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A Festa na Comuna

"A Festa", tragicomédia de Spiro Scimone em versão eléctrica, satírica, cheia de movimento de alegria, de ritmo, no Teatro da Comuna, até 26 de Junho. Uma encenação de Ricardo Neves-Neves, do Teatro do Eléctrico, que nasceu há vinte e cinco anos, o ano em que surge a Teatroesfera, a companhia que co-produz este espectáculo.

Dado que tenho assinado trabalhos exclusivamente jornalísticos na Rua de Baixo, devo começar por esclarecer que este texto é o testemunho de um espectador que, depois de ter visto “A Festa” de Spiro Scimone, no Teatro da Comuna, uma co-produção da Teatroesfera com o Teatro do Eléctrico, se sentiu na necessidade de ir buscar as informações do comunicado de imprensa recebido aqui na RDB e alinhar estas notas, que aqui e ali estarão mais próximas do registo crítico.

“A Festa” tem uma narrativa muito simples: tudo se passa num mesmo dia, o aniversário de casamento de um casal. Em cena pai, mãe, filho, numa triangulação de uma família disfuncional em que a mãe é um pau mandado do marido e do filho. O filho é o poder emergente e já faz frente ao pai. A mãe obedece ao marido quando está sozinha com ele e submete-se ao filho quando este está presente e se opõe ao pai. Pai e filho nunca se encontram a sós. Aos olhos dos pais o filho tem uma vida irregular, tanto afectiva como financeiramente. Para o filho o pai é um alcoólico e um viciado no jogo. Na vida daquela mulher joguete entre pai e filho, o dia do aniversário do casamento é o único momento que lhe traz alguma recordação mais agradável.

O espaço cénico é constituído por um conjunto de duas telas em tiras que dão, por causa da sua cor branca esbatida a preto, uma sensação de solidez àquelas paredes e que fecham a acção na cozinha daquela família. O chão é da mesma cor e reforça a artificialidade daquela casa. Como objectos apenas a mesa e as duas cadeiras onde se sentam o pai e o filho (a mãe está sempre num virote, de cá para lá). As paredes são rompidas das maneiras mais inusitadas: quer pelos gestos quotidianos de ir buscar objectos e utensílios do exterior para o interior, nomeadamente da cozinha, quer pelo salto do filho que se atira da janela como se fosse um super-herói. Tanto os figurinos de Rafaela Mapril como os cenários de Joana Mendão estão muito coesos na ideia de destruir qualquer realismo que a cena pudesse ter. E a música desde logo, no começo, num ritmo festivo e paródico, nos anuncia que qualquer semelhança formal coma realidade é pura coincidência.

E se na encenação não me surpreendeu a criatividade extrema com que são utilizados recursos mínimos, já tinha visto um trabalho anterior do Teatro do Eléctrico, “Black Vox – Histórias Negras em Teatro de Terror” (uma criação com fortes implicações expressionistas de Ricardo Neves-Neves, de Ana Lázaro e de Patrícia Andrade, que escreveram e co-encenaram), confesso que uma direcção de actores tão segura me surpreendeu muito, até por se tratar de um encenador com tão pouca experiência.

O que se torna essencial para este espectáculo, já que aquilo que aparece como a sua marca é um trabalho de representação a que os espectadores aderiram incondicionalmente. As composições teatrais de Vítor Oliveira (pai), um actor que tem trabalhado nas duas companhias e de Paula Sousa (mãe), uma actriz que não via em cena há muito e que é uma das bases da Teatroesfera desde a sua fundação, são notáveis. E se ao trabalho da Rita Cruz (filho) tive mais dificuldades em aderir, tal deveu-se a uma estranheza permanente de a ver representar um papel masculino, o que impunha desde logo uma caracterização que contrastava com as composições de grande expressividade poética e figurativa das outras personagens. Todas eles muito bem amparadas pelos figurinos de Rafaela Mapril.

Passaram-se vinte e cinco anos

Entre a primeira criação da Teatroesfera, “No País da Alice”, em 1993 e “O regresso de Natasha”, em 2008,  a obra de estreia do Teatro do Eléctrico, passaram-se vinte e cinco anos, precisamente a idade de Ricardo Neves-Neves, actor e o encenador. Ao ouvi-lo explicar, num programa da SIC Radical, que começou a encenar porque começou a escrever e porque lhe fez sentido ser ele a montar o seu texto, olho para o histórico dos dois grupos e encontro uma circunstância que se calhar dá conta também dos diferentes caminhos que a escrita teatral percorreu nestes últimos vinte e três anos.

É que enquanto no Teatroesfera um grupo de actores que tinham trabalhado juntos na Barraca, como Teresa Faria, Paulo Oom, Paula Sousa e José Carretas (também cenógrafo e encenador), começaram a escrever para teatro, inscrevendo-se num fenómeno dos anos noventa, o surgimento de vários autores com grande proximidade à criação teatral e aos próprios grupos, o Teatro do Eléctrico, aparece já num contexto onde a escrita para cena é encarada com uma maior naturalidade, e serenidade, permitindo que ela tenha uma existência muito mais orgânica.

De destacar também que este texto de Spiro Scimone chega até nós traduzido por Jorge Silva Melo e editado através dos Livrinhos de Teatro dos Artistas Unidos, colecção que tem estabelecido uma zona de contacto com dramaturgias europeias contemporâneas.

Texto: Spiro Scimone Tradução: Jorge Silva Melo Encenação: Ricardo Neves-Neves Elenco: Paula Sousa, Rita Cruz, Vítor Oliveira Cenografia: Joana Mendão  Figurinos: Último Promenor – Rafaela Mapril, Sónia Cláudia Neves Música: Sérgio Delgado Luz: El Duplo Fotografia: Raquel Albino Design: Pedro Ingrês Concepção de Montagem e Execução do Cenário: Ricardo Trindade, Filipe Otero Assistência de Encenação: Alcinda Carvalho, Ana Valentim, Carlos Gomes, Madalena Mantua, Rafael Barreto Apoio à Produção: Miguel Stichini – Produção: Bernadete Sant’anna, Ricardo Neves-Neves

Co-produção TEATROESFERA e TEATRO DO ELÉCTRICO

9 a 26 de Junho ’11

Qui a Sáb às 21h30 |Dom às 16h30

Bilhetes: 7,5€ Normal | 5€ – Amigos Teatroesfera, Munícipes do Concelho de Sintra, Professores, Estudantes, Menores de 30, Maiores de 65, Associações Intersindicais, Revista Happy Woman, Parceiros do Cartão Sábado, Profissionais do espectáculo, Grupos com 10 ou + pessoas. Quinta-feira (preço único) 5€

Reservas: 214 303 404 | 919 007 859 | 967 259 657 |919 146 680



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