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Fingir a revolução que aí vem

Olhando para os nossos tempos, o Teatro da Cornucópia traz-nos um ciclo sobre o teatro e revolução. Depois de "Fim de Citação" e antes do "Balcão", de Jean Genet, agora no palco do Teatro D. Maria II a "Cacatua Verde", de Arthur Schnitzler, cuja acção se situa nos tempos da Revolução Francesa.

Tudo começou quando Diogo Infante convidou a Cornucópia a vir ao Teatro Nacional fazer uma peça que nunca pudesse ter feito. Luís Miguel Cintra pensou logo na “Morte de Danton”, de Georg Büchner, que considera “uma das peças mais bonitas de toda a história do teatro”. Só que depois começou a medir a ambição de fazer este projecto e pensou que seria demasiado para as suas possibilidades. O texto exige um grande elenco de excelentes actores, muitos homens, e face às disponibilidades das pessoas com quem gostaria de trabalhar percebeu que não o poderia fazer. Propôs ao Nacional a mudança para esta peça de Schnitzler, nunca representada em Portugal, projecto que já tinha estado previsto para a Fundação Calouste Gulbenkian, nos tempos de Madalena Perdigão (que fora abandonado por ser muito caro).

O cenário é uma reconstrução a partir do cenário de Miserere. O que antes era um lugar quase claustrofóbico tornou-se num buraco, uma caverna. A banca da taverna é no proscénio, onde no Miserere estava uma estátua de um pianista a tocar. O espectáculo começa com uma leveza que impressiona. Os actores, vestidos de negro, cantam à capela “La Carmagnole” (canção dos tempos da revolução francesa) e depois desaparecem pela plateia. Fico a pensar que é preciso coragem para se começar assim, de forma tão simples, uma representação num espaço como aquele.

Cacatua Verde, a taberna-teatro

Trata-se de uma história onde o grotesco se liga a uma história cheia de pequenas peripécias, acontecimentos e personagens (são vinte e um actores em cena), servindo para criar um quadro social muito rico.

Cacatua Verde é o nome de uma taberna pertencente a Próspere (Luis Miguel Cintra), antigo director de uma companhia de teatro que tem um engenhoso plano para conseguir fazer sobreviver a sua companhia: todas as noites os seus actores fingem que são marginais e criminosos. Muitos dos seus clientes são nobres e vão ali para sentir a excitação de serem atacados e insultados, exorcizando assim o medo de uma revolução. Os acontecimentos passam-se na noite da Tomada da Bastilha e há uma história passional que vai perturbar a vida na Cacatua Verde. O seu melhor actor, Henri, casou-se com Leócadie, actriz (Rita Loureiro), e vai sair de Paris representando ali pela última vez. Para esta última representação cria uma história baseada na sua própria vida. Confessa assim que matou o Duque por ser amante da sua mulher. O actor está a representar, mas Próspere – que tinha acabado de saber do adultério entre o Duque e a mulher de Henri (Ricardo Aibeo) – acredita que ele fala verdade e revela-lhe tudo o que tinha acabado de descobrir. Henri diz-lhe que está a fingir, Próspero insiste e logo a seguir entra o Duque (João Grosso). Todos compreendem que Henri esteve de facto a fingir, mas neste momento Próspere já lhe revelou que o Duque é amante da sua mulher. Henri mata-o. O crime, porque é simultâneo à Tomada da Bastilha, faz de Henri um herói do povo, da revolução que será também o fim da Cacatua Verde, já que a realidade revolucionária põe termo à necessidade deste jogo de fingimento.

Arthur Schnitzler, esse desconhecido entre nós

Nunca ouviu falar de Arthur Schnitzler? É uma pena, mas acaba por ser compreensível já que raramente foi apresentado em Portugal. E isto apesar de ter sido um autor de crucial importância já que, na mudança do século passado, tal como Anton Tchecov, anuncia um teatro que rompe com a tradição e se preocupa com a dimensão inconsciente das acções humanas e com a valorização da subjectividade na representação. O dramaturgo austríaco não terá tido entre nós muitas apresentações para além de “Anatol”, numa encenação de Ricardo Pais no Teatro Nacional D. Maria II, e “Dança de Roda”, pelo extinto Contraregra, com encenação de Antonino Solmer. Para Luis Miguel Cintra tal deve-se tanto ao facto de ser um autor germânico, como à sua escrita: “É muito leve na maneira de escrever e é muito próximo do champanhe, com frases curtas; uma ironia muito fina que acompanha todo o desenrolar o que, para nós portugueses, não é nada fácil. Estamos mais próximos dos russos, do Tchecov.”

