26ª ModaLisboa

A "Black edition" da MLx revista pela RDB.

A semana de moda da capital portuguesa “nasceu” em 1991, a partir de um convite da Câmara Municipal de Lisboa a Eduarda Abbondanza e Mário Matos Ribeiro, que nesse ano desenharam e produziram a 1ªedição, e, desde então, são os principais responsáveis pelo evento.

A maior parte dos acontecimentos da semana de moda lisboeta desenrolaram-se no armazém 23 do cais da Matinha, em Lisboa. Por lá foram apresentadas as colecções de 19 criadores e 3 marcas portuguesas e foi lançada  uma campanha de luta contra o cancro – “O cancro da mama no alvo da moda”. Fora do armazém houve uma conferência de marketing e moda (dia 9 na Faculdade de Arquitectura de Lisboa), esteve patente a exposição “E-motion” (na Galeria Álvaro Roquette), desfilaram as propostas da dupla Alves/Gonçalves (dia 10 no palácio de Santa Catarina), e houve várias festas.

A ruadebaixo esteve em todos os desfiles e dá a conhecer as tendências para o Outono/Inverno de 2006/2007.

Dia 1

Num ano em que a ModaLisboa celebra as quinze primaveras, ninguém melhor para inaugurar o evento do que Miguel Vieira, o criador que celebra em 2006 vinte anos de carreira.

Foi aliás este o tema da colecção de Miguel Vieira para o próximo Outono/Inverno: “É assim há 20 anos…”. E, como nas duas últimas décadas, o preto dominou a passerelle, onde desfilaram também o azul púrpura e algum dourado. A “cor de marca” de Miguel Vieira esteve, para elas, em saias, vestidos e calções, todos ligeiramente acima dos joelhos, combinados com botas altas e jaquetas de pêlo. Para eles o preto foi também a cor escolhida, e as saias abaixo do joelho a surpresa da colecção.

Depois do estilo clássico de Miguel Vieira, desfilou a irreverência e inovação de Osvaldo Martins. Fora da sala principal, no espaço LAB (uma espécie de laboratório para novos criadores) estavam cinco telas. À medida que iam chegando os modelos, os quadros ganhavam vida. Em frente a cada tela posava o/a manequim nela retratado/a. Cada um deles trazia vestida uma única peça que pode ser usada de várias maneiras diferentes, como o foram demonstrando ao longo do “desfile”.

De volta à sala principal para o desfile dos StoryTailors, a dupla João Branco/Luís Sanchez.

Para o próximo Outono/Inverno, a dupla criou uma colecção extremamente feminina em que dominaram os tons de areia com apontamentos de cores fortes, como o azul, bordeaux ou rosa. Anéis e relógios “flor”, ou collants calçados por fora dos sapatos são pequenos detalhes que fazem deste um dos mais promissores projectos da moda portuguesa. Para esta colecção os StoryTailors foram buscar inspiração à história de “Ephyra – a medusa que queria voar”.

Também extremamente feminina foi a colecção apresentada por Anabela Baldaque, embora com roupa bastante mais “usável” no dia-a-dia. Nos tons dominaram os castanhos, beges, e dourado, com alguns apontamentos em rosa velho e bordeaux. Claro que não faltou o preto, com brilhos, na parte mais “nocturna” da colecção.

Modelos vestidas com calções, saias, corsários, vestidos e camisas, de longos cabelos lisos enfeitados com bandolettes desfilaram uma colecção em que se deve dar atenção aos detalhes: folhos, pregas, transparências, laços e mangas a 3/4.

E a fechar o primeiro dia (uma hora e meia depois do previsto) esteve Alexandra Moura.

Os modelos vinham aos pares, um com o corpo e cabelo pintados de preto, o outro não. Vestiam peças iguais, mas de cores, cortes, materiais, e, por vezes, modelos diferentes.

Um Outono/Inverno em tons básicos: preto, cinzento, cinza, azul e areia. Roupas num estilo bastante conceptual, como Alexandra Moura já nos tem vindo a habituar.

