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2000 AD

O movimento punk nos comics Britânicos

A publicação 2000 AD é um comic semanal Britânico , lançado no final dos anos 70 que  ainda hoje perdura no universo da BD, tendo no entanto o seu momento áureo ocorrido nos  primeiros anos de existência com alguns dos mais influentes autores do meio a darem os primeiros passos nas suas páginas.
Em 1977, com o movimento punk no auge  surge a 2000 AD, aglomerando novos anti-heróis sci-fi, que apesar das suas características diferenciadoras , tinham em comum um universo nilista em que a agressividade era fundamental para a sobrevivência.

A estética do comic acompanhava o tom dos argumentos, em perfeita sintonia com as ondas de choque que o movimento punk provocou na cultura pop do final dos 70s e inicio dos 80s. O preto e branco enquadra-se perfeitamente no espírito das obras, o que combinado com o elevado nível de detalhe característico dos desenhos da generalidade desta corrente de artistas, transmite um permanente desconforto ao leitor, pelo grafismo explicito e provocatório.

Alguns dos personagens mais recorrentes da 2000 AD tornaram-se extremamente populares sendo por esse facto ainda hoje republicados em antologias contendo as sagas mais emblemáticas. Destacam-se Judge Dredd,  Halo Jones e  Nemesis the Warlock , todos eles enquadrados na estética do anti-heroi.

As aventuras de Judge Dredd decorrem entre os finais do séc. XXI e inícios do séc. XXII,  pós holocausto nuclear ocorrido em 2070, na Mega-City One., que mais não é do que uma Cidade-Estado ocupando o espaço  correspondente à costa leste dos EUA.

O herói pertence ao contingente que impõe a lei e ordem de forma imediata, efectuando o julgamento e execução da pena sem “burocracias” legais. Daí decorre a famosa frase do personagem “ I am the law!”. O seu principal adversário é Judge Death líder dos Dark Judges, oriundos de uma dimensão paralela onde toda a vida é considerada crime uma vez que só os vivos cometem crimes.

A estética das aventuras de Judge Dredd é claramente Punk, a começar pelos próprios heróis, cuja indumentária incorpora elementos como as correntes e o cabedal.

Halo Jones passado num futuro distante, é um dos primeiros trabalhos de Alan Moore (argumentista celebre por obras como Watchmen e V for Vendetta). O projecto inicial bastante ambicioso, compreendia a publicação de nove “livros” que retratavam a vida de Halo Jones, sendo cada livro composto por vários fascículos da 2000 AD. Na realidade apenas três foram completados, começando com Halo Jones aos 17 anos e percorrendo cerca dez anos da sua vida. O primeiro arco, relata-nos a vida Halo Jones numa sociedade de tal forma em declínio, que uma simples ida ao centro comercial com os amigos implica levar um lança granadas. O segundo arco  explora as aventuras de Halo Jones como hospedeira de um longo voo espacial  . O terceiro e ultimo arco, decorre dez anos  após o anterior , estando desta vez a nossa heroína envolvida como soldado numa guerrilha intergaláctica  inexplicável.
Esta obra mais do que as aventuras sci-fi, celebra o rito de passagem á idade adulta numa sociedade hostil.

Outro personagem de relevo na 2000 AD, Nemesis the Warlock , é um herói alienígena da resistência  que luta contra a policia religiosa  dos humanos , Tube Police ,  uma espécie de inquisição liderada por Thomas De Torquemada  dedicada ao extermínio de tudo o que é ET.

Esta série teve inicio em 1980 no auge do governo de Thatcher, sendo o seu autor (Pat Mills) altamente contestatário deste regime.  Mills  canalizou  toda a sua revolta para as páginas de Nemesis, introduzindo o típico anti-heroi que podia reagir de forma violenta contra um governo autoritário e intolerante.

Apesar de ser a publicação mais emblemática desta corrente, a 2000 AD não foi obviamente a única, sendo de destacar a publicação rival Warrior pela qual também passou Alan Moore ,nomeadamente com os primeiros capítulos  da revolucionária  mini-série  V for Vendetta a serem publicados nas suas páginas para serem retomados  anos mais tarde na editora Vertigo ( pertencente à DC Comics).

A principal herança deste boom criativo materializa-se na nova vaga de escritores e desenhadores britânicos que invadiram as editoras Marvel e DC durante a segunda metade dos 80s, oriunda de publicações como a 2000 AD onde estrearam e consolidaram o seu talento. A reformulação do comic americano deve-se em grande parte a autores como Alan Moore , Neil Gaiman (autor de Sandman) , não esquecendo é claro artistas como , Dave Gibons (Watchmen), Brian Bolland (talvez o artista  definitivo de Judge Dredd) ou  Alan Davis , entre muitos outros.

As editoras americanas (Marvel e DC)  mantiveram na década que agora terminou a prática de caça de talentos britânicos, iniciada  em meados dos 80s. Exemplos como o do argumentista Grant Morrison  cuja a consagração foi alcançada nesta década na industria americana dos comics, ou  a nível artistico  Frank Quitely , permitem ilustrar as raízes profundas da 2000 AD no universo mainstream do comic americano actual.



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