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17ª Festa do Cinema Francês

Críticas dos filmes "Juste la Fin du Monde", de Xavier Dolan & "Les Ogres", de Léa Fehner

Nem sempre consegui apreciar o cinema francês.

Quando era petiz achava-o estranho. O problema residia na língua, que eu não achava nada sedutora. Depois, por altura da adolescência, achei que os filmes franceses eram todos uma seca. Entendia que nada de importante se passava. As histórias eram como crianças em constantes rodopios – muito exercício sem sair do mesmo sítio. Hoje, e sobretudo depois de assistir a dois filmes neste último fim de semana, penso que o adolescente não estava assim tão enganado, só que lhe faltava algo para dar sentido aos rodopios.

A 17ª edição da festa do cinema francês foi mais um sucesso. Afirmo-o pensando somente no cartaz que o festival apresentou. Uma grande mostra daquilo que é o cinema francês contemporâneo.

A convite de um amigo decidi ir ver a mais recente obra do jovem realizador Xavier Dolan, que ganhou bastantes louvores no festival de Cannes – “Juste la fin du monde”. Mas por achar que um não seria suficiente para saciar o apetite escolhi outro filme – “Les Ogres”. Era um tiro no escuro pois nunca tinha ouvido falar deste, mas a sinopse deixou-me curioso.

Ora vejamos. “Juste La fin du Monde”. Este pareceu-me um filme ideal para uma peça de teatro.

A história é simples: Louis é um escritor que vive nos EUA e decide viajar até ao seu país de origem, França, para estar com a sua família. Durante 1h37min vemos vê Louis a confrontar-se com cada um dos seus familiares – irmã, irmão, cunhada e mãe.

Os confrontos são bastante emotivos e intensos, fruto do trabalho exemplar dos actores e realização exímia de Xavier Dolan. Contudo, pareceu-me que em cada um desses momentos de conflito havia algo que merecia ser explicado ou que não fazia muito sentido. O irmão mais velho de Louis (interpretado pelo veterano Vincent Cassel) parece viver em constante sobressalto e estar sempre pronto para criticar os outros. Quando o filme termina ficamos sem saber porque tem os nós dos dedos em ferida e qual a origem da sua revolta. Louis tinha algo para contar à família, uma das razões que o fez viajar, e acaba por lhes dizer adeus e não revelar o seu segredo. Há quem considere este acto como sendo de misericórdia – quis poupar os seus entes queridos. Eu achei uma má escolha. Talvez tenha sido uma decisão deliberada de Xavier Dolan. Talvez tenha achado que seria um desfecho muito previsível. Creio que pela mesma razão não quis fornecer muitos pormenores sobre as personagens e deixar espaços em branco para os espectadores preencherem. Provavelmente sou antiquado, mas não gosto de espaços em branco. Gosto de observar o que move as personagens e não ter de conjeturar sobre aquilo que não observo.

O filme não é mau, longe disso. Só que tinha uma expectativa grande – de ver um filme perfeito. E, infelizmente, “Juste la fin du monde” é mais uma coleção de detalhes perfeitos. Como a cena de Justin e a sua irmã a falarem no quarto e onde a música de Grimes parece apoderar-se deles (e de nós).

Les Ogres” foi uma agradável surpresa. É um filme que conta as peripécias de uma companhia de teatro itinerante.

Em “Les Ogres” ficamos com uma ideia de como é difícil viver da arte saltimbanca. Vemos a rotina de um grupo de artistas, obrigados a conviver diariamente uns com os outros, que vestem os seus papéis para a peça do Theatre Davai e depois despem-se para encarnar os viajantes cansados, desiludidos com o rumo da sua vida.

Les Ogres” pode não apelar a um grande público, por causa da temática, mas é um filme que convence, que consegue envolver e também constranger. Há uma cena que me deixou genuinamente incomodado pela humilhação em hasta pública a que uma personagem é sujeita.

É um facto que “Les Ogres” é só a segunda incursão da realizadora Léa Fehner no cinema de longa metragem, mas é seguramente um trabalho que auspicia um futuro risonho para a artista francesa.



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