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2010

Contra os canhões, marchar!

A minha intervenção inaugural do novo ano vai ser um género de tiragem de leitura astrológica sobre o que podemos esperar da “prata da casa” no ano de 2010. Para começar, falarei de um dia chuvoso de inverno, não me lembro da data precisa, mas imagino que fosse no fim de 1998, ou 1999. Nesse dia chuvoso acontecia um encontro de mentes numa sala de conferências no Saldanha.

Os mestres Pedro Tenreiro e Rui Miguel Abreu, convidaram um painel de ilustres a comentar sobre a evolução e o futuro da música urbana/electrónica em Portugal… entre eles Vítor Belanciano, Rui Vargas, António “Vibe” Pereira – que me lembre. Era eu, portanto, um adolescente fascinado e, como me é típico, não parava de fazer perguntas a alguma das pessoas que tanto admirava que viviam aquilo que eu achava ser o “sonho”.

O contexto deste acontecimento era animador, havia algumas editoras portuguesas a furar relativamente o mercado vinílico – na altura em alta. Eram elas (por ordem cronológica): Kaos, Question of Time, Warning Inc. (na vertente mais clubby) e, por outro lado, a Kami Khazz, a Lupeca, e a Nylon, participantes mais recentes do movimento no lado mais musical do espectro (entre o hiphop, o jazz e o house de raízes mais ancestrais). Este era o tempo em que a Cool Train Crew enchia o Captain Kirk e o Ciclone, o tempo em que o Rui Vargas, a Yen Sung, o Zé Moura, e outros, animavam um Frágil cheio de força e a discoteca mais underground ficava no Cais do Sodré, chamava-se Kalifornia e um imberbe Mr. Cheeks, DJ residente, animava as hostes com muita da mais excitante música britânica da altura. Faço desde já a salvaguarda, de que imagino que a minha memória esteja a omitir outros importantes emblemas culturais do momento em análise em Lisboa e a eles me desculpo imediatamente.

A conclusão desta conferência resumia-se a algum receio sobre a capacidade de Portugal ser capaz de, como país, cimentar-se de forma a ser uma referência credível do tipo “país gerador de música alternativa” junto da massa crítica internacional, a par do Reino Unido, da Alemanha, dos países nórdicos, etc. A razão deste receio, desta hesitação, era a falta de precedentes que o facilitassem, nomeadamente no mainstream… nunca havíamos produzido música que fosse realmente trans-cultural e visível mundo afora, que estabelecesse o tal precedente necessário a que a percepção internacional da “nossa” música fosse respeitosa e não olhasse de lado ao que íamos lançando.

Este momento, sobre o qual terão volvido dez anos cheios de desenvolvimentos (que na sua maioria eram desencorajadores, parecendo confirmar essa tal dificuldade em estabelecer-mo-nos), merece agora uma humilde revisão da minha parte.

Sempre tive um apurado sentido de pertença cultural e orgulho no melhor que os meus pares artísticos conseguiram conquistar e por isso penso que chegou o momento de rever alguns desses pontos já que, no entretanto, muito talento acabou por emergir das nossas fileiras, capaz de competir ao melhor nível. Entre o mais visível (X Wife, Vicious Five, Wraygunn/Legendary Tiger Man…), estabeleceu-se esse precedente sólido de que daqui podiam surgir coisas capazes de fazer a diferença. E depois, claro, o João Barbosa começou a mostrar-me uns beats de kuduro quando púnhamos música no Mercado (das Taipas) e uns meses depois, nada seria o mesmo. Os Buraka Som Sistema irromperam pelo mundo como hienas furiosas, contagiando esse ritmo africano, apropriado pela nossa cultura, em corpos de milhares de clubbers e festivaleiros… era um produto pop, forte, extremamente eficaz e assim se selou o destino: gerámos a nossa banda-sensação.

Estou, é claro, a reportar-me a um nível absolutamente “overground” e os talentos emergentes de que quero ainda falar, não apresentam música capaz de, para já, criar um semelhante tipo de furor… e nem sequer acredito que isso seja um objectivo necessário para qualquer um deles. Mas o facto destes fenómenos maiores, supramencionados, terem tido lugar, cria um espaço crítico favorável a que a música de outros seus patrícios possa agora ser apreciada com outra atenção e respeito.

