Bruno Shiappa  – 25 anos de carreira

Bruno Schiappa

Há 25 anos atrás Bruno Schiappa dava os primeiros passos no mundo da representação. Para assinalar a data, o Teatro da Trindade apresenta a peça ‘’Três mulheres no mesmo homem’’, que vai estar em cena de 13 a 29 de março.

A ideia não é recente, mas o conceito continua a ser atual. Na origem da peça ‘’Três Mulheres no Mesmo Homem’’ estão os estereótipos de género que habitam no seio do mundo ocidental. O homem e a mulher, separadamente, foram concebidos para ter determinadas funções e comportamentos socialmente impostos. Bruno Schiappa considera que apesar de se ter dado a emergência da mulher ativa na sociedade, continuam a existir certos estereótipos que a privam. ‘’Ainda é residual o preconceito de que a mulher não tem direito ao erotismo, ao seu corpo, à sua fantasia e que o homem não tem direito a chorar’’, afirma. Além disso, acrescenta que com esta peça pretende fazer uma crítica aos olhos do mundo onde habita: ‘’continua a haver aqui uma grande crítica da minha parte à forma como o mundo ocidental e principalmente latino, católico, apostólico e romano vê a mulher e o homem. E eu uso normalmente uma metáfora que é: É um espaço onde é pecado ir à missa e rezar’’, sustenta.

A encenação a solo vai estar a cargo de Bruno Schiappa que, por sua vez, vai encarnar no papel de quatro personagens: ‘’o que o público pode encontrar na sala-estúdio é um ator que compõem três fases da mesma mulher, mas que poderiam ser três mulheres distintas, que por sua vez vivem sobre a sombra masculina’’. Uma peça que recupera características claras associadas ao teatro grego em que os homens encarnavam papéis de personagens femininas.

O ator presenteia-nos com momentos da vida de três mulheres que poderiam ser passagens da vida de uma só, mas que também se poderiam encaixar na vida de qualquer um de nós. A primeira mulher apresenta-se em rutura com o amante, a segunda mantém um casamento porque não encontra outras formas de se figurar a si mesma e, por último, a terceira passagem trata-se de uma carta dirigida a um filho, que desapareceu, culpando a mãe por várias ocorrências. As três cenas aparecem cruzadas com vários momentos, já desvendados pelo ator: ‘’Esses momentos são intercalados com momentos em que a mulher é agressiva com o agente da polícia que a acusa de assassínio; e há outra parte em que ela dá a entender que o próprio casamento era um local de violência, pelo menos, psicológica’’. É com base na vivência que outrora manteve com a mãe e as duas irmãs que Bruno Schiappa se auxilia para escrever o guião. ‘’Houve mulheres muito importantes na minha vida, principalmente três, a minha mãe e as minhas irmãs que, por um lado, foram desativadas, de alguma forma, do aspeto masculino’’, esclarece.

O ator salienta que é uma história que vai mexer com o lado mais sensível do público, por ser uma temática que exalta um turbilhão de sentimentos. ‘’Há dor, há perda, há solidão, mas há também erotismo, há quase uma obscenidade que raia o pornográfico, numa fantasia que era muito proibida em termos sociais ao universo feminino’’. O simbolismo de ‘’Três Mulheres no Mesmo Homem’’ passa pela capacidade que o ator detém de controlar emoções, mas que, ao mesmo tempo, não deixam de ser reais. ‘’ Há um ator que é capaz de habitar emoções e só é capaz de as habitar porque as sente’’, isto porque ‘’se os homens não tivessem emoções não podia haver atores, só podia haver atrizes’’.

Um quarto de século a teatralizar

Bruno Schiappa pisou o palco pela primeira vez aos 6 anos. As memórias recordam-no de que sempre desejou estar ligado ao mundo do teatro e da representação. Contudo, não se tratou de algo premeditado, mas sim, de algo que foi surgindo. É desta forma que o ator vê a profissão que hoje tem: ‘’O que eu costumo dizer é que o teatro na minha vida aconteceu, tal e qual como aconteceu o meu cão: ele é que me escolheu’’.

Primeiro o teatro, seguindo-se o cinema e depois a televisão. É esta a preferência marcada pelo ator em 25 anos de representação. O longo percurso permitiu-lhe desempenhar dos mais variados papéis. Embora as suas especializações estejam direcionadas para as psicopatologias, Bruno não esconde a empatia que detém por um género de personagens em específico: ‘’Gosto muito de compor ou dar corpo àquelas personagens que vivem num limite de desequilíbrio emocional’’, revela. Além disso, existem outros géneros como a comédia e as variedades pelos quais também nutre alguma paixão. ‘’Tenho memórias fantásticas em que a música, o sapateado, o canto, a comicidade, os ritmos e a cor eram uma constante e eram um elemento muito forte sem ser uma coisa só canalizada para o entretenimento fútil’’.

Ator dentro e fora do país, lá fora já exerceu a arte da representação em França e no Canadá. Embora a caminhada seja longa, estão sempre a surgir novas ideias, porque a dramaturgia assim o permite a quem dela se alimenta. ‘’A dramaturgia é um oceano, todos os dias se descobre uma coisa que era brilhante’’, realça assumindo que tem em mente projetos com os quais pretende avançar.

Para trás ficam inúmeras estórias para contar de uma carreira que viveu, e continua a viver, ao sabor das marés menos favoráveis com que Portugal nos presenteia. ‘’ 25 anos já dá para cansar, ao mesmo tempo é uma vitoria. De vez em quando sinto-me um bocadinho cansado, mas o ator é um masoquista’’.



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