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A LOJA, Portugiesische Mode

Lenços saloios e galos de Barcelos num espaço contemporâneo no centro de Berlim.

Numa das artérias mais populares da cosmopolita Berlim, um espaço de design de moda, “a loja“, criado por duas portuguesas, Cátia Garcia e Rute Chaves, exala originalidade. Embora o cuidadoso anti-requinte e a urbana apresentação do espaço reflictam a capital alemã, os lenços saloios, os galos de Barcelos, as andorinhas coloridas na parede e a simpatia das criadoras transportam-nos até à doce Lisboa.

A conversa decorreu na “loja“ entre máquinas de costura, lembranças e peças de roupa. O percurso de Cátia Garcia e Rute Chaves prova que só com uma grande entrega e muito trabalho é possível criar as colecções que materializam com tecidos portugueses. O seu espaço é loja, atelier, galeria de arte e tudo o que imaginarem. Ideias não faltam às duas corajosas mulheres do Norte – Cátia é natural de Famalicão e Rute da Régua. No entanto, nas ruas alemãs ninguém diz que não são berlinenses.

Na base deste projecto existe uma longa amizade. Embora quem as conheça actualmente nunca imagine, estudaram juntas Terapia Ocupacional na universidade, no Porto. No que diz respeito a moda, faziam “umas coisinhas, mas nada de especial,“ lembram. “Alterávamos umas t-shirts, mas nunca levámos a coisa a sério“, afirmam.

Olhando para trás, o melhor que lhes aconteceu em Berlim foi não terem encontrado colocação profissional na área que estudaram. O tempo livre deu-lhes a oportunidade para a experimentação de actividades criativas e, com a ajuda e o incentivo de amigos, resolveram criar as suas primeiras peças de roupa.
Choveram feedbacks positivos, começaram a ouvir falar em mercados, primeiro de pequenos, depois dos de maior dimensão, e um dia arriscaram.

Criaram a “Laboratório“ – uma marca experimental que continua a crescer. “Fomos investindo pouco e pouco, até que chegou um momento em que nós realmente precisávamos de um espaço grande para trabalhar“, lembra Cátia, “pensámos em alugar um atelier, e lembrámo-nos que este podia ser aberto para a rua – se fosse assim seria atelier e loja“, explicam.

Quando questionadas sobre a vida em Berlim, ambas concordam que só na cidade alemã seria possível abrirem uma loja. “Até porque eu acho que em Portugal a forma como nos educam é muito conservadora. Aquilo que estudas é aquilo que vais ser. Não tens muito espaço para experimentar outras coisas e fazemos escolhas muito cedo, sem dúvida“, afirma Rute, “acho que se fosse agora não escolhia um curso de saúde. E não tem só a ver com a forma como nos educam, mas também connosco, nunca damos atenção às ideias que temos de forma realista. Mas penso que não seria possível em Portugal. Desta forma tão espontânea, e com tanta aceitação“, diz a designer.

Em Portugal, uma trabalhava numa clínica e a outra num hospital. Nunca havia havia tempo.
Em Berlim permitiram-se arriscar. Até porque começaram por fazer quase tudo. Limpezas, trabalharam em bares, restaurantes, e até em catering, “14 horas seguidas a preparar sanduíches“, recordam.

Em busca da felicidade

Um dia, Rute passou de bicicleta pela rua onde agora é “a loja“, uma perpendicular à famosa avenida Schlesisches, em Kreuzberg. Já conheciam este bairro desde que chegaram, onde sempre quiseram morar. Estavam à procura de uma loja há algum tempo e este era um espaço devoluto. E no bairro onde se mexem mais, onde quase todos os amigos estão. Adquiriram “a loja“. Hoje já existem mil ideias para que seja muito mais do que isso.

“Pensámos que como esta loja tem espaço para acolher outras iniciativas, também podíamos ter aqui upcoming designers como nós, e criar uma galeria de arte“, explica Rute. A área está em constante mutação. “A única coisa fixa que existe aqui é a nossa marca“, sublinham.

Como conhecem bem as dificuldades iniciais dos criativos, dão oportunidades a artistas e designers emergentes e, quando as coisas funcionam, as colaborações vão continuando. “Parte também um pouco do feedback dos clientes“, afirmam. Neste Verão, se tudo correr bem, pretendem abrir a parte de baixo da loja – uma cave com 20 metrros quadrados.  O objectivo é a apresentação de obras de teatro. Na abertura da Loja exibiram os quadros de um pintor espanhol e agora as paredes estão cobertas pelas ilustrações de uma amiga, onde figura Kate Moss, a par com Karl Lagarfeld, Jean Paul Gaultier e Madonna. No futuro, pretendem abrigar vários tipos de eventos criativos na Loja – desde exposicoes de artistas novos, pecas de teatro e concertos.