Começando, então: o grande Tiago Miranda. Muitos, entre eles eu, consideram esta como uma cabecinha que poderia muito bem estar a desenhar naves espaciais e a conceber eco-sistemas fechados que resolvessem os nossos problemas mundiais. Mas o Tiago está a fazer música, e nesta área, não lhe falta nada… tem o cinturão preto em todas as artes marciais: começou como DJ na Cool Train Crew, passou ao 2-Step, virou pró hiphop/funk, depois pegou no pop, membro dos Pop Dell’Arte, vocalista dos Loosers e junto com o Nuno Rosa (Pinkboy) criou o maior fenómeno de DJing português dos últimos anos – osDezperados. E  agora, Tiago?

Em 2009 lançou discos e licenciou temas para a Tu Rong, Skylax, Eskimo, Clairmont 56, Italians Do It Better e Disco Devil… para não falar de 2008 e 2007, onde deixou mais umas pérolas pelo caminho. A convite de várias famílias, fez mais do que uma tour por esse mundo a mostrar o seu estilo inconfundível de DJ psicadélico que usa o processador de efeitos como uma arma de arremesso super-sónica, aliada a um sentido de ritmo e sincronismo invulgaríssimos. Sobre este artista – que a juntar a tudo isto, é das almas mais humildes que já conheci – eu tenho só a recomendar uma coisa: atenção, estamos na presença de um exército de um só homem. Eu estou mesmo curioso para saber o que vai acontecer em 2010, já que o Tiago tem um disco preparado para a Groovement e para a Hands of Time, duas editoras portuguesas.

De seguida, mais a Norte, no canto esquerdo, com um peso médio de sessenta-e-picos quilos, de calções dourados, o campeão de pesos pluma: Humberto Matias, também conhecido, e sobejamente, por Social Disco Club. O Humberto conhece as manhas do DJing há muitos anos, e dizem os mais velhos, que chegou a ser residente de uma das maiores discotecas a norte. Um dia,  há coisa de dois anos, imagino eu, decidiu-se a investir no que mais gostava – os grandes clássicos. E começou a cortá-los, a colá-los, a reorganizá-los, e rápidamente se tornou um dos mais conhecidos nomes no “editing”. Este ano transacto de 2009, meteu-se de pés e cabeça na produção própriamente dita, com resultados muito satisfatórios, furando nitidamente a cena europeia com edições diversas (e nas celebrérrimas Bear Funk – com Rui Maia, dos X-Wife, que conquistou um lugar nos 50 discos imperdíveis de 2009 segundo a djhistory.com; Ze Recordings / Strut, Eskimo – também, Tirk). De tal forma, que uma feliz ocasião quis que um tal de James Murphy – LCD Soundsystem – sugerisse ao nosso Humberto, a fundação de uma editora própria, capaz de se impor e vigorar. Logo a seguir foi Eric Duncan (afamado pelo seu trabalho como Rub N’ Tug) a pretender remisturar o tema “I’m good for you”, da autoria de Humberto, que até teve direito ao baixo tocado por Justin Vandervolgen dos TchkTchkTchk… e assim se concretizou um dos seus sonhos pessoais : a criação de um selo próprio, a já referida Hands of Time, que nos meses finais do ano passado nos prendou com dois discos que venderam que nem ginjas, nas mais conceituadas lojas. O tempo urge, e o espaço também, portanto, e apesar de merecer maior análise, este campeão das bolas de espelho terá de esperar um artigo dedicado, dada a extensão da sua obra e a sua produtividade imparável.

