Não Chove de Baixo para Cima

A arte pela vida | no Centro Cultural da Malaposta

"Decidi fazer sobre a violência doméstica, porque cresci no meio dela". Entrevista com Sandra José.

Nos próximos dias 6, 7 e 8 de Setembro o Centro Cultural Malaposta (CCM)  acolhe a peça Não chove de baixo para cima  de Sandra José, para além de um conjunto de actividades que visam a sensibilização para as questões da violência doméstica. A Rua de Baixo falou com Sandra José, para saber mais sobre a peça e o movimento “A arte pela vida”.

Como é que o trabalho “Não chove de baixo para cima” aconteceu na tua vida? O que te fez escrever sobre a violência doméstica?

O texto surgiu há uns 8 anos, como projecto final de uma formação técnica, em que o objectivo era a construção de uma personagem e respectivo texto. Escrevi o que viria a ser o “Não chove de baixo para cima” apenas  com 2 páginas e apresentei-o na aula. O professor conversou comigo, no final, e incentivou-me a continuá-lo.

Decidi fazer sobre a violência doméstica, porque cresci no meio dela. Por um lado assisti à violência de uma prima, a Sofia (personagem na qual me inspirei), e por outro porque a vivi na minha própria casa, não de uma forma tão violenta, mas não menos cruel. O meu pai era vítima de violência por parte da minha mãe e em nós, filhas, também caiam as cinzas do incêndio.

A peça já esteve em cena em vários teatros: São Luiz, Turim, Centro Cultural de Carnide, Amélia Rey Colaço. Como é que tem sido experienciar esta «intinerância»?

Normalmente quem me recebe nunca reage de uma forma calma e sossegada pelo facto de ter nas costas um grande anonimato. Desconfiam sempre da actriz que ninguém conhece da televisão, que resolve aparecer sozinha, que abre a mala do carro, carrega os adereços, monta o cenário, orienta as luzes e o som com os técnicos e depois ainda resolve estar 55 minutos em cima do palco a falar sobre coisas esquisitas. No fim do espectáculo as coisas acalmam e até me ajudam e conversam muito comigo. Já com os espectadores é diferente. É muito bom porque tenho feito algumas parcerias com grupos especializados e psicólogos e, além de uma actriz em cima do palco, vêm uma paciente ou um exemplar de estudo. Analisam ao pormenor o que digo e faço e colocam-me questões que até a mim me deixam a pensar sobre o que escrevi. O público em geral agradece, alguns deixam-me mensagens mais tarde, porque não conseguiram falar comigo, a desabafar e a reverem-se muito com o que viram. Razão pela qual ainda faço este espectáculo.

Como é que o público tem recebido este trabalho?

Depende dos públicos, como disse atrás, mas noto que existe uma maioria de espectadores que engole em seco e não se manifesta muito. Se saírem da sala a pensar um pouco no assunto já valeu a pena.

Para além da peça da Sandra José, que estará em cena nos dias 6, 7  e 8 de setembro, “A Arte pela Vida” proporciona, ainda, as seguintes actividades:

No dia  5,  o evento dá o seu primeiro passo, com uma actividade que vai ter início na sede da inicia na sede da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), por volta das 14h. Voluntários caracterizados como vítimas de violência doméstica irão deslocar-se da sede até ao metro de Lisboa, numa campanha de sensibilização.

No CCM, João Rafael Ferreira encontrar-se-á a pintar uma tela sob a temática da violência doméstica iniciando na sexta feira e terminando no domingo à tarde. O artista inicia sempre por volta das 21.15 (sexta e sábado) e pelas 16.00 na sessão de domingo.

No dia 6 de Setembro realizar-se-á uma conversa sobre o «Silêncio», a cargo da Oficina de Psicologia. No final do espetáculo de sábado a Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas (APCD) falará  em torno da “Fuga”.

No final do espetáculo de sábado a Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas (APCD) falará  em torno da “Fuga”, e conta com a presença do Dr. Paulo Costa do Hospital de Leiria, psicólogo clínico e doutorado em Psicologia . Haverá lugar, ainda, a um momento Musical com Nuno de Brito, interpretando um tema musicado por ele com letra de João Rafael Ferreira.

No domingo, 8 de Setembro, o Dr. Daniel Cotrim da APAV,  abordará o tema “A Vítima e a Violência”

 

Sandra José contou-nos que serão divulgados testemunhos reais serão divulgados no final de cada espetáculo, por voluntários que se disponibilizaram para o efeito. Não é a primeira vez que a actriz se mobiliza e mobiliza os outros em torno de causas  e teríamos todo o gosto em presenciar uma sala cheia, para reflectir, sentir e aplaudir um trabalho que, para além de despertar consciências, é um excelente momento de teatro.

 

Os bilhetes para a peça custam 7,50€ e podem ser adquiridos online.

 



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