Dia 2

O segundo dia começou no espaço LAB, com a apresentação das criações de Lara Torres.

Uma colecção que variou entre dois tons básicos: o preto e o cinzento, mas cheia de detalhes (recortes, bordados, assimetrias, bolsos, botões, etc.). “Implosão” foi o tema escolhido pela criadora para uma colecção dominada pelas fazendas. Da escuridão do LAB para a claridade da sala 1.

Na colecção apresentada por Ricardo Dourado dominaram diversos tons do bege ao castanho, passando também pelo azul muito escuro com apontamentos de dourado.

Uma colecção desenvolvida sobre duas bases assumidamente retro: para um look mais doce, o trapézio, e a conferir alguma austeridade ao resultado final, as formas rectangulares.

Na noite de sexta-feira seguiram-se as apresentações de duas marcas nacionais: Lanidor e Lion of Porches.

A primeira dividiu a colecção em quatro linhas: Dusty Flowers – inspirada nos anos 40 do pós-guerra; Vertigo – com referência ao cinema de época, as estrelas dos anos 50, como Kim Novak e Marlene Dietrich; Black is Chic – uma linha sensual em que o preto é rei; VIP Black is a Star – que foi buscar inspiração aos ícones do rock dos finais dos anos 60.

A terminar o desfile, todas as modelos pisaram a passerelle com a t-shirt “Cancro da Mama no Alvo da Moda” vestida.

Num estilo mais desportivo, mas também elegante, seguiu-se o desfile da Lion of Porches. Um desfile dominado por um estilo urbano, em que o xadrez e o tweed combinam com o denim. As cores escolhidas vão do vermelho ao cru, do azul escuro ao amarelo, passando pelo verde-floresta.

Fora do armazém 23, à semelhança do que aconteceu na última edição, decorreu o desfile dos Manéis. A dupla Alves/Gonçalves escolheu o Palácio de Santa Catarina para apresentar uma colecção dominada por vestidos de tecidos luxuosos, em que o branco, o dourado e o preto foram as cores de eleitas.

Dia 3

De volta ao armazém 23, o terceiro dia abriu com o desfile do sérvio a viver em Lisboa desde 1999, Aleksandar Protich.

Para colorir silhuetas bem marcadas e estruturas disformes: estruturado vs leve e largo vs justo, Aleksandar escolheu o preto, o rosa, o vermelho e o cinza.

Na sala 2, o LAB, foram apresentadas as propostas de “a-forest design” by Sara Lamúrias, peças ornamentadas com bordados e estampados, criados por Sara a partir de ilustrações de Sílvia Vieira, artista convidada a colaborar nesta colecção unisexo.

De regresso à sala 1 para conhecer a colecção da última marca presente nesta edição da ModaLisboa. A North East Polar, coordenada por Victor Rêgo, aposta para a próxima estação em três linhas distintas: Pólo Player Gear, numa vertente mais sportswear; Prix, para um vestuário mais chic; Hood, numa abordagem mais romântica. Os materiais utilizados vão das lãs, peles e veludos, às gangas e algodões, em cores que variam entre uma paleta de cores vivas e outra de cores nocturnas.

A meio do terceiro dia chegou a bossanova de Maria Gambina. Uma colecção inspirada no estilo de música brasileira que trouxe à passerelle da sala 1 muitos folhos, cores vivas, estampados de frutos e pássaros exóticos. Mas também, a contrastar com o estilo Rio de Janeiro, alguns coordenados “mais São Paulo”, num estilo mais sóbrio e urbano, com a ganga e o preto a dominar.

Depois da BossaNova de Gambina, os aplausos de Buchinho.

A colecção que Luís Buchinho já tinha apresentado em Paris, a convite do Portugal Fashion, foi a mais aplaudida do terceiro dia. Uma colecção plena de jogos de contrastes, dividida em dois grandes grupos, e inspirada no mundo animal. Um grupo de formas austeras (inspirado nos grandes perdadores), em que foram utilizados feltros de lã, cabedal e pêlos naturais numa paleta de tons escuros. E o outro (inspirado no mundo dos insectos e répteis) em que a delicadeza das formas e dos detalhes é expressa de um modo mais romântico, através do recurso a rendas, popelines, e crepes plissados em tons neutro, quase transparentes.

