A filha de Estaline – Rosemary Sullivan

“A Filha de Estaline” de Rosemary Sullivan

A triste sina da Princesa do Kremlin

Durante cerca de três décadas, enquanto secretário-geral do Partido Comunista Soviético e do seu Comité Central, Josef Estaline purgou e puniu milhões de pessoas, das quais incluem-se membros da própria família, nomeadamente Svetlana Alliluyeva, sua filha.

A crueldade e o sentido “político” do ditador russo foi uma das suas imagens de marca e em “A Filha de Estaline” (Temas e Debates, 2016), a canadiana Rosemary Sullivan, biógrafa, poetisa, jornalista, crítica literária e professora emérita da Universidade de Toronto, levanta o véu sobre a vida de Svetlana, uma vítima da estrutura maquinal do poder soviético e ao longo de mais de 600 páginas, algumas delas ilustradas com fotos de variadas proveniência e de irrepreensível validade histórica, e revela um rasto de puro terror com base na estreita colaboração entre autora e biografada assim como nos aquivos do FBI, da CIA e do Estado Russo.

Nas primeiras páginas deste livro, Sullivan conta a trágica e solitária infância da chamada “princesa do Kremlin”, uma menina que viu a morte precoce da sua mãe, por suicídio, marcar-lhe definitivamente uma vida votada ao desprezo do pai, homem que muito cedo revelou um perfil frio e assassino. Ainda assim, apesar deste isolamento forçado, Svetlana conseguiu fazer amizades ainda que alguns tenham pago esse atrevimento com a vida.

Ao avançar no livro, o leitor fica a conhecer mais pormenores da complicada existência da filha do ditador soviético. Desde a sua educação passando pela vida amorosa, casamentos e nascimentos dos seus filhos, até obviamente ao relacionamento tenso com o seu pai, Rosemary Sullivan revela, de forma muitíssimo competente e bem documentada (nas últimas páginas do livro existem listas de personagens que fizeram parte da vida de Svetlana, referências bibliográficas assim como registos de fontes), uma narrativa biográfica de excelência sem nunca resvalar para territórios de mera “coscuvilhice” e com um ritmo narrativo brilhante.

Uma das partes mais interessantes de “A Filha de Estaline” é a complexa passagem de Svetlana pelo território norte-americano, decisão que surgiu quando ainda estava exilada na Índia, fruto de uma aproximação político, social e económica entre as duas potências que durante décadas alimentaram a chamada “Guerra Fria”. Alliluyeva, que mudaria de nome para Lana Peters para assim afastar a curiosidade mórbida dos jornalistas ocidentais, chegou mesmo a conseguir uma estranha “independência” do Kremlin mas nunca se conseguiu libertar do epiteto de fantoche político nas mãos de soviéticos e norte-americanos.

Algo que também transparece neste livro é a continuada tentativa de Svetlana em sentir o amor do próximo, procurar afinidades intelectuais e uma estabilidade que resgatasse, definitivamente, um sentimento de normalidade que foi sempre traído por decisões abruptas e desequilibradas emocionalmente.   Ainda que descrita como espirituosa, amável e companheira, acabou por dinamitar muitas amizades pelos sucessivos ataques de raiva que talvez derivassem da sua inabilidade de lidar com a liberdade, o que também levou a que destruísse quatro casamentos dando origem a mudanças sucessivas de país, deixando mesmo um rasto de propriedades em dois continentes, vindo a morrer, aos 85 anos, em 2011, na pobreza, em território norte-americano.

Um dos maiores legados que Svetlana deixou foi a raiva e incredulidade face ao seu pai. Numa das suas últimas entrevistas, afirmou: «Não lhe perdoo nada! Se foi capaz de matar tanta gente, nomeadamente os meus tios e tia, nunca lhe perdoarei. Nunca…. Destruiu-me a vida».



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