“A Confissão” | John Grisham

“A Confissão” | John Grisham

Sprint a favor da justiça

Advogado de carreira, John Grisham é, sem dúvida, o maior especialista em thrillers jurídicos do universo literário mundial. Com cerca de 300 milhões de exemplares vendidos até hoje, Grisham ficou conhecido por obras como “A Firma”, “O Cliente” ou “Dossier Pelicano”, títulos que mais tarde se transformaram em filmes que foram sinónimo de sucesso.

Em “A Confissão”, recentemente editado pela Bertrand, o autor natural do Arkansas volta ao lugar do crime e oferece-nos um livro que coloca em cheque o sistema jurídico norte-americano e a sua consequente noção de justiça. Para tal, Grisham pega na questão fracturante da Pena de Morte e constrói uma história repleta de suspense, que deixa o leitor à beira de um ataque de nervos e dúvidas.

Estamos perante uma obra que é mais que um manifesto anti-pena capital. É, acima de tudo, uma reflexão sobre decisões levadas a cabo por tribunais, que se regem por leis que podem tirar a vida a quem foi negada a hipótese de provar a ausência de culpa, e onde a corrupção manipula a verdade. O autor consegue traduzir na plenitude a angústia de culpado e inocente na contagem decrescente para enfrentar o corredor da morte. A luta contra a injustiça da condenação de um homem inocente pode fazer o responsável pelo crime ponderar procurar o perdão?

Conhecido por abraçar causas que colocam a tentativa da prova de inocência acima de qualquer culpa induzida, Grisham é um fervoroso adepto do “Innocent Project”, uma organização que revisita legalmente casos de alguns condenados à pena máxima e que, eventualmente, foram condenados injustamente. Desde a sua criação, em 1992, esta organização já salvou mais de três centenas de pessoas de uma injusta aplicação da pena capital.

O escritor norte-americano chegou mesmo a contar um caso real em “The Innocent” (sem edição portuguesa), uma obra que relata as condenações injustas de Ron Williamson, um ex-jogador de Basebol, e o seu amigo Dennis Fritz, mais duas vítimas de uma justiça feita à medida de vinganças e pressões opostas à verdade.

A trama de “A Confissão” passa-se no Texas no final do século passado, um dos Estados que prevê na sua Constituição a Pena de Morte. Travis Boyette é um homem doente, amargo, infeliz e à beira da falência física, mental e moral. Durante a sua existência foi seduzido pelo conforto que o terrorismo e a subjugação do outro lhe proporcionavam. Uma das suas vítimas foi uma das raparigas mais populares e bonitas do colégio de Slone, que cometeu o “pecado” de existir e atrair as atenções e libido de Boyette. O rapto, a violação e o assassínio eram as técnicas de sedução mais frequentes de um homem escondido em si mesmo.

Na sequência do desaparecimento de Nicole Yarber, surgem testemunhos falsos contra um homem inocente que tem no tom da sua pele uma das maiores marcas de culpa, no seio de uma sociedade onde o preconceito continua vivo. Vítima das circunstâncias, Donté Drumm, um dos rapazes mais populares do colégio e uma das estrelas da equipa local de futebol americano, é embrenhado numa teia de acusações e é feito no principal suspeito do crime sendo condenado, mesmo que não se prove efectivamente o homicídio e não ser necessário saber o paradeiro do cadáver. Nove anos depois do encarceramento e à beira da execução, Drumm está exausto. A morte fica apenas a quatro dias de distância.

Inesperadamente, Boyette, a conviver com o drama de um tumor cerebral, sente que é a única chave que pode abrir a absolvição de Drumm. O remorso enche o coração empedernido do assassino que se sente tentado a confessar o seu crime ao reverendo luterano Keith Schroeder, um ministro vai enfrentar uma das maiores provações da sua vida ao lidar com um criminoso frio. Pelo meio temos Robbie Flak, um advogado que tenta provar a inocência de Drumm desde a primeira hora, e que tem agora ainda mais força para atingir a absolvição de Donté.

A confissão de Boyette surge como uma reviravolta no julgamento de Drumm mas, para a verdade ser reposta, é necessário um sprint em nome da justiça. Grisham fala do tema de forma frontal mas consegue um distanciamento que dá espaço ao leitor para se inteirar de uma história que tem a injustiça como o drama em si mesmo.

Estamos perante um romance que mostra uma sociedade viciada na noção de justiça, um sentimento que tem mais de celeridade do que de razão. A pena e a execução da mesma são facilmente ultrapassadas pelo egoísmo e altruísmo de uma sociedade onde liberalismo e condescendência são noções que variam consoante as necessidades.

A escrita competente e a cadência única da genialidade narrativa de John Grisham dá a conhecer personagens que crescem a cada página, a cada revelação, e são donas de uma personalidade cheia e repleta de tiques humanos, cujas falências e qualidades se podem entrelaçar quando o objectivo é salvar a própria pele, combater pela justiça, condenar por vias do ciúme ou viver o drama alheio. A tensão aumenta nas entrelinhas dos diálogos, nos pormenores mais pequenos, a cada gota de suor. Sente-se raiva, revolta, angústia, esperança, desilusão nas linhas de Grisham.

“A Confissão”, não esquecendo o principal propósito do entretenimento, é um dos livros mais pessoais de Grisham, que tem como uma das suas missões de vida dar a conhecer as falências de um sistema judicial, criminal e penal. Este é um livro de leitura obrigatória sob pena de se fazer alguma injustiça face a um dos mais intrigantes livros do mestre dos thrillers.



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