“No fundo, temos uma grande ligacao à arte“, afirmam, “não propriamente apenas à arte portuguesa mas, claro, dá para perceber pela nossa loja que as peças tradicionais são as coisas de que mais gostamos – o cunho do nosso país é importante“, afirmam.

Um dos conceitos centrais da “loja“ é trazer para Berlim as peças portuguesas com as quais as fundadoras mais se identificam. Praticamente toda a matéria-prima das colecções e actividades da “loja“ são compradas em Portugal, o que as obriga a viajar pelo menos duas vezes por ano até ao nosso país. “Claro que, com as visitas à família acabamos por ir muito mais“, partilham.

Cátia e Rute concordam que Berlim e Lisboa são as principais inspirações. “Berlim e uma influência – as ruas, as pessoas, o verde“, afirmam, “a cidade permite que se façam coisas diferentes e isso aqui é incentivado. Ou seja, se toda a gente gosta do amarelo, mas se tu acordas um dia e até gostas do branco, é bom vestires o branco. Essa permissão dá-te uma liberdade genial,“ diz Rute. Cátia contrapõe: “Mas sairmos de Berlim também é muito bom“. Ambas têm uma grande conexão com Lisboa. Adoram as janela lisboetas. Compram matéria-prima fair trade, nos sítios justos, porque “queremos incentivar o nosso país“, garantem. A ModaLisboa é um sonho.

E apoios? Surgem risos. “Temos o apoio da família, do namorado…“. E explicam: “infelizmente, o apoio ainda é todo muito teórico, à base de panfletos e de coisas que quando espremidas, não sai nada“.

Uma loja portuguesa, concerteza

Nas peças que criam são usados maioritariamente tecidos portugueses. No entanto, os modelos são tudo menos tradicionais: as suas colecções são street wear, em materiais confortáveis como algodão, jersey, e, ultimamente, em tecidos mais sofisticados como o cetim e as sedas. Para esta colecção decidiram arriscar com couros trabalhados à mao e aplicações em forma de nós de marinheiro e cavalos. Surgiu ainda uma colaboração com dois artistas berlinenses: uma especialista em couro trabalhado e um writer habituado a stencil em tecido.

Apesar de toda a criatividade e trabalho admirável, as duas designers não são formadas em design de moda. Cada dia é uma aprendizagem. As colecções acabam por ser um pouco espontâneas. Nunca um processo rígido. Se num dia lhes ocorre uma ideia, facilmente adicionam uma peça nova à colecção. “Já temos bastantes ideias guardadas, chamamos a essa a colecção de Primavera, e a de Verão ainda virá“, explicam. Embora seja quase impensável a ideia de regressarem à universidade, sentem uma sede incrível de formação e gostavam de participar em workshops, colaborar com outros designers ou fazer alguns estágios em grandes marcas. Acreditam que a qualidade dos modelos vai acompanhar a sua formação como designers, que ainda está a crescer. Já existem bastantes propostas para intercâmbio de peças, e até um acordo para a colocação de algumas criações numa loja em Londres. Mas nada formalizado. A prioridade, neste momento, é mesmo a criação.

Desde que abriram “A Loja“ esta é a terceira colecção “Laboratório“. Antes de terem um espaço físico para a marca não as contavam e agora muitos dos padrões que usavam nessa altura estão perdidos. “Antes só trabalhávamos materiais elásticos, que nos davam uma liberdade muito maior, e se olharem para as nossas colecções nota-se nitidamente uma evolução“, reflectem. Actualmente, ressalvam, não confeccionam vários tamanhos. Tudo é tamanho único e a peça pode ser personalizada para o cliente. Embora sejam mantidos os modelos obrigatoriamente, as cores, os tecidos e os tamanhos podem ser alterados ao gosto do freguês.

Apesar das dificuldades, a viagem para Berlim marcou muito as vidas de Cátia e Rute. “Passámos por experiências que nunca tínhamos imaginado. Porque não precisámos, não é? Em Portugal somos quase levados ao colo desde que entramos na escola até sairmos da universidade com vinte e tal anos, e depois começamos a trabalhar em qualquer coisa e vamos ficando“, concordam.

“Todas as experiências difíceis fazem-nos mais fortes“, assinala Rute, “se calhar fizeram-nos mais fortes ao ponto de conseguirmos arriscar sem medo“, afirma. “Até porque fazíamos coisas de que não gostávamos“, sublinha Cátia. “Fazíamos só porque tínhamos que sobreviver. E isso lançou-nos muito mais para esta área. Levou-nos a começar a fazer em casa tudo aquilo que gostássemos“, partilham as criadoras. “E descobrimos uma coisa que realmente nos dá prazer. É muito bom irmos na rua e vermos as pessoas a vestirem uma coisa nossa. Nunca pensámos que isto poderia ser possível“.



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