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“A Ignorância É Força”

Um organismo vivo.

A privação sensorial tem das suas coisas! A quem espera que “A Ignorância É Força” seja um guia, um qualquer esclarecimento ou até reacção “Revistesca” aos tempos a que (sobre)vivemos… Espera-os uma surpresa. Não há respostas outras que uma incitação comedida à reflexão sobre qual a nossa postura pessoal face à resistência, à revolução, à alteração da balança de poder, à defesa dos nossos direitos e individualidade.

George Orwell renasce nas palavras de Ana Ribeiro e António Duarte, como parte de uma análise quotidiana da realidade actual… Curiosamente, desde o tempo que nos trouxe “O Triunfo dos Porcos”, pouco se alterou. O Homem não deixa de ser um Animal de hábitos e atitudes repetidas, de erros que ficaram por ensinar alguma coisa. A apresentação de personagens do tempo do “Era uma vez…” com uma evolução clara para traços cada vez mais Humanos à medida que a peça evolui, não só é propositada como se apoia numa perspectiva totalista do Ser Humano, com as mais lógicas e naturais regressões evolutivas à medida que os personagens revelam emoções e atitudes tão humanas… que só encontram eco no mais essencial comportamento animal.

O palco mais depressa promete um espectáculo musical que uma peça: cinco cadeiras enfrentam cinco microfones pela relevância em cena. Duas janelas saídas da letra de uma marcha popular impedem a realidade lisboeta de transgredir aquele espaço: isso acontecerá no momento em que tiver que acontecer. Somos recebidos à porta por uma das actrizes, com um cordial cumprimento e um delicado pedido para desligar telemóveis.

Depois de ocupados os lugares, apagam-se as luzes. Ouvimos os sons de uma quinta. Quem desconhecer a base deste projecto passa os primeiros instantes a tentar perceber que som está a ouvir… Quem cresceu em terra de matança do porco, sabe… Sabe que os guinchos moribundos de um porco sangrado são os de um homem. Ouvimos os gritos de um porco, os gritos de um homem.

As luzes permanecem apagadas durante a maioria da peça enquanto acompanhamos os acontecimentos da revolta dos animais antropomorfizados da quinta. Liderados por Tagarela e Bola de Neve, os animais revoltam-se do domínio Humano e revisitam o culminar e declínio da sociedade socialista. Um verdadeiro jogo de meios, entre o trabalho de luz e a sonoplastia executada em palco (com racionais cedências ao que seria impraticável), chega-nos uma mescla equilibrada da obra de George Orwell.

Fiz-me acompanhar de uma amiga que nada sabia da peça… como forma de perceber o que alguém, que nada sabia sobre o projecto, entendia do mesmo. Retirou da peça o que se pretendia que retirasse, embora tivesse lucrado com uma pequena “viagem” pelo Universo de Orwell. A única conclusão a que posso chegar é a de que esta peça é acessível e agrada mesmo a quem não está familiarizado com o trabalho de Orwell, mais que não seja pelos paralelismos que se podem encontrar entre o pós-Segunda Guerra Mundial e os tempos que vivemos… A forma como somos realmente feitos da mesma matéria, a forma como um revolucionário pode ocupar o lugar do opressor que afastou… E a forma como os ideais se deformam quando não são recordados momento a momento. Este trabalho apresenta-se sem questões inalcançáveis, sem o pretensiosismo de propor respostas, sem uma verdade que se imponha, sem moralismo real.

O mais curioso aconteceu no final: sem a rede de segurança de um espectáculo que finaliza com uma resposta, sem um ponto final (que, existindo, teria derrotado grande parte da finalidade do trabalho)… o público não sabe o que fazer! Foram precisos três minutos para que a audiência reagisse e saísse. Mais um pouco e tinha ficado toda a gente à espera que o palco estivesse desmontado e que os actores fossem para casa. Não sei se era o que se pretendia, mas… para mim, foi muito ilustrativo!

Vale a pena acompanhar os batimentos cardíacos desta peça em, pelo menos, dois locais diferentes: como matéria orgânica irá adaptar-se ao seu envolvente, preencherá os espaços e reagirá ao ambiente… é esta a promessa dos seus criadores.

Era giro conseguirmos um levantamento do tempo de resposta do público no fim de cada subida a palco…

“A Ignorância é Força”
9 a 26 de Junho, sala-estúdio Teatro da Trindade
Produção d’A Organização
A partir de George Orwell
De Ana Ribeiro e António Duarte
Com Ana Ribeiro, Alexandra Viveiros, José Vitorino, Márcia Cardoso e Victor Gonçalves



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