“A Boneca de Kokoschka” –|Afonso Cruz

“A Boneca de Kokoschka” – Afonso Cruz

Uma matrioska literária ou como a vida imita a literatura

Há pouco mais de um mês, Afonso Cruz foi um dos vencedores do Prémio da União Europeia de Literatura 2012 com o livro “A Boneca de Kokoshka”. Mais do que a recompensa monetária, a distinção permite que o escritor português passe para a frente da fila, vendo o seu livro ser traduzido para várias línguas. A questão que aqui se coloca é esta: será a distinção merecida? A resposta chega através do uso de um advérbio: absolutamente. Ao lado de nomes como Gonçalo M. Tavares e Dulce Maria Cardoso, Afonso Cruz é uma das mais imaginativas e cativantes vozes literárias que pensam, sonham e escrevem na língua de Pessoa, Eça ou Aquilino.

Bonifaz Vogel é dono de uma loja de pássaros. Um dia começa a ouvir uma voz que vem debaixo do soalho que, após um susto inicial, irá servir-lhe de consciência educadora e boa conselheira nos negócios; Isaac Dresner vê o seu melhor amigo ser assassinado por um soldado alemão. Ficará coxo, «com a cabeça do amigo para sempre presa ao pé direito.» Refugia-se num alçapão por baixo da loja de pássaros, e será ele a voz secreta que habitará a mente de Bonifaz; Tsilia Kacev, de vestido verde e com o frio a tocar-lhe o peito, pousa na vida de ambos «como a sombra de um pássaro.»

Entramos depois nas memórias de Isaac Dresner e no passado de Tsilia Kacev, até darmos de caras com Mathias Popa, uma personagem fascinante – e central – que um dia roubou um tratado de Thomas Mann. Será ele o autor de “A Boneca de Kokoschka”, livro editado pela pequena editora de Isaac Dresner, que conta a história do pintor Oskar Kokoschka: depois de terminar a relação apaixonada com Alma Mahler, manda construir uma boneca de tamanho real com todos os pormenores da amada, levando-a a passear pela cidade e à ópera. O livro irá apresentar, de forma romanceada, personagens de carne e osso a cujas vidas acederemos mais tarde: Anasztázia Varga, Adele Varga, Eduwa, e o próprio Mathias.

“A Boneca de Kokoschka” é, à semelhança das bonecas russas baptizadas de matrioskas, um livro dentro de um livro; narrativas dispersas que se cruzam, afastam e abraçam até que a vida se transforme em literatura ou, de outra forma, até que a literatura seja o que a vida deveria ter sido, fazendo da linguagem – e da capacidade de contar histórias – uma merecida homenagem e, também, um pedido de desculpas.

«O senhor terá, porventura, alguma dificuldade em digerir algumas destas coincidências, mas a vida é um emaranhado de complexos fios», lê-se a certa altura. Como um marionetista profissional, Afonso Cruz pega nesses fios e mostra-nos a vida com a alma de um poeta traído pelo acaso.

Revelar mais deste livro será retirar o prazer de uma leitura sem rede por baixo. Atirem-se sem qualquer sombra de medo. A Literatura salvar-vos-á.



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