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A liberdade está a passar por aqui|IndieLisboa 2018

Liberdade ou ilusão, onde começa uma, onde acaba a outra?

Na 15ª edição do IndieLisboa, quase sem querer, a escolha na Rua de Baixo recaiu sobre filmes que reflectem sobre a liberdade ou a falta dela e essa reflexão ou discussão é de ontem e de hoje, já que é transversal ao cinema de várias décadas. Num percurso que abrange secções diferentes e que vai desde a obra do “Herói Independente” Jacques Rozier, o “Director’s Cut” de Johann Lurf ou Rüdiger Suchsland, passando pela investigação apurada e rigorosa de “Debaixo do Céu” nas “Sessões Especiais” ou o documentário “Silvestre” “Four Parts of a Folding Screen”, a grande questão que todos estes trabalhos nos colocam e se colocam é, por um lado, onde reside a liberdade de criação e, por outro, para onde vai a humanidade em tempos de repressão. Claro que essa reflexão não começa nem termina no que antes se disse e é muito mais complexa, profunda e diversa, como, aliás, o provam as diversas formas de olhar para até, muitas vezes, o mesmo período temporal.

Em “Cinéastes de Notre Temps: Jean Vigo”, Jacques Rozier centra-se na figura do realizador Jean Vigo, como o título indica, para delinear a biografia do homem através dos testemunhos de todos quantos com ele privaram, construíndo não só uma multiplicidade de visões sobre a mesma pessoa como também uma explicação para o facto de Jean Vigo ter sido colocado de parte à época, apesar do seu óbvio génio. Claramente, a censura da altura aliada ao conservadorismo da sociedade francesa deixaram as suas marcas no realizador que, apesar da sua tão parca obra, realizou dois dos filmes maiores do cinema francês. Jacques Rozier, também ele considerado uma espécie de enfant tèrrible e caso único no cinema francês, sobretudo no período da Nouvelle Vague, de que se considera ser o seu percursor, roda um documentário que tem como objectivo desmistificar e esclarecer uma figura incompreendida no seu tempo e censurada na sua liberdade de expressão, muito devido ao facto de se encontrar fora desse mesmo tempo e dos gostos da época. É fascinante e ao mesmo tempo triste o seu olhar mas profundamente admirador e vigoroso, empurra para a frente e aproveita a existência daqueles homens ainda vivos e ainda eivados da energia de Vigo para ir às fontes mais próximas retirar a verdade de cada um deles. Verdade e liberdade o mais próximas possível dos acontecimentos, o documentário aparentemente caótico de Rozier, pulsante como a vida, uma homenagem à expressão artística a que Vigo aspirava e com quem a sociedade não foi clemente.

Mais perto da perseguição, para lá da falta de liberdade, a falta de dignidade e de identidade que os judeus sofreram surge plasmada de forma directa em “Four Parts of a Folding Screen”, dos realizadores britânicos Anthea Kennedy e Ian Wiblin, uma referência em forma de documentário à forma como os judeus foram desligados de tudo aquilo que dizia respeito à sua personalidade e posses durante o 3º Reich. De forma quase mecânica, mostra-nos o inventário de bens de que uma família em particular foi despojada antes de conseguir partir para Londres, fugindo do regime que cada vez mais apertava as suas malhas. Mostra, sobretudo, através dos objectivos confiscados e vendidos em leilão, como a identidade daquelas famílias se diluiu em diversas outras casas de famílias alemãs que adquiriram tudo o que pertencia aos judeus e de como o retorno desses leilões permitiu o financiamento da vampiresca guerra que tantos recursos consumia. É um retrato quase desligado das memórias emocionais, isento de humanidade, o desenrolar do enorme inventário de bens e da sua possível localização na Berlim da actualidade, mostrando como para se ser privado da liberdade basta existir no sítio errado à hora errada e ser possuidor de imensos bens.

O cinema independente e livre nas suas mais variadas formas continua a passar no IndieLisboa

Já o documentário de Rüdiger Suchsland, “Hitler’s Hollywood” é uma compilação interpretada pelo realizador, que também é crítico de cinema, de filmes produzidos na Alemanha no período compreendido entre 1933 e 1945, sendo a sequência lógica para o primeiro filme de Rüdiger sobre a produção cinematográfica durante a República de Weimar. Aqui reflecte-se, numa assumida posição pessoal, sobre o modo como o cinema foi colocado ao serviço do Reich e, especificamente, de Goebels, o ministro da propaganda. Gradualmente, desapareceram os estúdios independentes e o cinema apenas tinha uma voz e um estúdio de produção, centralizado na UFA. É clara a censura mas o modo como actua nem sempre o é e é nisso que se foca o realizador, num exercício bem dirigido de pensamento em que pouco espaço é deixado para a reflexão própria e em que perpassa a sensação de branqueamento de todos os temas que ousem colocar em causa o imaginário colectivo. Essa espécie de transe adulador em que a sociedade alemã se encontrou teve também a ajuda deste meio de comunicação de massas que era o cinema e que veiculava ideais de fidelidade, seguidismo obsessivo, dedicação à causa, martírio pessoal e glória do regime e, muitas vezes, referências directas ao fascismo ou aos campos de concentração como um simples passeio no campo.

