“A fome do licantropo e outras histórias” | Miguel Miranda

“A fome do licantropo e outras histórias” | Miguel Miranda

Profissionário em vinte e cinco atos

Autor de vários romances, aventuras policiais e livros infantis, Miguel Miranda divide a sua vida entre duas paixões: a medicina e a escrita. Depois do muito interessante romance “A Paixão de K” e dezoito anos depois de “Contos à moda do Porto”, a primeira aventura literária em forma de curtas estórias que lhe valeu o Grande Prémio do Conto da APE, o autor natural da Invicta regressa a esse género com “A fome do licantropo e outras histórias” (Porto Editora, 2014), um livro assaz pertinente, divertido e sagaz.

Ao longo de vinte e cinco tomos, cada qual dedicado a uma atividade profissional mais ou menos artística, ética ou vocacional, Miguel Miranda ordena alfabeticamente experiências de uma existência construída através de uma amálgama de sentimentos que fazem uma transversal viagem entre a realidade e a ilusão, a vida e a morte, o plausível e o imaginário.

Com mais ou menos páginas, sempre tendo a brevidade como principal filosofia, ao longo de “A fome do licantropo e outras histórias” é permitido ao leitor embrenhar-se por ondas surrealistas através de personagens como um adivinho, um capador, um falcoeiro, um guarda-noturno ou um oftalmologista, assim como conhecer a poligamia lírica de nuances policiais de um jardineiro obcecado por gardénias, o compulsivo fado de um experiente penetra, a irónica desventura de um kamikaze urbano líder de uma quadrilha de bravos membros do nacional chico-espertismo, os ambientes gore de um licantropo sanguinário ou um recoveiro perito na anulação da memória.

Todos estes contos assentam num cativante “canibalismo” literário que colocam o leitor no papel de um voyeur face às várias condições humanas, bem como à própria noção cognitiva de existência que podem levar um meteorologista à beira da angústia cósmica, uma tanatologista a sentir a morte como um mera leviandade ou um soba sábio a tirar dividendos da sua condição extrassensorial.

Deste requintado prato literário, o ingrediente que faz a ligação perfeita entre os diferentes paladares e odores é a linguagem utilizada por Miguel Miranda, repleta de sofisticação e sobriedade – aqui e ali com alguns tiques “barrocos” -, que resulta em apimentadas doses de humor, desafio, tragédia, felicidade, dúvida, traição e uma noção de finitude que depende de cada caso, de cada conto.



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