher Isherwood

Uma amizade singular

Muito provavelmente, todos nós temos – ou já tivemos – uma amizade desviante, que parece existir envolta em ondas centrífugas que trazem à memória a imagem de um redemoinho sentimental. “Mister Norris Muda de Comboio”, da autoria do britânico Christopher Isherwood, conta uma dessas amizades singulares que trazem as cores do arco-íris à existência.

Situado em Berlim no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, este romance semiautobiográfico tem início a bordo de um comboio quando William Bradshaw, professor de Inglês e narrador da história, decide trocar umas palavras de circunstância com Arthur Norris, personagem de ar sinistro, aspecto amedrontado e «olhos de um azul-claro invulgar». A partir de então entramos no universo peculiar de Mister Norris, um homem que é todo ele um poço de contradições: gastador compulsivo apesar de afundado em dívidas; depravado mesmo revelando uma cortesia profundamente britânica.

Christopher Isherwood mostra-nos, também, a vida artística e boémia berlinense, onde a ameaça do terror político se começa a revelar desvendando um mundo feito de espionagem, contra-espionagem e muitos segredos. Da vida de Mister Norris fazem também parte personagens que levaram com umas boas pinceladas de surrealismo: o Barão von Pregnitz (Kuno para os amigos), que mantém a forma física usando um cavalo eléctrico, uma máquina de remo e um cinto de massagens rotativo; Otto, um rapaz de grandes proporções e um aperto de mão esmagador; Anni, uma esbelta figura que navega ao sabor dos ventos políticos; Olga, «uma alcoviteira, uma traficante de cocaína e uma receptadora de bens roubados; Herr Schmidt, o secretário de Norris, gordo, atarracado, com «olhos lacrimosos de um amarelo-claro e uma pele com manchas da cor de papa de aveia».

Com uma escrita virtuosa e um humor tipicamente britânico, “Mister Norris Muda de Comboio” oferece-nos o retrato de uma amizade singular, tendo como pano de fundo uma cidade prestes a trocar a vida boémia e descomprometida por um regime habitado pelo terror político.

Uma edição Quetzal



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