SmileCampisi

“A Devoradora de Pecados” de Megan Campisi

Fome de liberdade, fome de justiça

A Devoradora de Pecados, de Megan Campisi (Saída de Emergência, 2021), pode parecer inicialmente uma história conhecida, mas não o é. Com uma heroína invulgar e desafiadora, é uma referência ao poder das mulheres numa sociedade patriarcal, e uma ode àquelas mulheres esquecidas, que até recentemente existiam para expiar os pecados da Humanidade.

Com a ação a decorrer na Inglaterra dos Tudor, muitas situações e nomes podem soar conhecidos, mas a escritora assegura que não. É até engraçado como Campisi aborda rumores históricos, sem falar deles de uma perspetiva histórica.

Megan Campisi, recupera as memórias espalhadas pelo tempo, das Devoradoras de Pecados, mulheres condenadas a levar a marca, e os pecados do mundo, até à sua morte.

Não se coíbe em expor os infortúnios de se nascer mulher, numa altura em que ser mulher era sinónimo de sentença de morte, ataques desumanos e abusos inimagináveis.

Através de artimanhas literárias, apresenta-nos uma heroína injustiçada, que luta para expor a verdade e resolver um assassinato, apesar de não ser da sua incumbência, na perigosa e mortal corte da Rainha Bethany de Inglaterra.

Estou ofegante por ter corrido. Empurro o pão para cima com as mãos e arranco-lhe um pedaço com os dentes. Mais vale comer qualquer coisa, é o pensamento que me ocorre. Já que vou para a cadeia, mais vale ir com alguma comida na barriga.

Num ambiente negro, pestilento e repleto de traições, Campisi apresenta May Owens, uma adolescente de 14 anos, esfomeada, que após roubar um pão, é capturada e enfiada numa cela horrível com mais 19 mulheres, que variam desde prostitutas a ladras com experiência. Muitas delas terminam mortas de formas horrendas e Campisi, não poupa as descrições.

Mas quando o grupo de mulheres começa a diminuir e May ainda não foi julgada, algo não parece bater certo. É então que May é condenada a tornar-se uma Devoradora de Pecados, marcada (a ferro e fogo), com um D na língua e colocada numa coleira também com a letra D, para que todos saibam o que é. A partir daquele momento, ninguém poderá falar com ela, e ela terá que comer os pecados dos moribundos. Cada pecado tem um fruto ou alimento atribuído (romã para bruxaria, natas para inveja, costeleta de carneiro para infidelidade, coração de animais para assassinato, entre outros). Um compêndio de alimentos que representam os pecados mais obscuros. Conforme os pecados, assim será a refeição da Devoradora. E aqueles pecados serão seus até morrer.

A devoradora de pecados caminha entre nós,
Ninguém a vê, ninguém a ouve.
Os pecados da nossa carne tornam-se nos seus pecados,
Seguem-na até à cova.
Ninguém a vê, ninguém a ouve.
A devoradora de pecados caminha entre nós.

Afastada de tudo e de todos, é desprezada e temida por todos os habitantes, e é graças a outra Devoradora de Pecados que encontra um lar onde viver.

May também abrirá as portas da sua casa a outros membros ostracizados pela sociedade.

A sua nova vida tem os seus pontos negativos mas também tem os seus pontos positivos, quando o simples facto de ser uma Devoradora de Pecados, lhe confere acesso a sítios outrora barrados, como a Corte da Rainha Bethany, a Virgem.

Exposta a segredos e testemunha de várias situações suspeitas, é envolvida na conspiração e ocultação de um crime das mais altas esferas da Corte. Um crime com barbas que pode arruinar tudo no presente.

Ouço uma espécie de soluço abafado. Os meus olhos viajam sem pensar sequer em quem o soltou. A Rainha. Não sei o que significa, apenas que parece ser um soluço feito de dor e ao mesmo tempo de alívio. E sei que um coração num caixão significa o assassinato de alguém.

Mas conseguirá May resolver o crime, sem encontrar a vítima? E que lhe reservará o futuro se continua a inquirir o que não deve?

A Devoradora de Pecados, de Megan Campisi, é um conto pintado com contornos negros, que apesar dos seus horrores, entrega um enredo interessante e esperançoso.



There are no comments

Add yours

Pin It on Pinterest

Share This