“12 Anos escravo” | Solomon Northup

“12 Anos escravo” | Solomon Northup

A impossibilidade de ser imparcial

Sobre os seus 12 anos de limbo, Solomon Northup escreve que ansiou diversas vezes pela morte, julgando ser melhor alternativa à escravidão. Afro-americanos submetidos a maus tratos e trabalho forçado no sul dos Estados Unidos, vendo o seu direito fundamental ao livre arbítrio negado, direito este que Northup tivera em plenitude antes do seu rapto no norte do país. Tais infortúnios estão na base de uma das mais importantes obras da literatura abolicionista de finais do século XIX.

“Não tenho comentários a fazer sobre o tema da escravatura”, pondera o autor, já novamente homem livre. Mesmo que, de um ponto de vista editorial, “12 Anos escravo (Marcador, 2014) esteja moldado a nível estilístico para dar maior dimensão literária ao texto e servir os interesses políticos (diga-se louváveis) do abolicionismo, possui, ao contrário daquilo que diz a citação do autor, passagens arrepiantes que condenam a natureza desumana da escravatura. A impossibilidade de Solomon Northup ser imparcial é, por isso, uma mais-valia para o realismo das suas descrições.

Um cruzar de dados com os apêndices documentais, também presentes nesta edição, confirmarão que a obra é um retrato verosímil e historicamente rico do quotidiano oitocentista norte-americano. As memórias do autor oscilam entre episódios dolorosos, como a recorrente “correcção” por chicote no “gado humano”, de Edwin Epps (dono de Platt, por sua vez nome de escravo de Solomon), como também descreve em minúcia – e com fascínio, para gáudio dos historiadores – a apanha de algodão, técnicas manuais de carpintaria e construção, entre outras tarefas que o tempo e a técnica mudaram.

Northup fez por manter a dignidade mesmo que, à luz das pseudociências do seu tempo, o intelecto do homem negro fosse considerado próximo de um ente sem quaisquer faculdades cognitivas em potência. Ao fim de doze extenuantes anos de miséria, foi a figura messiânica do carpinteiro Bass que comunicou a condição de Solomon aos seus conhecidos em Nova Iorque. Após várias tentativas, em vão, de comunicar com a família, Bass surge como a esperança não só do autor, como também como reflexo da mentalidade abolicionista da época. Sobre a escravatura, diz ao “patrão” Epps: “é completamente errado; completamente, não tem nada de justo”. Conforme descreve, antes de Bass e durante doze anos, Northup só conhecera alento de outro homem branco, o primeiro proprietário, William Ford.

“12 Anos escravo”, o livro, não se insere no domínio de estilo e substância do filme, recém-oscarizado e na ordem do dia (com todo o merecido mérito a Steve McQueen). É, antes de mais, uma fonte histórica, descritiva e muitas vezes contida, como seria de esperar da época. Ainda assim, surpreende por sensibilizar, podendo até – talvez àqueles que ainda crêem exclusivamente na boa natureza do homem – chocar.



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