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A BERLINALE DA RUA

Vista do Festival de Cinema de Berlim através do óculo berlinense. Uma análise a partir do interior da Berlinale, sem abordar os dourados temas gastos e o hype à volta dos vencedores que todos os outros websites e revistas já cobriram.

A edição número 60 do Festival Internacional de Cinema de Berlim, mais conhecido como Berlinale, trouxe à capital alemã o glamour cinematografico que só um festival de cinema consegue – tornou-se hábito, entre 11 e 21 de Fevereiro, ver os turistas de peito cheio, orgulhosos de fazer parte do evento, encandeados, como se estivessem numa passadeira vermelha de Hollywood. De facto, esta cidade, sempre tão alternativa e underground, sente a necessidade, como todos nós, de se sentir chic, como Los Angeles ou Cannes. Com todo o direito, já que Berlim está consagrada como um dos berços do cinema, ao qual está, a pouco e pouco, a voltar. Mas esse é outro tema, a cobrir noutro artigo para a RDB.

Posters de actores conhecidos de vários pontos do globo foram espalhados um pouco por toda a ruidosa Berlim: em qualquer visita ao café da esquina podíamos ser surpreendidos por um George Clooney ampliado ou por uma Penelope Cruz em tamanho XXL. Estas imagens só foram abafadas pela quantidade de ursos vermelhos, o logo do festival, que em spray vermelho, cobriram as paredes da cidade (já por si bastante personalizadas, acreditem).

Mas, apesar de estes dias terem animado ainda mais uma cidade que nunca pára, o Festival dividiu opiniões. Muitos foram os eventos que assinalaram o aniversário redondo da Berlinale, mas, mesmo assim, há quem afirme que ficou aquém do esperado.

Mas vamos aos pontos positivos. O mais importante nesta edição foi a vontade de a democratizar, de celebrar um aniversário que faz parte da história do cinema europeu, e que, por isso mesmo, pertence a todos os berlinenses.

O ponto alto do evento foi a estreia mundial da versão restaurada da película “Metropolis“, de Fritz Lang,em directo da Berlinale para Berlim e Frankfurt, no dia 12. Numa projecção gigante junto às Portas de Brandenburgo (o ícone da cidade), mais de 2 mil pessoas assistiram com entusiasmo, em pé e em modo de sardinha enlatada num cenário de neve, à versão reconstruída do filme expressionista de ficção científica, datado de 1927, que influenciou os mais relevantes filmes do estilo da história do cinema. Esta foi uma película produzida na Alemanha durante um período estável da República de Weimar. O tema, com um carácter de crítica política, explora a crise social entre trabalhadores e capitalistas. Foi o filme mudo mais caro de sempre, mas, após a sua estreia alemã foi editado sucessivamente, e muitas passagens importantes perderam-se nas décadas seguintes. Existiram muitas tentativas de restaurar a versão original, bem como descobertas de cenas perdidas. Uma das reconstrucções do filme, apresentada na Berlinale de 2001, foi considerada pela UNESCO como uma das Memórias de Registos do Mundo. Mas apenas em 2008 foi encontrada, na Argentina, uma cópia de 30 minutos pertencente ao filme, que tornou possível a sua projecção na Berlinale deste ano.

“Nenhum outro filme alemão inspirou a história do cinema como o Metropolis de Fritz Lang. Estamos especialmente gratos por podermos apresentar a versao restaurada do original desta obra clássica“, afirmou o director da Berlinale, Dieter Kosslick, na noite da estreia. E, se é relevante, Leonardo DiCaprio também não resistiu à tentação e acomodou-se entre os cerca de 2 mil convidados que acompanharam a estreia da versão restaurada no Friedrichstadtpalast, o local da gala.

Mas a democratização da Berlinale nao se ficou pela parte in da cidade. Outro dos eventos chave deste aniversário foi a iniciativa “Berlinale goes Kiez”, que, apenas na primeira semana, vendeu mais de 4 mil bilhetes.

Dois filmes do programa do Festival foram apresentados por noite, em cinemas de vários bairros da capital. “Os berlinenses tiveram a oportunidade de experienciar os filmes em praticamente primeira mão, mesmo à sua porta“, afirmou Kosslick.

A instalação da artista Christina Kim, “The Curtain“, também foi outra das iniciativas mais aplaudidas do Festival. Uma cortina gigante foi criada para a apresentação de Metropolis nas Portas de Brandenburgo. Entre os dias 12 e 15, esta instalacao única materializou a magia e o poder do cinema: a premiada artista e designer coreana-americana Christina Kim criou uma peça com trezentos metros quadrados feita a partir de posters reciclados de cinema,imagens de DVD´s e outros materiais relacionados.

A estreia de “Shutter Island“, de Martin Scorcese, com Leonardo DiCaprio, também foi um dos momentos relevantes deste Festival.

Mas entao, quais foram as críticas que as línguas mais afiadas fizeram ao Festival de Cinema de Berlim? O que se ouve pela cidade é que a competição esteve muito fraca, embora os vencedores tenham merecido, com toda a dignidade, os Ursos que lhes foram atribuídos. “O coração do festival, a competição, está a precisar de reformas“, afirmam alguns berlinenses.  É óbvio que algo tem que mudar quando os directores mais importantes e os melhores filmes sempre se encaminham para Cannes, em vez de Berlim. Pedro Almodovar, Lars von Trier, Quentin Tarantino sao alguns nomes que preferem mostrar as suas obras em Cote d´Azur em vez de na capital alemã.

Podíamos afirmar que Berlim tem outro foco, que enfatiza regiões distantes do mundo e descobre directores menos populares. O que é verdade. E seria perfeito se a competição apresentasse películas de alta qualidade. Mas, este ano, o programa não chegou, segundo muitos, ao nível que seria esperado para um Festival Internacional.

O programa, com imensas e diversas iniciativas, fez com que o foco na qualidade se perdesse, e que o brilho do festival ficasse espalhado por estrelas pequenas, em vez de ofuscar, como o sol que era esperado.

No entanto, pelo seu aniversário, a Berlinale registou um novo record de bilheteiras, com cerca de 300 mil bilhetes vendidos. E, apesar das críticas, o interesse da parte da indústria permaneceu forte: cerca de 20 mil visitantes acreditados de 122 países fizeram parte do evento, incluindo cerca de 4 mil representantes da imprensa. Com esta edição, Berlim mostrou novamente que é uma metrópole cinematográfica. Agora basta que se mantenha.



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