“O Feitiço da Índia” | Miguel Real

“O Feitiço da Índia” | Miguel Real

Bilhete só de ida

O último projecto literário de Miguel Real é uma ambiciosa revisitação histórica a um País chamado Índia e, ao mesmo tempo, um adeus português a um império perdido. O que terá feito com que três gerações distintas de portugueses se apaixonassem por este País habitado pela miséria, cheio de contradições, com deuses a espreitar a cada esquina e mulheres mergulhadas num profundo silêncio?

A resposta revela-se desde logo no próprio título, “O Feitiço da Índia”, que narra a presença indiana de três portugueses, pertencentes à mesma árvore genealógica, em diferentes momentos da nossa história. Começamos em Lisboa com José Martins, salvo da forca no último instante e que parte como “degradado” na armada de Vasco da Gama, onde se torna num médico imprescindível, apesar de não ser diplomado. É ele o primeiro português a pisar solo indiano, numa viagem de prospecção onde uma vez mais consegue fintar uma morte que para muitos seria certa; há também a história de Augusto Martins, o único português não luso-indiano que decidiu permanecer em Goa após a invasão das tropas indianas quando corria o ano de 1961; e, por último, seguimos os passos do narrador desta história, descendente de José Martins e filho de Augusto Martins, que após o reatamento das relações entre Portugal e a União Indiana parte para a Índia à procura do seu pai, remetido a um silêncio eterno desde que havia deixado a pátria lusitana.

Nesta travessia de gerações, cada uma caída num feitiço inquebrável que conduz a uma imensa paixão, é-nos apresentado um retrato apaixonante de Goa e da cultura indiana, da presença portuguesa que começou por ser dominadora e se veio a tornar acessória, e uma visão dos Descobrimentos que, ao mesmo tempo, consegue ser muito crítica e apaziguadora. A adenda final, um pesadelo póstumo, pode ser lida como o fim do Império. Aqueles que prefiram um sonho mais tranquilo podem decidir que o livro havia terminado algumas páginas atrás.

Uma edição Dom Quixote



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