Karen Swan

“A Herdeira dos Olhos Tristes” de Karen Swan

Quando a dor do passado invade o presente.

Este novo livro da autora Karen Swan, cuja acção é sublinhada por segredos do passado que teimam em resurgir no presente, “A Herdeira dos Olhos Tristes” (Clube do Autor, 2018), é um delicioso romance, repleto de surpresas e descobertas, não só de memórias escondidas mas de si mesmo.

Ali, o espaço era tranquilizante, refletivo, expansivo. Sentia a necessidade de se galvanizar só para os percorrer, uma sensação de história inescapável encurralada nas paredes; de um passado que ainda dominava o presente; de um mundo assente em segredos e mentiras.

Karen Swan deleita o leitor com uma narrativa rica em pormenores, não só das personagens mas do todo que as envolve.

Tudo, desde a atmosfera, os locais, as roupas, os sentimentos e dúvidas que atormentam as personagens ao longo da história, e a descoberta dos segredos que as definem, é meticulosamente descrito e articulado, o que leva a que o leitor se sinta parte integrante da história.

Num discurso, em dois tempos, Swan evidencia as meias-verdades de Elena, em contraste com as suas memórias, mas não são só os segredos de Elena, que vão surgindo à tona, pois o verdadeiro motivo da fuga de Cesca até Roma, também vai sendo descoberto, pouco a pouco.

Duas mulheres, aparentemente, tão diferentes uma da outra, que através de um encontro casual, e subsequente contacto entre ambas, vão sendo compelidas a deixar o passado para trás, para poder encarar o presente.

 – Francesca Hackett – disse Cesca, interrogando-se quanto ao motivo porque aquela sala cheirava tão bem. Não via flores, nem velas. – Mas tratam-me por Cesca, as vezes, Chess.

  • Sou a Viscontessa Elena dei Damiani Pignatelli della Mirandola, mas tratam-me por Elena. Às vezes, Laney. – Riu-se, com o som a revelar-se tão surpreendentemente como aquela sala.

Elena necessita de Cesca para corrigir os seus erros do passado antes que seja tarde de mais, Cesca necessita de Elena, para entender que o que está no passado, deve ficar no passado, se quer seguir com a sua vida.

A jovem Cesca, abandonou a sua vida de advogada, em Inglaterra, e vive atormentada com um erro cometido, no que lhe parece uma vida há muito distante, o que a leva a refugiar-se na cidade de Roma, onde desempenha a função de guia-turístico e desfruta a companhia de amigos, Alé, Matteo e Guido, ao mesmo tempo que partilha as suas experiências no seu blogue The Rome Affair, que considera como uma “homenagem online ao berço do mundo antigo”.

– Mas, Cesca, tu és a própria definição de romantismo. Olha só para ti, com essas combinações vintage, esses vestidos compridos e as camisolas, o cabelo revolto, esse chapéu tão miserável…

A Principessa Elena, é uma senhora de nacionalidade americana, nos seus setenta anos, que de acordo com as aparências parece viver uma vida de sonho, perfeita, sendo dada a obras de caridade e eventos sociais, alguém que aos olhos dos demais, sempre foi considerada como “a menina mais afortunada do mundo”.

Mas nem tudo o que luz é ouro, e o encontro destas duas mulheres ira remexer nas memórias do passado, trazendo à tona segredos, que ao descobrir-se, poderão alterar a vida de ambas.

Mal dava pelo ombro de Cesca (…).

Cesca virou-se e viu Elena de pé, no meio do salão. Ficou surpreendida por não a ter ouvido entrar, sobretudo porque a anfitriã voltara a usar a bengala. Envergava uma camisa de linho, com um colar de chifre de estilo africano e uma série de braceletes que só serviam para acentuar quão esguios eram os braços. A tez era pálida e levemente sardenta, e a compleição tinha um brilho que Cesca – mesmo quarenta anos mais nova – era incapaz de transmitir naquela manhã, com apenas seis horas de sono – como sempre, o seu passado acordara-a com grande vigor.

Durante o tempo que passam juntas para escrever a biografia de Elena, Cesca vai descobrindo detalhes escondidos sobre a vida da Principessa, em conjunto com os detalhes, muitas vezes embelezados por Elena, para esconder momentos dolorosos da sua vida, que a marcaram profundamente.

É então que surge uma dolina no jardim do palazzo, abrindo uma cratera enorme, e pondo a descoberto tunéis, até então encerrados.

Para avaliar os danos à propriedade, surge Nico Cantarelli, um homem atraente, inteligente, mas, aparentemente, mal-humorado, que vai provocar um turbilhão de dúvidas e emoções em Cesca.

Ergueu o olhar, alarmada, e viu o homem de fato-macaco e capacete a aproximar-se dela, furioso, e Cesca sentiu os músculos do estômago a contrair-se ao aperceber-se de que o conhecia. Na verdade, reconhecê-lo-ia onde quer que fosse. (…)

A boca de Cesca voltou a escancarar-se. Sentia-se de tal modo frustrada que queria gritar. Apetecia-lhe esbofeteá-lo, pontapeá-lo, deixá-lo KO. (…)

A herdeira dos olhos tristes

Mas também Elena verá a sua paz perturbada, pois à medida que relembra e descreve a sua vida após o seu matrimónio com Vito, invoca recordações antigas da sua relação antagonista com Christina, a sua arqui-enemiga, e melhor amiga dos gémeos Vito e Aurelio, que até aos dias de então, guarda rancor a Elena e não evita colocá-la em evidência.

Tudo deriva do último matrimónio de Elena, este com o príncipe Vito, de quem Christina era extremamente próxima.

Christina não confiava em Elena, e no carácter genuíno da sua relação com Vito. A chegada de Aurelio, veio aguçar essas desconfianças.

Lentamente, com um ar quase indolente, Aurelio virou-se e ela deparou-se com a única pessoa no mundo que poderia competir com ela pelo amor de Vito. (…)

Elena fitou-o. Ele era um nómada, tão desenraizado como uma folha soprada ao sabor do vento, e ela não sabia o que a alarmava mais: pensar em tê-lo por ali. Ou imaginar que ele se pudesse ir embora.

Após as mais recentes descobertas ao longo da sua pesquisa, Cesca, sentindo-se defraudada, confronta Elena, mas terá ido longe demais? Será despedida, devido à sua insolência e insistência em saber a verdade? Enfrentará os traumas do seu próprio passado? Será possível ter algum futuro com Nico?

Lembrava-se de outra coisa da véspera, algo mais preocupante. Na altura não parecera relevante, com o comportamento de Elena repentinamente emotivo e errático. Giotto ficara embaraçado. “Um amor tão grande que o leva a colocar uma bomba por baixo da sua vida para o proteger…

A Herdeira dos Olhos Tristes”, é uma história repleta de segredos, um misto de humor, dor, intriga e reviravoltas, que vão deixar o leitor, agradavelmente surpreendido.



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