Ainda a norte, uma editora que conta já com 8 anos, que passou por muitos altos e baixos, mas que ainda se mantém activa e convicta, a minha casa, a Groovement. Este projecto conta já com nove maxis em vinil, entre artistas estrangeiros e nacionais, e foi alvo do interesse de algumas pessoas sonantes, como foi o caso de Damon Albarn, famoso vocalista dos Blur, que entre 2007 e 2008, pretendeu a sua distribuição, através da Honest Jon’s (afamada loja de discos, editora de música e distribuidora de catálogos com espírito semelhante). Para este ano recém-iniciado, os planos são claros: portugueses, primeiro! O selo conta já com um catálogo pronto a editar que inclui trabalhos de Tiago Miranda e de Humberto Matias, mas também dos Photonz, dos Johnwaynes, de DJ Ride (já lá chegaremos) e, claro, de mim próprio. A aventura começa já para a semana, com o primeiro maxi de material extraído do (…meu) álbum a sair, finalmente, em vinil, com uma gloriosa e desafiante remistura de Photonz; prossegue depois com um single de Johnwaynes com Social Disco remix, um disco de electrónica do Tiago, e o segundo maxi do tal álbum, que para já conta com o impressionante contributo de Ride. Será, como até agora, um selo pluralista e com um catálogo ecléctico e variado, com o objectivo de singrar a longo prazo pelo valor da música que edita. E pronto, sobre isto, não devo dizer mais, correndo o risco de me acusarem de enviesamento jornalístico.

Agora, o nosso menino prodígio, o grande DJ Ride… campeão de tudo o que envolve os sagrados Technics 1200, e produtor exímio. Um chavalito para muitos (23… 24?), mas para outros, um sério pretendente à nossa coroa. Já com novo álbum nas lojas , o jovem Oliveiros ambiciona já a exposição internacional que um artista do seu calibre, inevitávelmente, adquire… coisa que irá depender, sobretudo, da exposição que o seu material terá junto de quem o poderá elevar. Pela minha parte, como disse, iremos prensar o primeiro disco de vinilo a incluír uma obra sua, à venda em lojas – não contando com a “Scratch Tool” que compôs, com o apoio da Red Bull Music Academy Portugal, em 2009, de edição limitada, oferecido a quem o tocasse. Entre remixes para Micro Audio Waves e Kika Santos, Ride está a solidificar dentro das nossas fronteiras, o espaço que lhe está destinado, e fá-lo-á, caso continue de forma coerente e inequívoca em busca do sonho que tenta há anos concretizar. Esperemos que 2010 lhe traga a visibilidade merecida.

Mais a sul, Marco e Miguel, de quem já falei antes, Photonz. Ora, currículo extenso e valioso, apoiado por muitos e bons, a levarem o nosso bom nome às cabines dos clubes mais interessantes da Europa e arredores, com o apoio de senhores como DJ Hell, Ivan Smagghe, Erol Alkan ou Ewan Pearson. Conhecedores de toda a música que envolve a circulação de electrões em circuitos, e dj’s de alguma experiência, os jovens almadenses estão neste momento a trabalhar para os mais diversos projectos, incluindo produção para mais um duo de hip hop, ainda relativamente desconhecido, de duas duas belas moças da capital, chamado A.M.O.R… além de um 12” para a Groovement, também.

O espaço está a encurtar-se… resta-me uma referência de imperdoável esquecimento. Os dois irmãos, bad boys dos 70 hertz para baixo: Octa Push, Dizzycutter e Mushug. Por alto, em 2009 actuaram no célebre clube londrino, Fabric, e no Sonár de Barcelona. A música que fazem tem uma dinâmica inegável, e a abordagem que fazem ao “garage” mais obscuro (chegando frequentemente a serem catalogados como artistas de dubstep – não sei se concordo totalmente, porque me parece um pouco diminuidor) está ao nível de muitos outros, oriundos de Londres. Entre a Iberian records – que pelo que percebi tem o apoio de uma dupla de dj’s que praticamente inauguraram este universo musical no nosso país, os Conspira – e a Steak House (onde lançaram um 12” com um tema de um quase homónimo meu, Gasparov), a Soul Jazz records já deu por eles, e figuram na excelente compilação Steppas’ Delight 2 – tal como o talentoso Gasparov, cujo tema “1975” voltou a colocar muitas questões em cima da mesa, sobre como estas novas estéticas se podem agora cruzar numa pista de dança, com os mais clássicos house e techno. Ao lado de Untold, Bok Bok, 2562 e tantos outros de relevo, estão alguns portugueses a fazer dano. Em nota curiosa, o 12” da Steak House acabou por ser referido na Wire por quem-mais-senão … Thom Yorke, vocalista dos Radiohead, como um dos discos que tinha estado a ouvir. Impressionante!

