Fantasporto 2014 – Reportagem

Fantasporto 2014 – Reportagem

Muito mais do que um festival de cinema

O Fantasporto é um festival único. Não só por se dedicar a um conteúdo por vezes esquecido nos media que se dedicam apenas aos sucessos de Hollywood, mas também porque é um festival privado. Por essa razão, uma parte da sua existência depende da bilheteira o que o valoriza, mas dificulta a sua execução.

Apesar da conotação política conhecida de alguns dos membros da organização, isso é algo que fica fora do Fantas e que não transparece naquilo que interessa aos espectadores: o cinema, o fantástico e o ambiente que lá se vive.

Por falar em ambiente, o Fantasporto é uma amálgama de pessoas de todos os estilos e estratos sociais o que o transforma numa mostra também social e de união do público do Norte de Portugal e de todo o Mundo. É como se a natureza hospitaleira da cidade do Porto estivesse aqui representada e até quando não se assiste a qualquer filme nos sentimos bem.

As escolhas cinematográficas e todas as actividades culturais que as rodeiam fazem do Fantasporto um dos vinte e cinco “leading festivals of the world”.

Além das secções já citadas no texto de antevisão da RDB, os visitantes podem apreciar ainda as exposições de artes plásticas de Helena Leão e Antónia Gomes e a fotografia de Rui Videira sob o tema “O Porto da paixão”.

Um Festival é, contudo, feito também de prémios. Por isso, apresentamos aqui os premiados e outros destaques que mereceram a nossa atenção.

Na secção principal de Cinema Fantástico, o Prémio de Melhores Efeitos Especiais foi para “Witching and Bitching” de Alex de La Iglésia, que nos conta a história de três criminosos que se refugiam, por engano, num esconderijo de bruxas canibais em Zugarramurdi, terra que empresta o nome ao título original do filme (Las Brujas de Zugarramurdi). Este filme venceu ainda o não oficial Prémio do Público.

“Rabbitland”, de Ana Nedeljkovic e Nichola Majdak, que arrecadou o prémio de Melhor Curta -Metragem é uma alegoria bem representativa dos riscos que incorremos em tornarmo-nos autómatos na sociedade, como acontece com os coelhos cor-de-rosa que se regem pela vontade de três bruxas em quem votam, obrigatoriamente, nas eleições.

Dois prémios foram atribuídos ao filme “Big Bad Wolves”. O de Melhor Realização para Aharon Keshales e Navot Papushado, dupla que tem já uma carreira comum reconhecida, e o de Melhor Actor para Duval’e Glickman. O filme conta a história de um serial killer, violador e pedófilo que foge à justiça. Desconfiando de um professor pacífico da vila, um detective, o pai de uma das crianças e o avô (representado por Glickman) torturam-no tentando que ele confesse um crime que nega ser seu. Destaque para a sequência de cenas de tortura que trazem até nós uma mescla fantástica de dor, terror e humor, onde Guy Adler, como professor suspeito e torturado, nos remete sempre para a dúvida quanto à legitimidade da justiça por mãos próprias.

Olivier Beguin, com um palmarés de cinco prémios e sete nomeações pelas suas sete curtas-metragens, viu o Prémio Especial do Júri ser entregue à sua primeira longa-metragem “Chimères”. Um homem trasnforma-se em vampiro correndo o risco de perder não só a vida que imaginava como a sua relação amorosa; eis a história já seleccionada para os festivais de Neuchatel e Londres (Screamfest) em 2013, onde também arrecadou prémios.

O Prémio de Melhor Actriz ficou nas mãos de Ann Walton no papel de viúva suicida que se reencontra após tomar conhecimento de uma presença paranormal na casa para onde se muda após a morte do marido. “Soulmate” é a primeira longa-metragem de Axelle Carolyn, também ela actriz com participação em treze filmes.

Os dois prémios que reservamos para o fim da resenha desta secção contêm particularidades.

Ambos são orientais e fizeram sucesso além da secção reservada para os filmes oriundos dessa geografia.

“The Fake”, vencedor do Prémio de Melhor Argumento, é, curiosamente, um filme de animação. A mensagem que transmite, contudo, é forte, ilustrando até onde pode ser nefasta a religião organizada. O sacerdote manipulador criado por Sang-Ho Yeon seria, portanto, um bom alter-ego para alguns dos clérigos que têm preenchido manchetes.