Para encerrar o terceiro dia foram escolhidos dois criadores que estão na ModaLisboa desde a primeira edição: José António Tenente e Ana Salazar.

José António Tenente, inspirado em heróis, feitos e batalhas apresentou imagens, para homem e mulher, trabalhadas com detalhes históricos.

Materiais sofisticados e brilhantes, os brocados e motivos florais aplicados em cetins e tafetás são alguns dos elementos que reportam ao glamour, luxo e requinte a que Tenente já nos habituou. O preto dominou (mais uma vez nesta edição) a passerelle, em look total, ou em contraste com dourado e branco.

E, a fechar a noite, mais uma vez ao lado da filha Rita, esteve Ana Salazar.
Uma colecção de “desmistificação de tradições”, em que dominaram as assimetrias e jogos de volume. Uma colecção sensual em que o preto dominou.

Dia 4

A abrir o último dia da 26 ªedição da ModaLisboa esteve Ricardo Preto, o único estreante  do evento, mas não um novato do mundo da moda. As criações de Ricardo Preto já desfilaram pelas passerelles das Manobras de Maio e do Portugal Fashion. “Urban Speaking” foi o tema escolhido para uma colecção muito original, em que as formas medieviais se misturam com estruturas modernistas. O preto foi, mais uma vez, a cor dominante, mas aqui misturado com laranjas e vermelhos-vivos.

Às propostas de Ricardo Preto seguiram-se as de Pedro Mourão, e o movimento punk dos anos 80 tomou conta da passerelle. Ao preto, em silhuetas estruturadas, foram aplicados estampados a prata.

Seguiu-se Katty Xiomara, que para o próximo Outono/Inverno foi buscar inspiração a formas campestres, eclesiásticas e pagãs, para criar uma colecção em que dominaram as cores quentes.

“Chocolate lime on time” foi a colecção apresentada pela bósnia, em Portugal desde 1990, Lidja Kolovrat. Roupa só para homens, em que o estilo gentleman se misturou com um lado mais feminino – uma das materializações deste conceito são os saltos altos aplicados em ténis. Silhuetas justas a marcar o corpo desfilaram com outras largas e confortáveis, em cores que vão do preto ao castanho, com recurso a padrões de tecelagem e estampagem com apontamentos de verde, rosa, ou azul.

Para o próximo Outono/Inverno Nuno Baltazar propõe “My Winter Garden”, uma colecção inspirada em jardins de inverno. Imagens intemporais, melancólicas e bastante femininas (como é hábito do estilista) desfilaram ao som de textos e poemas de Eungénio de Andrade e Florbela Espanca ditos pelo actor João Reis. Silhuetas longuilineas em tons frios e contidos (preto, azul noite e várias tonalidades de cinzento) reflectiram o carácter emocional da colecção.

A responsabilidade de encerrar o evento coube a Dino Alves, aquele a quem já chamaram o “enfant terrible” da moda portuguesa. Os desfiles de Dino Alves são sempre mais do isso, são verdadeiras “performances”. Desta vez o criador construiu uma onda negra para preencher a passerelle, de onde saiam várias cabeças indiferenciadas (umas tiravam fotografias, outras apontamentos e algumas limitavam-se a observar o público). À volta da “instalação” desfilaram homens de saias, calças, calções e até vestidos, tudo em tons básicos: preto, branco, creme, cinzas, com alguns apontamentos de roxo ou amarelo.

Um desfile com uma mensagem de intervenção: a mistura perfeita entre ricos e pobres.-“Numa comunhão de hábitos, vícios, gostos, desejos, crio uma classe social, talvez a minha classe social que por vezes parece um gang, outras vezes uma elite”. A colecção que recebeu mais aplausos nesta maratona de moda.



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