Finalmente, um espaço dedicado ao house nacional… e aqui não pode faltar a referência inolvidável ao trabalho da Bloop, que apesar de ter editado discos de artistas internacionais, afirmou-se de forma incontornável como um dos mais evidentes selos de música de pista a nível mundial, no ano passado. A par de um catálogo que conta com artistas como Anonym ou o (ESPANHOL) Kasper – que tantas dores de cabeça me deu, pela semelhante nomenclatura – a Bloop tem sido presença regular em espaços de culto como o Lux, ou o Gare, no Porto, e José Belo, Luís “Magazino” Costa, e João Maria podem-se orgulhar de terem erguido, das cinzas da – infelizmente extinta – Loop, uma editora completamente distinta e cheia de força. Correm boatos que, para eles, 2010 será um ano de maior investimento em artistas nacionais, esperemos que sim.

Também para 2010, a editora Tróia, digital até agora, de Pedro Goya – outro menino prodígio de há muitos anos (embora conte com a tenra idade de 25), verá alguma da sua música sair em formato físico, finalmente. Goya lançou recentemente o seu primeiro álbum de originais, digitalmente, pelo dito selo, chamado Made To Measure… e os contributos para a Troia virão de alguns artistas nossos já conhecidos, Manuel Calapez, uma referência europeia dentro do techno, e Alkalino, Lino Rodrigues, que para muitos não requer apresentação…e de mim próprio.

Em género de fecho de emissão, devo dar algumas sugestões sobre outros talentos, merecedores de relevo, o jovem Jorge Caiado, da Póvoa do Varzim, que assinou agora um disco pela editora Composite, um projecto inaugurado pelo reconhecido DJ Yellow, e os portugueses High Tech2 (que também contam sob o cinto, com música pela Free Range de Jimpster, por exemplo). Noutra nota, um grande amigo, Helder “Deddy” White, prensou o 7 polegadas mais vendido no seu mês de lançamento, e já tem pronto outro disco para a Whack, label de mashups londrina, sobejamente conhecida dos DJs mais festivos no universo dos breaks. Ainda, o jovem alentejano Edgar Matos, com a sua editora – para já digital – Phonotactics, que oferece colecções de música gratuitamente a quem visitar o site, o meu conterrâneo Vítor Silveira, que ouvi dizer que irá lançar alguns dos seus famosos edits sob o alter-ego “Ramboiage” em vinil, por uma editora alemã, Rimini Edits. Não me posso esquecer de Moullinex, que ainda agora assinou mais uma remistura, desta vez pela editora do momento Kitsuné, e continua no mais alto perfil. Estou, também curioso para saber o que o jovem Luís “Infestus” Pinto irá concretizar este ano, e com muita pena minha… terei de terminar por aqui, com um último pensamento, esta minha coluna, mais extensa que nunca.

Com tantas coisas a acontecer (e sabendo eu, que estou apenas a falar da ponta do icebergue), é difícil não imaginar que em breve, o nosso país será o centro de muitas atenções, porque, para já não consigo ver outro que esteja a oferecer tanta novidade a par de qualidade. Esperemos, então, que 2010 seja um ano de afirmação e que nos caiba um pouco do destaque necessário a que nos implementemos, como um conjunto de criativos oriundo de um pequeno país, onde muitos se queixam que nada acontece. Mas esperemos, sobretudo, que nós mesmos, e o público que pode apoiar estes artistas internamente, não percamos de vista o que esta gente tão especial pode fazer… será esta a minha Selecção Nacional, e nela não é necessária música estrangeira para se fazer vingar.

Peço perdão a quem se sentir posto de parte, fiz o meu melhor para tentar apresentar um quadro geral, e, sendo apenas humano, estou certo que terei tempo, no futuro, de aprofundar o trabalho de todos os nossos dignos artistas e criadores de música urbana e electrónica.



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