“A Bibliotecária de Auschwitz” | Antonio G. Iturbe

“A Bibliotecária de Auschwitz” | Antonio G. Iturbe

O poder fascinante dos livros que nunca perdem a memória

O tema do Holocausto é uma fonte de inesgotáveis referências e, acima de tudo, uma lembrança de algo terrivelmente desumano que alguns teimam em negar mas que deve, para o bem universal, servir de alerta para que seja irrepetível.

Muitos foram os autores e obras a dedicarem as suas páginas ao sofrimento de milhões que viram o seu bem mais precioso ser negado por mesquinhez, capricho ou apenas por professar uma cultura e ideologia diferente ou considerada menor.

E é, em parte, isso que o espanhol Antonio G. Iturbe faz com “A Bibliotecária de Auschwitz” (Planeta, 2013), um livro que presta homenagem às vítimas e sobreviventes da “Solução Final” e que encontra, na personagem frágil de uma menina checa de catorze anos, Edita Dorachova, uma destemida heroína que assume a função de bibliotecária no Bloco de 31 do campo de Auschwitz-Birkenau, um local assassino que servia de “lar” para mais de 500 crianças, muitas delas cobaias do terrível doutor Mengele, médico nazi fã da eugenia e apelidado de “Anjo da Morte”.

Conhecido pelas obras de cariz infantil cujo enredo gira à volta das aventuras do Inspetor Zito e Chin Me Do, Iturbe é também jornalista cultural, tendo coordenado suplementos televisivos de referência na vizinha Espanha como o “El Periodíco”, sendo nessa qualidade que descobriu em Praga a sobrevivente checa que serviu de inspiração à conceção deste belo romance.

“A Bibliotecária de Auschwitz” é um poderoso e arrebatador livro que relata a coragem de algumas almas incautas que arriscaram a vida para manter e transmitir o legado cultural a outros que tinham, nos sonhos entretanto arrumados e esquecidos no sótão da memória, os únicos pedaços de um efémero consolo.

Transferida na companhia dos seus pais de um maravilhoso apartamento em Praga para o gueto de Hradcandy – e depois para o campo de Auschwitz-Birkenau -, Dita conhece Fredy Hirch, um lutador que consegue erguer uma escola no meio de um ambiente onde a desesperança reinava. As aulas eram dadas apenas com o auxílio da palavra, sendo que em vez de ardósias se utilizavam os sentidos para apreender o conhecimento.

Para além desta conquista ímpar, Hirch escondia um maravilhoso tesouro: uma biblioteca cujo espólio correspondia a oito obras. De forma a preservar esse fantástico e proibido legado, Dita aceita o destemido papel de bibliotecária e guarda, com a vida, um atlas desgastado pelo passar dos anos, um compêndio de Geometria, uma gramática russa, obras de H. G. Wells, Freud e Hasek, bem como um romance francês e outro russo, estes últimos incompletos pela falta de páginas.

Assumindo o papel de “enfermeira de livros”, Dita abraçou a missão e diariamente enfrentava os demónios das SS com livros escondidos em bolsos secretos no seu vestido, que depois encontravam um porto de abrigo num esconderijo debaixo do chão. Para quem a vida e a identidade estava resumida a um número, estes livros funcionavam como uma réstia de esperança, uma dádiva divina que, por breves momentos, fazia esquecer as condições desumanas que se viviam num local que talvez seja a visão mais próxima do Inferno criada e vivida pelo Homem.

Com uma escrita que se serve do passado e da memória como bengalas para compreender o terrível presente vivido por quem habitou os campos de concentração nazis, “A Bibliotecária de Auschwitz” prende o leitor da primeira à última página e, sem afastar a dor e o desespero inatos a um dos mais negros períodos da História Universal, consegue passar um sentimento de esperança numa das mais bonitas odes modernas dedicada aos poderes e magia que os livros possuem, aos maravilhosos e únicos sentimentos que passam para os seus leitores pois, as obras escritas, nunca perdem a memória.



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