“A Casa com Alpendre de Vidro Cego”| Herbjorg Wassmo

“A Casa com Alpendre de Vidro Cego”| Herbjorg Wassmo

Trilogia de Tora, a menina-coragem

A literatura oriunda dos países nórdicos tem, aos poucos, entrado no quotidiano dos leitores a nível mundial. O fenómeno Stieg Larsson deu um importante contributo e serviu de ponte para a entrada de autores oriundos da Suécia, Dinamarca, Islândia ou Noruega.

O mercado nacional está muito atento a essa situação particular e cabe à novíssima Arkheion Editora a honra de apresentar a obra de Herbjorg Wassmo, uma das mais prestigiadas escritoras norueguesas da sua geração que conta com uma já longa carreira literária, que teve o seu início na década de 1970 através de “Bater das Asas”, um livro de poesia.

Mas é em formato romance que Wassmo chega agora aos escaparates. “A Casa com Alpendre de Vidro Cego”, (Arkheion Editora, 2013) um clássico da literatura nórdica, é um dos mais intensos e pertinentes livros editados em Portugal durante o ano que se aproxima do seu final.

Sendo “A Casa com Alpendre de Vidro Cego” o primeiro livro da trilogia Tora (nome da personagem principal), a Arkheion anunciou a edição, para breve, dos outros dois tomos – “O Quarto Silencioso” e “Céu Doloroso”. Na base destas três obras está Tora, uma menina de 11 anos, filha de mãe norueguesa e de um soldado alemão. Toda a ação tem como palco uma aldeia nortenha da Noruega, prisioneira do rescaldo da Segunda Guerra, onde a pesca está no centro de todo o sustendo da comunidade.

Envolto de um realismo assombroso e uma sensibilidade contagiante, Wassmo relata a vida atormentada de Tora, uma ensimesmada menina ruiva de compridas tranças que tenta sobreviver às moléstias do padrasto, à distância e fragilidade da mãe e à frieza e crueldade da população.

No fundo, Tora, “a fedelha alemã” como lhes chamam os seus conterrâneos, vive os tormentos da sua filiação no seio de uma comunidade que não esquece os ecos deixados pela invasão nazi, apenas encontrando um porto de abrigo na força inata da tia Rakel e na magia que irradia de Gunn, a jovem professora local.

Ingrid, mãe de Tora, vive sob um forte estigma e luta para sobreviver numa terra em que as mulheres ainda não estão ao nível do estatuto conquistado pelos homens e tem, na sua relação conturbada com Henrik, um homem marcado fisicamente pela guerra e profundamente amargo e violento, um ponto que está longe do equilíbrio. A miséria moral e a pobreza em que a aldeia está mergulhada completam um cenário muito negro onde o desespero marca o ambiente. Associada a este pessimismo está a ideia de um romance repleto de ideias feministas e proletárias em que a vitimização da mulher enquanto género anseia por uma urgência solidária entre pares.

A escrita deslumbrante de Wassmo descreve o ambiente desumano que Tora tem de aguentar para sobreviver a várias provações e “A Casa com Alpendre de Vidro Cego” é o reflexo de uma triste realidade onde quem tem a sorte de sentir a felicidade, nem que por breves instantes, revela traços de uma beleza negada para a esmagadora maioria que esqueceu por completo a simples dádiva de se estar vivo.

Partilhando a casa comum com outras famílias, Tora encontra na sua amiga Sol, ligeiramente mais velha e vivida, um outro refúgio de felicidade que apenas tem paralelo nas suas mais íntimas fantasias com o seu pai biológico e na leitura de alguns livros emprestados por Gunn. Também a escuridão e o silêncio são armas que apaziguam a alma de Tora.

A metáfora é uma figura de estilo recorrente neste “A Casa com Alpendre de Vidro Cego” e, os fantasmas que habitam as mentes dos diferentes personagens, são relatados num misto de parágrafos curtos que exploram uma ideia, uma cena e alguns diálogos menos usuais, ainda que na segunda metade do livro estejam mais presentes.

Com mais de 500 mil livros vendidos apenas na Noruega, Herbjorg Wassmo é dona de uma escrita poderosa e extremamente cativante, sendo que as suas obras já foram traduzidas em mais de vinte línguas. Ainda que tenha sido alvo de vários prémios e homenagens foi com a trilogia de Tora que a autora arrecadou os mas importantes galardões dos quais se destacam o Literary Critics Prize, em 1981, o Booksellers Prie, em 1983 e o Nordic Council Literary Prize em 1987.



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