Esta ironia, que está presente também na forma como a peça é um divertimento sobre um género, o histórico, muito popular na época – Schnitzler chama-lhe uma peçazinha – faz com que os personagens tenham uma multiplicidade e uma ambiguidade de comportamentos que enriquecem a cena. É assim que nos surgem o Marquês de Lansac (José Manuel Mendes), sua mulher Séverine (Rita Blanco), Scaevola (Gonçalo Amorim), Maurice Grain, vagabundo (Miguel Loureiro) e Georgette (Sofia Marques), entre muitas outras. Para compreendermos esta complexidade com que Schnitzler criou os seus personagens, é importante sabermos que ele foi contemporâneo e amigo de Freud, com quem se corresponde. Nestas cartas Freud reconhece que Schnitzler consegue, pela intuição, atingir as mesmas conclusões a que ele chega com as suas experiências científicas. E como acentua Luís Miguel Cintra:

“E ainda mais moderno do que isso é perceber-se que em relação à própria história, em relação à própria revolução, a ambiguidade mantém-se: a gente não tem a certeza se ele está a acusar o processo revolucionário ou a defendê-lo. Há uma visão extremamente lúcida da história e que está na peça ligada à análise de que a realidade é muito mais complexa do que aquilo que a arte consegue fazer dela e do que a própria história tem de fazer dela. ”

Esta atitude crítica é uma experiência que a Cornucópia já viveu nos idos da Revolução de Abril:

“Na altura fomos muito criticados porque recusámos fazer uma programação vitoriosa. O nosso reportório era de análise sobre o que se passava nos regimes fascistas, que era de onde tínhamos saído, e daquilo que se passava na pequena burguesia, que tinha sido uma camada fundamental no 25 Abril. Tratava-se de alertar que aquela mudança era bem mais superficial do que seria desejável.”

Uma experiência de acompanhamento do espectáculo

Dada a diversidade do elenco, o espectáculo permitiu juntar pessoas do elenco habitual da Cornucópia e do Teatro D. Maria II, com pessoas menos experientes ou que Luís Miguel Cintra não conhecia como actores:

“Tive o sonho de fazer uma espécie de estágio aberto para jovens actores e alunos de escolas de teatro.” O projecto começou por ser muito bem acolhido pela Escola Superior de Teatro e Cinema e alguns alunos foram escolhidos e participam no espectáculo, mas acabou por ter um desenvolvimento que não lhe agradou. Com pena dos muitos outros que tinham aparecido na audição, Cintra propôs ensaios abertos, uma espécie de acompanhamento do espectáculo por parte dos alunos que quisessem. Eles vieram mas depois desinteressaram-se, como nos contou Luis Miguel Cintra: “Na prática esses alunos desinteressaram-se pelo acompanhamento do projecto. E mesmo aqueles que ficaram, muito dificilmente conseguiram relacionar o seu estágio com o currículo da escola, o que foi decepcionante e revela que a escola de certo modo está separada da prática teatral e tem uma lógica própria de ensino, desfasada da prática teatral que está a ser ensinada.”

Esta vontade de abrir o grupo à comunidade, que é muito visível quando vamos ao site do Teatro da Cornucópia – há ali um investimento muito sério na divulgação do histórico e do trabalho deste colectivo – é uma aquisição para continuar, pelo que depreendemos das suas palavras:

“Sinto que a Cornucópia tem um modo específico de trabalhar e sinto que quero que algumas pessoas que se interessam por isso tenham a possibilidade de perceber como é que chegamos às coisas.”

A CACATUA VERDE de Arthur Schnitzler (1899)
Grotesco num acto

Tradução Frederico Lourenço| Encenação Luis Miguel Cintra |Cenário e figurinos Cristina Reis | Desenho de luz Daniel Worm d’Assumpção. Interpretação: João Grosso, Duarte Guimarães, Vítor D’ Andrade, José Manuel Mendes, Dinis Gomes, Luis Miguel Cintra, Ricardo Aibéo, Guillaume, Tiago Matias, João Villas-Boas, Gonçalo Amorim, Miguel Melo, António Fonseca, Miguel Loureiro, Luís Lima Barreto, Rita Blanco, Sofia Marques, Catarina Lacerda, Cleia Almeida, Rita Loureiro, Miguel Melo, Tiago Manaia, Tobias Monteiro, Nuno Casanovas, Alice Medeiros, Neusa Dias e Joana Verona.

Até 27 de Março

De 4ª a Sábado às 21.30h e Domingo às 16.00h
Informações e Reservas no Teatro Nacional D. Maria II
Bilheteira: 21 325 08 35



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