O grande vencedor do Prémio Melhor Filme Fantasporto 2014, “Miss Zombie” de Hiroyuki Tanaka, que também arrecadou o Prémio Especial da secção Orient Express, é uma produção japonesa a preto e branco, com uns escassos minutos onde a cor é introduzida para ressalvar pormenores de profundidade da história. Tanaka exibe-nos neste filme a depravação da humanidade desde a transformação dos zombies em animais de estimação até á consumação do acto sexual com eles. O esquecimento de que já foram humanos leva ao engano que no fim nos faz confundir quem afinal tem mais coração.

A Semana dos Realizadores Manoel de Oliveira, na sua 24ª Edição, teve dois grandes premiados. O grande vencedor, com o Prémio de Melhor Filme, foi “Heavenly Shift” de Márk Bodzsár, um estreante no que toca a longas-metragens. Milan é um refugiado da ex-Jugoslávia que, para salvar a namorada, acaba por aproveitar a oportunidade de pertencer a uma equipa de ambulância para se dedicar ao negócio dos funerais. Um filme negro recheado de momentos de humor.

O outro vencedor foi “Love Me” de Maryna Gorbach e Mehmet Bahadir Er, que venceu o Prémio Especial do Júri, o Prémio de Melhor Argumento e ainda o não oficial Prémio da Crítica. Este filme envolve-nos na dicotomia cultural e sentimental que vivem dois jovens que decidem passar a noite juntos após se conhecerem numa discoteca. Porém, as suas proveniências e os seus relacionamentos já assumidos dificultam a sua recente paixão.

O Prémio de Melhor Realizador foi para Carlos Cuarón com “Sugar Kisses“. Já conhecido por filmes como “E tu mamá también”, Cuarón conta-nos a história de um amor de dois jovens por entre as atrocidades que se vivem no México, com crime, abusos sexuais, religiosidade extrema e violência gratuita.

“What Maisie Knew” é um filme que conta com a presença de Julianne Moore, Steve Coogan e Alexander Skarsgard, mas o Prémio de Melhor Actriz foi para Onata Aprile, a criança que representa Maisie neste drama sobre o divórcio. Aclamada pela crítica como tendo ofuscado os adultos, Onata tinha apenas seis anos quando começou a rodagem do filme de Scott McGehee e David Siegel.

Por seu lado, Garret Dillahunt foi considerado o Melhor Actor pelo seu desempenho em “Houston” onde também se destaca Ulrich Tukur, representações que dão relevo à mudança de vidas que se modificam subitamente, mesmo que tudo pareça estável.

Apesar de não ter sido premiado, ressalvamos a presença de Kim Ki-Duk, vencedor da edição anterior com “Pietá”, como argumentista e produtor de “Rough Play” onde a fama afectqa uma jovem promessa do cinema que faz tudo para alcançar a ribalta.

Na secção Orient Express, resta-nos falar do Prémio Melhor Filme atribuído a “Why Don’t You Play in Hell”. Este filme de que falamos também no preview, mostra-nos a caminhada para o sonho de uma equipa de realização que acaba por se ver no meio de uma guerra dos Yakuza. Com pormenores sangrentos, profundos, mas também momentos de levar o público à gargalhada, este filme tem uma mensagem forte transmitida de uma forma aparentemente leve, sempre com muito sangue à mistura.

Finalizando esta longa galeria de premiados temos o Prémio Carreira para o produtor Henrique Espírito Santo, que Beatriz Pacheco Pereira caracteriza como sendo um alegre e sorridente incontornável do cinema português, o Prémio de Melhor Filme Português para José Magro e o seu “José Combustão dos Porcos” que nos faz navegar por um Portugal profundo e um tempo em que acreditar no incerto era o melhor, dada a falta de “certezas objectivas” e o Prémio Melhor Escola de Cinema Portuguesa para a Universidade Católica do Porto.

Ficam assim feitas as referências aos premiados e aos merecedores de destaque desta edição do Fantasporto. A próxima edição fica já marcada para dia 27 de Fevereiro de 2015, onde esperamos encontrar-te e onde podes estar certo de encontrar a RDB.

 

Fotografia de Andreia Filipa Cardoso



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