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4 Casas, 4 Olhares

Portugal na Mostra Internacional de Arquitectura da Bienal de Veneza.

“No place like – 4 houses, 4 filmes” é o nome do projecto criado por quatro arquitectos e quatro artistas plásticos, e que actualmente representa Portugal na Mostra Internacional de Arquitectura da Bienal de Veneza. A participação lusa nesta mostra colectiva, que atravessa várias gerações de arquitectos e artistas, foi organizada e produzida pela Direcção-Geral das Artes (DGArtes) do Ministério da Cultura com a colaboração da Trienal de Arquitectura de Lisboa, e é comissariada por Júlia Albani, José Mateus, Rita Palma e Delfim Sardo.

Colectiva e transgeracional

A dupla Manuel e Francisco Aires Mateus, Ricardo Bak Gordon, João Luís Carrilho da Graça e Álvaro Siza, são os arquitectos que participam neste projecto, a par dos artistas Filipa César, João Onofre, João Salaviza e Julião Sarmento. No colectivo português, enquanto os primeiros apresentam projectos de quatro habitações de sua autoria, aos segundos coube a tarefa de exibirem filmes ficcionais sobre a relação das casas com os contextos em que se inserem. Filipa César trabalhou o Bairro da Bouça, no Porto, de Siza Vieira; João Onofre, as Casas de Santa Isabel, um projecto de Bak Gordon em Campolide; a João Salaviza coube as Casas da Comporta da dupla Aires Mateus; e por último, Julião Sarmento levou a cabo o filme sobre a Casa Candeias, um projecto de Carrilho da Graça perto de Évora.

Habitar

“Quatro propostas construídas, quatro casas que representam quatro diferentes olhares e culturas arquitectónicas no horizonte de uma enorme vitalidade nos modos de pensar e fazer arquitectura”, é desta forma que Gabriela Canavilhas, ministra da Cultura, caracteriza as habitações escolhidas para figurar neste projecto. O assunto da exposição foca a forma como a casa é um momento redentor para a prática da arquitectura, uma vez que, na história da arquitectura do século XX, a casa enquanto habitação ou meio de habitar foi o motor fundamental do pensamento arquitectónico. “A partir deste pressuposto, e tomando a situação portuguesa como possível objecto de representação, a possibilidade de pensar diferentes instâncias de prática arquitectónica por arquitectos portugueses levou-nos em busca de situações que possuíssem três categorias de exemplaridade: em primeiro lugar, apresentar projectos que lidassem de formas determinadas com as questões da especificidade do lugar; em segundo lugar, encontrar projectos que são casos específicos no percurso dos seus autores e na maneira como estes lidam com as suas linhagens arquitectónicas, ou seja, com os seus eixos de referência – os quais não correspondem necessariamente a parentescos formais plasmados em isomorfias; e por último, mostrar projectos que se sedimentam numa ideia complexa de encontro entre colectivos, mas também históricos e culturais”, justificam os responsáveis pela representação Portuguesa na Bienal.

4 Casas

Uma casa fragmentada em quatro construções pousada sobre a areia da Comporta é o projecto assinado pela dupla Aires Mateus. A habitação nasceu de duas construções precárias de madeira e outras duas de alvenaria – quatro pequenas casas clandestinas. A dupla de arquitectos partiu da estrutura vernacular, e mantendo a sua presença na praia, dividiu as funções habitacionais pelos quatro volumes. Nesta casa-na-praia, a areia invade o chão que abriga a zona comum tornando presente a qualidade específica do lugar, residindo aqui uma das suas particularidades.

Foi para o interior do bairro de Campo de Ourique – um bairro habitacional de classe média com prédios dos anos quarenta e cinquenta do século passado que se articulam em quarteirões e deixam espaços vazios no seu interior, que Ricardo Bak Gordon projectou as Casas de Santa Isabel, um puzzle em betão que redefine o conceito de espaço urbano. Neste projecto, Bak Gordon trabalhou os vazios e criou um cenário nas traseiras de outro cenário, conduzindo o olhar sobre os pátios interiores, a piscina e o pequeno jardim.

Perto de Évora, Carrilho da Graça desenvolveu o tema do habitar a Sul. Localizada à saída de uma pequena povoação e vertida sobre a paisagem, a Casa Candeias desenha-se na horizontal alinhada com a paisagem, em torno de um pátio, para depois se abrir sobre o campo. No seu interior, a gestão da luminosidade e da circulação do ar que varre a casa são exemplo da construção tradicional do Sul do país. Com uma narratividade própria, esta é também ela uma casa com um carácter especial cénico.

O Bairro da Bouça, de Siza Vieira, é o quarto projecto que representa Portugal. Este conjunto de habitação económica foi executado em duas fases com três décadas de intervalo, o que levou a que acompanhasse as mudanças sócio-económicas e culturais de Portugal desde o período imediatamente anterior e posterior à Revolução de 1974, até à sua conclusão, em 2006. No calor da Revolução, Siza Vieira definiu uma tipologia de desenho para o Bairro da Bouça que, correspondendo às ambições da população-alvo, passava além deste desígnio no sentido da sua performatividade arquitectónica. O destino do projecto foi conturbado, e depois de concluída a primeira fase, o mesmo foi interrompido e só retomado trinta anos depois, um processo que correspondeu a um isolamento do Bairro no contexto da cidade, e igualmente a um processo duplo: por um lado foi-se degradando e por outro foi alvo de transformações por parte dos moradores à medida que os núcleos familiares mudavam. Como resultado, no desenho da segunda fase foram projectadas e incorporadas algumas das corruptelas infligidas ao projecto inicial. Os restantes três projectos são de habitações unifamiliares.

A exposição portuguesa realiza-se na Universidade Ca’ Foscari, localizada no Canal Grande, e está inserida na 12.ª Mostra Internacional de Arquitectura da Bienal de Veneza, que vai estar patente até 21 de Novembro de 2010.  O tema geral escolhido para o evento é “People meet in architecture” (“As pessoas encontram-se na Arquitectura”), e a comissária geral é a japonesa Kasuyo Sejima, cujo atelier, SANAA, conquistou este ano o Prémio Pritzker.



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