A necessidade de produção cinematográfica como meio de propaganda levou a que muitos realizadores e actores fechassem os olhos ao que se passava como meio de sobrevivência e de escapar à frente de guerra mas também como única forma de continuar a trabalhar sem ter de recorrer ao exílio. Assim, a maioria das produções da época eram aparentes histórias de amor ou patriotismo que transmitiam mensagens subliminares em relação ao apuramento da raça (outras vezes, as referências aos judeus como raça a eliminar é directa), difundindo a ideia idílica de perfeição que contrastava com a realidade que se vivia na Alemanha, em que era recorrente, por exemplo, o racionamento de comida.

Em “Debaixo do Céu”, o filme de Nicholas Oulman, o centro do também documentário é a fuga de milhares de judeus aquando do começo da perseguição pelo regime nazi, escolhendo para dar voz às histórias os homens e mulheres, hoje octogenários na sua maioria, que na altura eram crianças pequenas. É um retrato impressionante de como através de inúmeros percalços, conseguiram escapar a um regime que, mais tarde ou mais cedo, os transformaria em parte dos milhões de pessoas que foram mortos nos campos de concentração e que, por questões geográficas e políticas, acabaram por chegar a Portugal. Os testemunhos vão-se desenrolando sobre imagens de arquivo para evitar o olhar directo e óbvio e o que perpassa e impressiona com maior dimensão é o facto de estas pessoas chegarem a um Portugal igualmente fascista e exclamarem, ainda hoje, que há muito tempo não experimentavam liberdade como aquela. Por um lado, entrega uma perspectiva de liberdade em várias escalas de importância e relatividade, por outro lado mostra o quanto o país se encontrava mergulhado na modorra do silêncio e de como o regime já estava entranhado nos portugueses. Essa comparação de liberdades é um dos elementos mais devastador, ainda que introduzido subtilmente, deste belíssimo documentário e que coloca frente a frente homens e mulheres cuja liberdade foi subtraída de formas muito diferentes mas em que a perseguição física e moral não tinha em conta a ideia de judeu tal como se encontrava enraizada, por exemplo, na Alemanha.

onde reside a liberdade de criação e para onde vai a humanidade em tempos de repressão?

Em todos estes trabalhos de expressão artística e que o IndieLisboa celebra e celebrou mais uma vez de forma fulgurante e viva, a reflexão sobre a liberdade de expressão, de existência, de criativade e de falar abertamente sobre quase tudo são o resultado de muitas lutas, de muitos traumas (de que o documentário “Hitler’s Hollywood” e posterior conversa com o realizador será o paradigma de como esse trauma se encontra presente na sociedade, naquele caso alemã), muitos modos diferentes de contornar a censura, muitos riscos corridos. Essa reflexão deve continuar e, por isso, o resultado do trabalho destes e, claro, de todos os realizadores que mostram de mãos abertas os seus filmes no âmbito do IndieLisboa, é tão importante para a independência da arte, do cinema, da criação artística. Ao mesmo tempo, constitui uma espécie de prevenção ou lembrança de que não é assim tão difícil resvalar para as dobras de regimes repressivos e basta olhar apenas, por exemplo, para muitos países europeus para perceber como é ténue a linha de fronteira entre a necessidade de segurança e a imposição subtil de repressão de regimes inicialmente democráticos, cada vez mais centrada na forma como a informação é veiculada ao público.

Por isso, o surpreendente filme de Johann Lurf ★ é o final perfeito para que haja um final perfeito e, apesar da propositada redundância, constitui um exercício admirável de mostrar através das estrelas muito mais do que estrelas. Percorre o espaço sideral tal como foi mostrado em diversos filmes ao longo da história, descaracterizando até muitos clássicos de que apenas é possível identificar uma fímbria ou mesmo nada para dar protagonismo ao modo como olharam para o céu nocturno, como viajaram através dele. Leva o espectador numa viagem ao espaço, a vários espaços, infinitos, diversos, filosóficos, isentos, em várias línguas, percorrendo as estrelas que são todas iguais mesmo quando as línguas são mais estranhas, quando nem são compreensíveis. Os anseios e perguntas são os mesmos, as expressões artísticas semelhantes, entrando num transe estelar de que depois é difícil sair, já não é possível deixar de olhar para cima, não se pode deixar de olhar para estes céus artificiais que o cinema criou como forma de escape dentro do escape real. É um sinal de infinitude da mente e da criatividade que não tem fim e, por isso, mesmo após 99 minutos de estrelas elas continuam para lá do filme porque as limitações não se colocam à criatividade e à imaginação.

Por isso, mesmo quando os temas são os da falta de liberdade, a expressão dessa preocupação em liberdade e de como os homens podem não seguir alguns dos caminhos perigosos pelos quais já seguiram é a maior das vitórias. O cinema independente e livre nas suas mais variadas formas continua a passar no IndieLisboa e, por agora, pode respirar-se mais uma vez porque a sua existência é o sinal da saudável convivências das ideias.



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