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“A Lancheira”

A deliciosa degustação da esperança

Rapidamente o silêncio e o negrume da sala dão lugar ao agitado quotidiano da linha férrea de Bombaim, Índia. Os comboios sucedem-se, as vidas cruzam-se através das múltiplas linhas do meio de transporte mais utilizado no país. A confusão quotidiana marca a vida de milhões de indianos que saem diariamente de casa para o trabalho. A vida não para. A chuva adensa a azáfama.

Ila Vaid (Nimrat Kaur), dona de casa esmerada, prepara a filha para a escola. A rotina é constante. Num outro lugar da cidade, Saajan Fernandes (Irrfan Khan), um funcionário do departamento de reclamações de uma seguradora, sai em direção do trabalho. Ela, uma jovem casada, mãe. Ele, viúvo, à beira da reforma. O que os une? Nada, até ao dia em que um dabbawala (funcionário do eficaz sistema de entrega de lancheiras, reconhecido internacionalmente, inclusive pela família real inglesa) se engana e entrega a lancheira enviada por Ila ao ser marido mas cujo destino será a secretária de Saajan.

É desta forma que o “novato” Ritish Batra preenche os primeiros minutos de “A Lancheira”, um – bem a propósito – delicioso filme melancólico, que lhe valeu honras de estreia na Semana da Crítica da última edição do Festival de Cannes assim como a presença no Festival Internacional de Toronto de 2013.

Mais sob o espetro de Hollywood do que de acordo com a filosofia de Bollywood, “A Lancheira” é um exercício cinematográfico que recorda a formula de filmes como “Breve Encontro” de David Lean ou “A Loja da Esquina” de Ernst Lubitsch (ambos da década de 1940) e que são uma súmula de inocência e esperança.

A Bombaim de Batra é dinâmica, moderna, ainda que revele ainda evidentes traços naturalistas que a civilização indiana cultivou ao longo de séculos, assumindo-se como cenário ideal para um filme que tem um conceito de “comédia” fundido com o género melodramático onde o sentimentalismo não extravasa o bom senso.

Ainda que estejamos perante uma Índia versão 2.0, Batra diaboliza a comunicação da era moderna e opta por apostar no crescendo emocional entre Ila e Saajan através dos tradicionais papel e caneta, em forma de bilhetinhos trocados dentro da lancheira. Ao telemóvel fica associada a ideia de traição, de desprezo, e tal está amplamente explicito através do personagem de Rajiv, marido de Ila. Encaradas de forma romântica são também as entregas das lancheiras que começam por ser recolhidas de bicicleta, junto dos domicílios.

Em “A Lancheira”, a criação dos personagens principais foi feita meticulosamente e o seu quotidiano rejeita liminarmente os favores da tecnologia. Se Ila tenta prender a atenção do marido através de deliciosas refeições, feitas num velho e simples fogão, os dias de Saajan são envoltos em burocracias que rejeitam a presença informática. Simples como a amizade e o amor, a vida dispensa os favores da modernidade.

Aquilo que também preenche as vidas de Ila e Saajan, e lhes confere uma aproximação pessoal, é a frustração fomentada por uma sociedade ensimesmada, fechada sobre si mesma e que desconfia do que não conhece. Essa profunda descrença leva a acreditar que um país como o Butão seja o exemplo máximo da felicidade.

A solidão ganha o poder de conseguir apaixonar, platonicamente, duas pessoas que não se conhecem, que apenas trocam confidências que ganham consistência devido à reconfortante sensação do anonimato.

A realização simples, mas muito bem pensada, vai fazendo um intrincado jogo metafórico que permite adensar a união entre Ila e Saajan, que encontram pontes de apoio em duas personagens que os acompanham a partir de diferentes fases da película. No caso de Ila, é a voz da tia – sua vizinha de cima – e cuja comunicação é realizada com a ajuda de um cesto que sobe e desce pelas janelas ao sabor das necessidades de ambas, sendo que para Saajan se personifica em Shaikh (Nawazuddin Siddiqui), o seu pertenço substituto na empresa depois de se reformar.

Sem grandes alaridos e envoltos de uma assinalável sobriedade, os personagens de “A Lancheira” apenas recebem dos seus atores o necessário para ganharem consistência. Batra evitou exageros e a sua aposta revela-se acertada. Irrfan Khan, que vimos em “A Vida de Pi”, refugia-se num mutismo que é superado pela sua expressividade facial, nomeadamente quando lê as cartas de Ila. Khan, não necessita de palavras pois o seu semblante revela emoção, presença. Já Nimrat Kaur, mais conhecida pelo seu trabalho em palco, consegue dar, brilhantemente, vida a Ila através de um desempenho mais palpável, discursivo. Juntos, Khan e Kaur, forma uma dupla perfeita em “A Lancheira”.

No fundo, a estreia de Ritesh Batra no mundo do cinema vai para além de um vulgar filme romântico made in India. Em “A Lancheira” é feita a exploração das relações humanas que em muito se modificaram com as novas tecnologias. Longe de um espírito mais “fútil” de filmes como “Você tem uma Mensagem”, nesta obra de Batra explora-se, ainda que de forma subtil, a perspetivação da comunicação entre seres humanos sem a presença de telemóveis ou correios eletrónicos.

Através de um equilibrado balanço emocional, “A Lancheira” encanta o espetador com o recurso a um bom trabalho dos atores assim como a um conjunto de maravilhosos pormenores que vão prendendo, metaforicamente ou não, a atenção ao longo de cerca de 100 minutos. Batra consegue a proeza de conseguir partilhar emoções e uma história que sem a devida contextualização tende a cair no esquecimento. Falamos, claro está, das relações humanas e da sensação do inesperado como é a vida. Pois tal como Shaikh afirma: “por vezes o comboio errado deixa-nos na estação certa”.



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