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“A arte de produzir efeito sem causa”

Primeiro livro do paulista Lourenço Mutarelli, editado em Portugal pela Quetzal.

Aos 43 anos Júnior é obrigado a voltar para a casa do pai depois de abandonar o emprego e o casamento. Ali vê-se arrastado por um vazio existencial que o leva a transitar entre a sanidade e a loucura. “A Arte de Produzir Efeito sem Causa”, o primeiro livro do brasileiro Lourenço Mutarelli editado em Portugal, é uma espiral de violência silenciosa à qual o leitor assiste impotente.

O mundo de Júnior desmoronou. Perdeu o emprego. Perdeu a mulher. Perdeu o melhor amigo. O filho de Júnior tem vergonha dele. Desamparado, Júnior é forçado a regressar a casa do pai. Instala-se timidamente no sofá malcheiroso ainda marcado pela presença da “vira lata Laika que morreu de cancro e deixou vestígios em forma de nódoas”.

Para confundir ainda mais esta personagem perdida, Bruna, a jovem inquilina do pai José, junta-se à história, despertando na mente instável de Júnior desejos impossíveis de concretizar.

O pai prepara-lhe a comida, o pai incentiva-o a procurar emprego, o pai fala com a vidente, o pai leva Júnior ao médico. Mas o prognóstico é reservado. Resta-lhe assistir impotente ao caminho trágico do seu filho mais velho.

Depois há as misteriosas encomendas anónimas endereçadas a Júnior. Caixas com enigmas, velas e fotografias rasgadas que remetem para William Burroughs e para a sua segunda mulher, morta acidentalmente com um tiro disparado pelo escritor em 1951.

As sinistras encomendas tornam-se a obsessão de Júnior. Tudo o resto resvala. Não precisa de um emprego, nem de encontrar um novo rumo de vida. Precisa apenas de decifrar aquelas mensagens. Escrevinha freneticamente: letras, códigos, diagramas. Cada vez mais cansado.

A loucura vai-se sentando calmamente na cabeça de Júnior, para quem o pai e Bruna já não são aqueles que eram: “Júnior abre os olhos e vê alguém que se tenta passar por seu pai […]. Júnior sabe que é melhor fazer o jogo”. Um dia, vasculhando as gavetas do pai, Júnior encontra a arma que procurava… e duas balas calibre 38.

Lourenço Muratelli divide-se entre a escrita e a Banda Desenhada. Algumas das suas obras, como o “Cheiro do Ralo”, foram adaptadas para cinema. Distinguido com o terceiro lugar do prémio Portugal Telecom de Literatura (2009), o romance “A arte de produzir Efeito sem Causa”, editado em Portugal pela Quetzal, transporta o suspense do cinema e o registo visual da Banda Desenhada.



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